EXIT! CRISE E CRÍTICA DA SOCIEDADE DAS MERCADORIAS (em português)

EXIT! CRISE E CRÍTICA DA SOCIEDADE DAS MERCADORIAS


Robert Kurz

A LUTA PELA VERDADE

 Notas sobre o mandamento pós-moderno de relativismo na teoria crítica da sociedade
Um fragmento


Nota prévia editorial: O presente texto constitui um fragmento do espólio de Robert Kurz. É aqui publicado sem qualquer tratamento editorial prévio. Anotações entre parênteses e espaços em branco entre parágrafos foram assim deixados pelo autor e apontam para exposições que Robert Kurz já não pôde elaborar.

Fragmento póstumo, dirigido contra o mandamento pós-moderno de relativismo na teoria crítica da sociedade. Este mandamento é identificado como resultado da incerteza transitória, no final da época burguesa, em que também o campo de crítica do capitalismo legitimado com as ideias de Marx se apresenta muitas vezes como uma espécie de labirinto para quem está de fora. A resposta pós-moderna a esta situação consiste agora em viver a "perda de todas as certezas" não porventura como problemática, mas em elevá-la a dogma, a nova garantia de salvação, cuja promessa de felicidade consiste em já não ter de se comprometer com nada e deixar tudo em aberto. Qualquer posição determinada, que desde logo não reconheça também o seu contrário, é acerbamente criticada por este dogma. Mas essa imprecisão e ambiguidade não podem ser mantidas por tempo ilimitado porque a própria gravidade da situação de crise está a obrigar a uma definição. O pensamento pós-moderno, ao rejeitar uma nova clareza ou definição de conteúdo e pretendendo ver justamente nessa rejeição o novo em geral, está apenas a apelar ao potencial de barbárie nele adormecido, sendo apanhado de surpresa pela sua própria decisão infundamentada. (Resumo na Revista EXIT! nº 12)

Conflitos sobre a verdade * Da teorização da política à politização da teoria * (Da politização do privado à privatização do político) * Na ordem do dia estão a táctica, a estratégia, o mimetismo, a camuflagem * O dogma "anti-dogmático" da pós-modernidade * O apertar do parafuso * O lugar na história como campo de batalha das ideias * Linguistic turn * Totalitarismo da linguagem e coisa em si * (Anti-essencialismo) * (A atitude existencial) * (Subjectivismo estrutural) * (A falta de fundamentos da narrativa, construção/desconstrução e discurso) * (Crítica da objectividade negativa ou positivismo do discurso?) * (Relativismo histórico e pós-história) * (Esclarecer o adversário e esclarecer-se si mesmo) * (Negar a objectividade da verdade) * (Do positivismo dos factos ao positivismo da narrativa, da construção e do discurso) * (História da formação e história interna) * (Relativismo estrutural, sem conceito da totalidade) * A história como campo de batalha das ideias, as ideias como armas da história (Os títulos entre parêntesis são de capítulos que não chegaram a ser elaborados: Nota do trad.)



Roswitha Scholz

Homo Sacer e Os Ciganos

O Anticiganismo – Reflexões sobre uma variante essencial e por isso esquecida do racismo moderno

http://www.antigona.pt/catalogo/homo-sacer-e-os-ciganos-241/

ANTÍGONA 

Este livro destaca o real significado do anticiganismo, como variante específica do racismo no seio do capitalismo. A tese central que a autora expõe neste ensaio consiste na ideia de que o cigano se situa desde sempre no exterior da lei e, por isso, representa a sua matriz inadmitida, não sendo a exclusão e a idealização romântica senão as duas faces da mesma moeda racista. «O desprezo pelo cigano é testemunha de uma forma, nada despicienda, do medo da despromoção na escala social, como estado de espírito fundamental e ubíquo no capitalismo», assevera a autora.

Linhas gerais para a transformação da crítica da economia política

http://www.antigona.pt/catalogo/dinheiro-sem-valor-242/

ANTÍGONA


20. O sacrifício e o regresso perverso do arcaico

«Só neste ponto se torna também evidente o carácter modificado da “dívida” secundária no sentido do endividamento económico (crédito). Se o sistema de crédito gerava “investimentos para o futuro”, como diz Bolz em termos elogiosos, tal acontecia unicamente no sentido de um sacrifício futuro de energia humana ao fetiche do capital, ou seja, à objectualidade do valor autonomizada e pseudodivinizada. O segundo plano da “dívida” no sentido do movimento do sacrifício, porém, vem a ser o crédito, se o sacrifício futuro de energia humana por ele antecipado já não puder ser cobrado em termos reais. O que já foi apresentado na habitual terminologia económica adquire, pela decifragem do contexto de sentido transcendental subjacente, um significado medonho: o ídolo, o “sujeito automático”, foi ludibriado pelo sistema financeiro e vinga-se terrivelmente na sociedade, paralisando a reprodução da sua vida real com abalos sucessivos.

Esta viragem do movimento do sacrifício reificado da energia vital humana capitalizada para o literal sacrifício de possibilidades de vida e da própria vida humana processa-se, uma vez mais, não de uma forma homogénea, mas por levas, selectivamente, em determinadas áreas, de um modo escalonado tanto no tempo como no espaço e distribuído por diversas categorias sociais. Acresce que a democratização da crise exige o estatuto de sacrifício interiorizado do sujeito moderno, que nele toma consciência de si próprio; e o auto-abandono voluntário em nome do fetiche do capital, por falta de capacidade de sacrifício de energia vital e de trabalho, constitui a derradeira glória do autocontrolo capitalista e da sua loucura de exequibilidade. O restabelecimento das estruturas arcaicas do sacrifício humano, porém, não é um simples regresso, mas, como qualquer regressão, é tanto mais horrível quanto não é capaz de repousar em si mesma como estado, mas ocorre a um nível há muito afastado da origem como mutilação e destruição sem perspectiva.
Mas a regressão no terreno do fetiche do capital, já incapaz de se reproduzir também, significa que um crescimento desordenado e “asselvajamento” (Roswitha Scholz) do patriarcado moderno, da relação de dissociação sexual, abre caminho nas relações do sacrifício. O regresso do sacrifício humano imediato na economia de crise traz ainda a marca da dissociação sexual, ou seja, daestrutura moderna da subjectividade androcêntrica que, na sua decomposição, reconstitui ao mesmo tempo a “feminilidade” como “matéria-prima” “sobre cujo sacrifício também a nossa civilização está edificada” (Kurnitzky 1994, p. 61). Isto é o fim da ilusão pós-moderna de um nivelamento da assimetria entre os sexos inscrita nas formas básicas do fetiche do capital. O próprio androginismo superficial pós-moderno revela-se uma brutalização da estrutura não suplantada da dissociação, não só nas neuroses compulsivas dos fascistas religiosos, mas também nos modos de reacção da masculinidade encapuçada, economificada e orientada para a concorrência. É nisto que também transparece o carácter ideológico e afirmativo da celebração, por Kurnitzky, de uma base de mercado construída sem alicerces que, ainda assim, também segundo ele assenta em estruturas de sacrifício e, em especial, no sacrifício do objecto passional feminino. A regressão da estrutura reificada da dissociação provoca directamente a vontade de uma reconciliação desesperada com o fetiche do capital através do sacrifício primário de “carne feminina” no seu imundo altar.»

MOEDAS FALSAS DIGITAIS E OUTRAS

O que revela a carreira dos Bitcoins sobre a situação do meio dinheiro

Os selvagens de Cuba achavam que o ouro era o fetiche dos espanhóis.

Organizaram uma festa em honra do ouro, cantaram à volta dele e depois lançaram-no ao mar.

Karl Marx, 1842, MEW 1, p. 147

Sob o título Bits e Barbárie, Paul Krugman, aqui frequentemente citado (a última vez em Fim do Jogo), conta no New York Times de 22 de Dezembro do ano passado uma fábula sobre três tipos de criação de dinheiro, dois dos quais constituem uma regressão monetária, que seria devida à estranha decisão de muitas pessoas de fazerem o tempo andar para trás do nível de progresso alcançado em séculos.

Os limites da resistência à crise na Ucrânia

«A crise do capitalismo atinge inexoravelmente os países em desenvolvimento e manifesta-se das mais variadas formas. Ucrânia, Venezuela, Egito, Síria, Filipinas, Turquia só para citar os mais recentemente acossados por manifestações e guerras com bandeiras diversas, apontam para Continentes inteiros em desespero. Porém, as massas saem às ruas e mantém as lutas nos limites de sempre. Não são capazes, por mais justas que sejam as reivindicações, de romper o círculo vicioso de derrubar governos e eleger outros que repetem as políticas econômicas e sociais dos antecessores e geralmente agem com mais severidade na administração autoritária da crise. Apesar dos sacrifícios, que às vezes desemboca em guerras civis sangrentas, a irrupção dos movimentos sociais não consegue frear o aprofundamento da barbárie da forma como vem se dando os enfrentamentos. Podemos dizer que as mudanças no poder terminam se voltando contra os desejos das ruas, cujas reivindicações não ultrapassam os limites do imediato.»
FEMINISMO – CAPITALISMO – ECONOMIA – CRISE

Objecções da crítica da dissociação-valor a algumas abordagens da actual crítica feminista da economia


As categorias da economia política também noutro aspecto são insuficientes. A dissociação-valor implica uma relação sócio-psicológica específica. Determinadas qualidades menosprezadas (sensualidade, emotividade, fraqueza intelectual etc.) são atribuídas “à mulher” e separadas do sujeito masculino. Tais atribuições específicas de género caracterizam a ordem simbólica do patriarcado capitalista na sua essência. Portanto no caso da relação de género capitalista é preciso ir além da reprodução material e ter em conta tanto a dimensão da psicologia social como a dos símbolos culturais. É especialmente nestes níveis que o patriarcado capitalista se revela como um todo social (ver Scholz, 2011a).»

 


A HISTÓRIA COMO APORIA

Teses preliminares para a discussão em torno da historicidade das relações de fetiche
(3ª Série)
SINOPSE: 1. A abordagem da teoria da história para além do marxismo tradicional/ 2. A problemática do conceito de história como constructo moderno/ 3. Aporias solúveis e insolúveis/ 4. A crítica radical da modernidade não pode deixar de ter uma teoria da história/ 5. Dissociação e fetiche/ 6. Capitalismo e Religião/ 7. Sobre o conceito de relações de fetiche/ 8. Metafísica, transcendência e transcendentalidade/ 9. Da divisão de épocas ao relativismo da história/ 10. Alinhar com o processo de desmoronamento da filosofia burguesa da história?/ 11. Que significa pensar contra si mesmo?/ 12. A dialéctica da teoria da história em Adorno/ 13. Crítica do conhecimento da teoria da dissociação e crítica do conceito de história/ 14. Teoria negativa da história e programa de desontologização/ 15. Um novo conceito de unidade entre continuidade e descontinuidade/ 16. Conceitos afirmativos da reprodução e conceitos histórico-críticos da reflexão/ 17. Ruptura ontológica e “superavit crítico [kritischer Uberschuss]”/ 18. Insuficiências e conteúdos de ideologia alemã, reaccionários, da hermenêutica da história/ 19. Fossilização ontológica como vingança da dialéctica/ 20. Consequências possíveis: pose neo-existencialista, decisionismo, reformismo neo-verde.