Em memória de
Robert Kurz
1943-2012
Robert Kurz faleceu em 18 de
Julho de 2012 com 68 anos de idade. Tudo indica que a influência da obra da sua
vida vai continuar muito para lá da sua morte. Tanto os escritos por ele
deixados (em anexo uma lista dos seus textos mais importantes) como a influência
directa que Robert Kurz teve sobre as pessoas que o conheceram, bem evidente em
muitos dos necrológios. Influência que resultava essencialmente duma relação com
os seus conhecimentos e convicções insusceptível de ser corrompida ou
instrumentalizada, como constata Daniel Späth:
“Desde que o conheci nunca o vi
jogar a sua destacada posição teórica a favor de interesses tácticos de poder ou
considerar a crítica como local de realização de sensibilidades pessoais; a
arrogância e a fixação no ego eram-lhe profundamente estranhas. Que essa
acusação seja levantada de vez em quando contra ele por alguns companheiros e
companheiras de viagem deverá, nessa medida, ser atribuído ao desejo de deslocar
para o plano pessoal diferenças objectivas de conteúdo e suas formas de decisão
necessariamente veementes. Pois por muito polémicos que os seus textos e livros
fossem, emanava do seu espírito refinado e da sua inexorabilidade convincente
uma disputa pelo conteúdo e pela sua transformação em crítica radical, mas não a
necessidade de autopromoção numa mera denúncia. Por muitos que tenham sido os
violentos confrontos, por vezes desagradáveis com pena sua, que Robert Kurz
conduziu e teve de conduzir na e com a esquerda, ele nunca perdeu a esperança de
que esta se livrasse de vez dos seus restos burgueses, para finalmente realizar
o projecto de uma ‘antimodernidade emancipatória’”.
Foi a unidade entre a pessoa e a
obra e, de par com ela, a ausência da busca de poder e de vaidade pessoal que
proporcionaram o impacto de Robert no seu campo de acção e nos projectos em que
participou, mas também lhe granjearam inimizades, como constatou Heribert
Böttcher no seu elogio fúnebre:
“O desafio do sofrimento humano
não tornou Robert moralista, mas deu-lhe que pensar. Levou-o a uma análise que
lhe permitiu reconhecer o que constitui o mal da situação na história do
capitalismo: a valorização do valor como fim em si mesmo irracional, e – como
ele assumiu do pensamento de Roswitha – a dissociação das actividades que servem
para a reprodução da vida. Valor e dissociação constituem a dominação abstracta
de um sujeito automático que condena as pessoas à impotência e à apatia. É
importante distinguir entre o que é entendido categorialmente como essência do
capitalismo no contexto formal de valor e dissociação, de trabalho abstracto,
Estado, sujeito, etc., e o que pode ser descrito como suas manifestações. As
alterações no plano das manifestações não atingem o contexto formal nem,
portanto, a dominação abstracta. Com o reconhecimento desta, no entanto, ficam
bloqueadas as vias da facilidade e do alívio. Fica bloqueada a fuga para a
imediatidade tão estafada como simplista do activismo político ou para a
orientação de campanhas nos movimentos sociais. Não faz sentido invocar o
trabalho bom contra o trabalho alienado, o Estado contra o mercado, o sujeito
contra o objecto. Um pólo não é a solução para o outro, mas parte do problema a
ser resolvido.
Responder de forma moralista e
activista ao desafio do sofrimento das pessoas no capitalismo parecerá concreto.
Na verdade, essa resposta é abstracta num mau sentido, pois abstrai da mediação
objectiva que faz sofrer as pessoas na sua pele. Insistir na mediação objectiva
do sofrimento dos seres humanos no capitalismo e, portanto, na
indispensabilidade da teoria é tão lúcido que pode levar a qualificar a pessoa
como Lúcifer. O portador da luz é transformado em Satanás. Quem traz a luz do
conhecimento a um sistema de funcionamento cego sofre rejeição, difamação e
hostilidade por parte daqueles que se agarram à pretensa segurança de categorias
e estratégias de acção familiares, não conseguindo assim abandonar nem mesmo as
ideias ilusórias e irracionais de superação do capitalismo dentro do
capitalismo.
Não é por acaso que o pensamento
de Robert também foi sempre acompanhado de ignorância e hostilidade, de sarcasmo
e zombaria, bem como de acusações de afastamento da prática e de falta de
comunicação. No entanto, Robert insistiu em procurar a verdade do que precisava
de ser reconhecido. Ele resistiu – para usar as palavras de Adorno – "à
compulsão quase universal de confundir a comunicação do conhecido com o
conhecido e, eventualmente, dar mais importância à comunicação do que ao
conhecido". Ele insistiu em que: "o critério da verdade não é sua
comunicabilidade imediata a todos."
Resistir às inimizades e
permanecer firme perante as hostilidades é sobretudo possível a pessoas no seu
íntimo orientadas de maneira contemplativa – a contemplação entendida como
tentativa persistente e resistente de ir até ao fundamento das relações, como
expressão de vontade indomável de conhecimento teórico, ou seja, de conhecimento
que tenha em vista a totalidade. Isto não é feito por amor de ganho de
conhecimento privado, mas para levar o conhecimento aos outros ou, na linguagem
do misticismo, contemplata aliis tradere, para levar aos outros o que foi
contemplado. No interesse do conhecimento e da humanidade resta esperar que os
conhecimentos que Robert nos deixou a nós e ao público possam ser apreendidos e
desenvolvidos e obtenham o reconhecimento que a ele lhe foi negado muitas vezes
em vida. Esperemos que ainda haja tempo de o pensamento de Robert se tornar
frutífero, para pôr fim ao que ele descreveu como uma catástrofe que se está a
tornar realidade.”
A obra teórica de Robert desde o
início definiu a exigência de reconhecimento da teoria como momento autónomo e
constitutivo da emancipação social. Assim se diz em 1988 no Manifesto
Auf der Suche nach dem verlorenen sozialistischen Ziel [Em
Busca do Objectivo Socialista Perdido]:
“Mas no papel dessas enchentes
de produção teórica nunca foi tocada a sua própria melodia às formas de
socialização capitalista desenvolvidas até à reconhecibilidade, de modo a
trazê-las à baila. A teoria na realidade nunca obteve o seu direito, porque
nunca foi reconhecida como um momento com peso próprio no movimento de
emancipação social. A esquerda, perante as circunstâncias existentes, tocou
apenas as várias melodias dos seus próprios sonhos, declarações de intenção e
prestidigitações políticas na teoria degradada em mero INSTRUMENTO. A ciência
revolucionária perdeu o seu orgulho e a sua garra, pois foi sistematicamente
rebaixada pela esquerda no seu conjunto a gata borralheira de premissas
políticas e formas sociais de vida a-científicas e pré-científicas que ela tinha
de servir como criada da legitimação. Como não passava de um meio para
objectivos sociais políticos, que permaneciam eles próprios fora do alcance da
reflexão crítica, a teoria revolucionária tinha de perecer. O entendimento da
teoria da esquerda, apesar de todas as declarações de intenção socialistas e
comunistas, manteve-se, em última análise, um entendimento burguês, positivista.
Os próprios objectivos políticos subjectivos já eram sempre pressupostos à
teoria, em vez de deduzidos dela. Este desdentamento metodológico no
entendimento da teoria e a falsa imediatidade da vontade política já traziam
assim o signo da imanência burguesa, mesmo enquanto a esquerda ainda não se
tinha revelado na sua mais recente cidadania de preto-vermelho-amarelo.”
A questão da relação entre
teoria e práxis revelou-se, no desenvolvimento do projecto de crítica da
dissociação e do valor, como fonte principal e chama permanente de
mal-entendidos e inimizades, até mesmo nos obituários, em que Robert Kurz é
acusado de “afastamento da práxis” e de "se fechar numa torre de marfim teórica
cada vez mais alta". O texto Grau ist des Lebens Goldner Baum und Grun die
Theorie [Cinzenta é a Árvore Dourada da Vida e Verde é a Teoria]
confronta-se com tais acusações. Aí se diz a concluir:
“Uma verdadeira autopresunção da
reflexão teórica seria a pretensão de ainda querer “derivar” a suplantação do
capitalismo, pois isso significaria mesmo uma recaída na objectivação da teoria
da estrutura; todo o “derivável” permanece per se preso ao campo da
imanência capitalista. Inversamente, o mesmo vale para uma intencionalidade
“existencial” com base na teoria da acção e indiferente à objectivação real
fetichista. Pelo contrário, a intencionalidade de transcendência tem de
enfrentar precisamente a falsa objectivação dominante; e isso só é possível na
medida em que a reflexão teórica, enquanto tal, é firmemente praticada de modo
continuado, até para além de si mesma. Para isso é preciso uma distância
consciente da teoria crítica em relação a toda a práxis encontrada.
A pretensão ilusória de esbater
essa distância vem de duas direcções. Por um lado, vem dos “activistas” da
própria práxis, que se indagam insatisfeitos acerca do “valor alimentar” da
teoria para os seus actos e feitos aparentemente auto-evidentes. Neste caso,
muitas vezes não se trata de portadores directos da resistência social nas
frentes de crise da socialização negativa, mas sim de poli-activistas,
“círculos” etc. de esquerda, que normalmente se encontram, eles próprios, muito
mais numa relação externa em relação às lutas sociais, ou que apenas as simulam.
Falham na sua possível actividade de mediação, ao agirem simplesmente como
aqueles organizer de que falava Adorno. Mas, por outro lado, a falsa
pretensão de práxis também vem da própria elaboração teórica, quando os seus
portadores não mantêm a devida distância e anseiam por uma fusão com formas de
práxis existentes que facilmente são mistificadas. Em ambos os casos, a teoria
crítica torna-se verdadeiramente supérflua, ou é transformada num mero “sermão
dominical”, como uma espécie de literatura edificante para a operação de um
activismo que, no fundo, também sem ela se difundiria, com a sua acção por si só
legitimada, e que quer ficar à vontade na sua tacanhez. A crítica teórica até
pode ser hostilizada a partir de tais estados de consciência; como dizia Marx no
prefácio à 1ª edição de O Capital, também para ela tem de valer o “lema
do grande florentino”: Segui il tuo corso, e lascia dir le genti!”
Em todos os projectos em que
Robert Kurz participou com os seus escritos promoveu sempre o desenvolvimento da
teoria – aqui em grande parte pressuposto conhecido – para lá do estado da
discussão de então. É o caso também do seu último livro, Geld ohne Wert
[Dinheiro sem Valor], concluído pouco antes e publicado pouco depois da sua
morte. As inovações aí incluídas já são reclamadas no sub-título Linhas
Gerais para a Transformação da Crítica da Economia Política. Robert
deixou-nos aqui um legado cuja assimilação nos vai ocupar ainda por muito tempo.
Ao longo de todo o livro Robert
Kurz confronta-se com a “Nova Leitura de Marx” (M. Heinrich, entre outros) e com
a “Ortodoxia recente” (W. F. Haug, entre outros), às quais ele atesta por igual
um “mais ou menos claro afastamento de Marx”. Na introdução do livro diz-se a
propósito:
“No confronto com estas
decidir-se-á se terá lugar uma transformação da teoria de Marx no sentido de se
fazer avançar a revolução teórica ou mais um revisionismo de nova qualidade. No
centro deste processo encontram-se necessariamente as categorias fundamentais da
crítica da economia política e o seu estatuto. Trata-se de pelo menos cinco
complexos de questões que têm de ser tratados e clarificados a este respeito,
sendo que o presente ensaio não pode senão delimitar preliminarmente o terreno
para dar uma resenha das linhas mestras do conflito teórico inevitável.
O primeiro complexo diz respeito
à questão de saber em que medida as categorias de Marx não representam
categorias meramente teóricas ou um “modelo” meramente hipotético, mas são
categorias reais ou, de acordo com Marx, “formas objectivas de existência”, às
quais correspondem “formas objectivas de pensamento”. Neste último entendimento,
porém, a diferença entre a relação histórica real e a sua reflexão teórica mesmo
assim ainda não se encontra de todo nivelada. Acontece que na teoria o estatuto
das categorias tem de ser outro que na realidade. Daí resulta o célebre
“problema da exposição” no desenvolvimento sequencial da teoria de Marx, que até
foi trazido à baila pela nova leitura de Marx, mas que de modo algum ficou
resolvido adequadamente.
O segundo complexo refere-se à
historicidade das categorias num sentido duplo. Por um lado está em causa o seu
estatuto na história pré-moderna ou pré-capitalista. Será que devem ser
entendidas como transversais às formações ou mesmo trans-históricas, ao menos
para as culturas ditas superiores aproximadamente desde a revolução neolítica,
ou aplicam-se em sentido rigoroso apenas ao capitalismo? Em que consiste afinal
a diferença, e como pode a constituição histórica primordial do capital ser
traduzida em categorias? Por outro lado tem de ser determinado o estatuto das
categorias no seio da história interna do capitalismo. Trata-se de formas de
existência em si dinâmicas que apenas podem figurar como sempre iguais na
abstracção teórica, ou são em si estáticas, de modo que se lhes defronta uma
história de acontecimentos exterior e meramente empírica? Da resposta a esta
questão depende não só sabermos se uma exposição definitiva do “capital em
geral” é de todo possível, mas também se existe um limite histórico interno da
valorização do capital (teoria da crise).
O terceiro complexo ocupa-se da
relação entre as categorias e a totalidade capitalista ou “processo global”
(Marx) do capital que só é tratado no terceiro volume da obra principal de Marx.
Aqui a questão do estatuto das categorias refere-se à relação entre a
particularidade e a generalidade social. Será que as categorias da crítica da
economia política podem ser conceptualmente representadas na mercadoria
particular e no capital individual, ou trata-se à partida de categorias da
totalidade que, enquanto tais, apenas se aplicam ao todo e têm de parecer
erradas da perspectiva dos sujeitos económicos individuais e da sua actuação?
Isso também significaria que o conceito de Marx do “valor individual” está
errado e é devido apenas ao seu “problema da exposição”, em que implicitamente e
sem querer se manifesta o “individualismo metodológico” das ciências sociais
burguesas, obstruindo a prossecução da revolução teórica.
O quarto complexo afere o
estatuto das categorias na relação entre essência e aparência. Será que no caso
das categorias da crítica da economia política se trata de determinações da
essência de um “apriorismo transcendental” que não podem manifestar-se enquanto
tais de forma imediata, mas que ainda assim constituem a realidade social, ou
podem os fenómenos capitalistas ser compreendidos nas categorias de forma
directa e existir de forma independente? Como categorias reais transcendentais
não podem ser empíricos, e se forem entendidos como empíricos não necessitam de
uma definição transcendental. No primeiro entendimento, a teoria e o
conhecimento empírico não podem fundir-se uma no outro e os fenómenos têm antes
de mais de ser decifrados; no segundo, a essência e a aparência, e com elas
também a teoria e o conhecimento empírico, coincidem de forma imediata, ou as
próprias categorias são imediatamente empíricas. Nesse caso já apenas existem, a
bem dizer, fenómenos, por um lado, e a sua observação “científica”, por outro.
O quinto complexo constitui de
certo modo a conclusio do entendimento categorial total. O estatuto das
categorias da crítica da economia política será positivo ou negativo? “Positivo”
deve aqui ser entendido no sentido de uma objectividade exterior neutra com que
um sujeito do conhecimento se defronta. É esta a constelação fundamental do
mundo da ciência que exclui o conceito de crítica e, com ele, a bem dizer,
também o subtítulo de O Capital de Marx. A crítica nesse caso tem de ser
substituída por uma ética igualmente exterior. As categorias não são, desta
perspectiva, apenas meros modelos do pensamento (como se insinuou no primeiro
complexo), mas estão também relacionadas com uma objectividade inquestionável
cujas “leis” apenas devem ser identificadas e tratadas de forma instrumental.
Se, pelo contrário, o estatuto das categorias for negativo, também o seu
conhecimento apenas pode ser negativo, ou seja, processar-se apenas no modus da
crítica ao próprio objecto que deve ser destruído e cujas “leis” têm de ser
abolidas.
Desta breve resenha já se
depreende que a prossecução da revolução teórica de Marx será, em termos
epistémicos, fundamentalmente crítica da ciência e terá de acabar com qualquer
entendimento positivista do capital que ainda foi característico da totalidade
do marxismo do movimento operário (tanto da ortodoxia como do revisionismo) e
renasceu alegremente das cinzas sob uma forma pós-modernamente reformulada. Um
momento essencial nesta abolição do pensamento positivista é constituído pela
crítica radical do “individualismo metodológico”, não só como referido acima no
terceiro complexo, mas como momento abrangente de todos os aspectos de uma nova
interpretação da crítica da economia política.”
O programa assim formulado é
realizado em Dinheiro sem Valor na realidade e no conceito de dinheiro.
Já havia dinheiro muito antes do capitalismo, o que leva a que as categorias
capitalistas que hoje se manifestam no dinheiro (trabalho abstracto, valor,
forma de mercadoria) sejam apressadamente pensadas como trans-históricas, como
se “já sempre” tivessem existido. É um erro, pois o dinheiro desempenhava nas
relações pré-capitalistas, como “objectividade sacrificial simbólica”, um papel
completamente diferente, não era dinheiro no sentido actual, não representava
qualquer valor. Mesmo no desenvolvimento da sociedade burguesa, desde os
primórdios da idade moderna até ao capitalismo industrial desenvolvido, a função
social do dinheiro sofreu metamorfoses. Também daqui decorre claramente, mais
uma vez, que o capitalismo tem uma história interna e não é a repetição do
sempre igual. Dinheiro sem Valor tem portanto uma importância dupla:
descreve não só o passado, mas também o desenvolvimento futuro da
autodesvalorização do valor e da “crise histórica do dinheiro” que aí se
manifesta.
O livro conclui com as
tenebrosas perspectivas que se manifestam de um “regresso do arcaico”,
virando-se contra a “regressão” predominante “para o terreno do fetiche do
capital que já não é capaz de se reproduzir”:
“Quem ainda diz que o fetiche do
capital e a sua "razão" imanente terá sido um passo positivo na história da
humanidade (é o caso dos idealistas da troca, como idiotas históricos da
ideologia do Iluminismo) deve ser designado nas condições do século XXI como
maníaco pós-religioso, que não fica nada atrás dos maníacos pseudo-religiosos
desta época. Essa razão é por natureza destruída na sua própria consequência
histórica. Aquele estado de emergência da moderna relação sacrificial paradoxal
que no passado surgia periodicamente já se tornou o estado normal para a maioria
na sociedade mundial do início do século XXI e avança passo a passo nos centros
capitalistas. Até bem dentro da esquerda faz-se notar uma identificação
irracional e em pânico com a relação sacrificial fundamental, porque as pessoas
foram instruídas mesmo intelectualmente nas categorias dessa relação e
reprimiram o "outro" Marx da crítica radical do sistema de "riqueza abstrata".
A fuga para a co-gestão da crise
só pode levar à cumplicidade com o sacrifício humano, consumado objectivamente e
finalmente com plena consciência; não mais como sacrifício de energia laboral
abstractificada até o material humano sugado cair morto, mas sim, depois de esta
compulsão se tornar objectivamente obsoleta, já apenas como “eutanásia” para as
massas dos não utilizáveis em termos capitalistas, a qual tem de assumir traços
anómicos. Depois de o dinheiro ter sido transformado de vítima simbólica em
objectividade geral do valor no sistema de "trabalho abstracto", agora o
"dinheiro sem valor" pode regressar a relações quase arcaicas nesta base
desvalorizada, dessubstancializada, que no entanto já não estão submetidas a
qualquer ritual limitado, mas acabam numa matança e numa descivilização sem
rumo. Se as metamorfoses do dinheiro na passagem do sacrifício humano para o
objecto simbólico de substituição constituíram um processo parcial de
civilização na base não suplantada das relações de fetiche, o fetiche do capital
desencadeou um movimento sacrificial reificado que tem como resultado a
regressão de todos os elementos civilizatórios da história humana anterior. Os
sanguinários sacerdotes astecas eram inofensivos e amigáveis em comparação com
os burocratas do sacrifício ao fetiche do capital global no seu limite interno
histórico.”
O que aqui é apresentado,
obviamente, não são as consequências do processo de uma lei natural, como Robert
Kurz não se cansou de chamar a atenção: o fetiche do capital é feito pelos seres
humanos e também pode ser por eles eliminado. A barbárie não é inevitável.
Claus Peter Ortlieb
Escritos teóricos mais
importantes de Robert Kurz
Der Kollaps der Modernisierung.
Vom Zusammenbruch des Kasernensozialismus zur Krise der Weltökonomie, Frankfurt
a. M. 1991 [O colapso da modernização. Da derrocada do socialismo de caserna à
crise da economia mundial, São Paulo, Ed. Paz e Terra, 5ª edição, 1996]
Honeckers
Rache: Zur politischen Okonomie des wiedervereinigten Deutschlands, Berlin1991
Potemkins
Ruckkehr: Attrappen-Kapitalismus und Verteilungskrieg in Deutschland, Berlin
1993 [O Retorno de Potemkin. Capitalismo de fachada e conflito distributivo na
Alemanha, São Paulo, Ed. Paz e Terra, 1993]
Die Welt als Wille
und Design.
Postmoderne, Lifestyle-Linke und die Ästhetisierung der
Krise [O Mundo como Vontade e Design. Pós-modernidade, esquerda chique e
estetização da crise], Berlin 1999
Schwarzbuch
Kapitalismus. Ein Abgesang auf die Marktwirtschaft [O Livro Negro do
Capitalismo. Um canto de despedida da economia de mercado], Frankfurt a. M.
1999, Segunda edição ampliada 2009
Marx lessen. Die
wichtigsten Texte von Karl Marx für das 21.
Jahrhundert
[Ler Marx.Os textos mais importantes de Marx para o século XXI], Frankfurt a. M.
2000
Weltordnungskrieg.
Das Ende der Souveränität und die Wandlungen des Imperialismus im Zeitalter der
Globalisierung [A Guerra de Ordenamento Mundial. O Fim da Soberania e as
Metamorfoses do Imperialismo na Era da Globalização], Bad Honnef 2003
Die
Antideutsche Ideologie. Vom Antifaschismus zum Krisenimperialismus: Kritik des
neuesten linksdeutschen Sektenwesens in seinen theoretischen Propheten [A
Ideologia Anti-Alemã. Do antifascismo ao imperialismo de crise: crítica da
novíssima essência sectária alemã de esquerda nos seus profetas teóricos],
Münster 2003
Das Weltkapital.
Globalisierung und innere Schranken des modernen warenproduzierenden Systems [O
Capital Mundial.
Globalização e Limites Internos do Moderno Sistema Produtor de Mercadorias],
Berlin 2005
Geld ohne
Wert. Grundrisse zu einer Transformation der Kritik der politischen Ökonomie,
Berlin 2012 [Dinheiro sem Valor. Linhas gerais para a transformação da crítica
da economia política, Lisboa, Ed. Antígona: publicação anunciada para 06/2013]
Der Letzte macht das Licht aus.
Zur Krise von Demokratie und Marktwirtschaft [O Ultimo Apaga a Luz. Sobre a
crise da democracia e a economia de mercado], Berlin 1993
Blutige Vernunft.
Essays zur emanzipatorischen Kritik der kapitalistischen Moderne und ihrer
westlichen Werte [Razão Sangrenta.
Ensaios sobre a crítica
emancipatória da modernidade capitalista e seus valores ocidentais], Bad Honnef
2004
Der Alptraum der
Freiheit. Perspektiven radikaler Gesellschaftskritik.
Essays,
Kritiken, Polemiken [O Pesadelo da Liberdade. Perspectivas da Crítica Radical.
Ensaios, Críticas, Polémicas], Ulm 2005 (juntamente com Roswitha Scholz und Jörg
Ulrich)
Artigos de revista de maior
dimensão
Die Krise
des Tauschwerts. Produktivkraft Wissenschaft, produktive Arbeit und
kapitalistische Reproduktion [A Crise do Valor de Troca. Ciência força
produtiva, trabalho produtivo e reprodução capitalista], Marxistische Kritik 1,
1986
Abstrakte
Arbeit und Sozialismus. Zur Marx'schen Werttheorie und ihrer Geschichte
[Trabalho Abstracto e Socialismo. Sobre a teoria do valor de Marx e a sua
história], Marxistische Kritik 4, 1987
Auf der
Suche nach dem verlorenen sozialistischen Ziel. Manifest für die Erneuerung
revolutionärer Theorie [Em Busca do Objectivo Socialista Perdido. Manifesto pela
renovação da teoria revolucionária], Initiative Marxistische Kritik, IMK (Hrsg.),
1988
Alles im Griff auf
dem sinkenden Schiff.
Überakkumulation, Verschuldungskrise und "Politik"
[Tudo sob Controle no Navio que se Afunda. Sobreacumulação, Crise de
Endividamento e “Política”], Marxistische Kritik 6, 1989
Deutschland
einig Irrtum.
Die Wiedervereinigungsfalle und die Krise des warenproduzierenden
Weltsystems [Alemanha, Equívoco Unido.
A armadilha da reunificação e a
crise do sistema mundial produtor de mercadorias], Krisis 8/9, 1990
Die
verlorene Ehre der Arbeit.
Produzentensozialismus als logische
Unmöglichkeit [A
Honra Perdida do Trabalho. O socialismo dos produtores como impossibilidade
lógica],
Krisis 10, 1991
Geschichtsverlust.
Der Golfkrieg und der Verfall marxistischen Denkens [A Perda da História. A
guerra do golfo e o declínio do pensamento marxista], Krisis 11, 1991
Geschlechterfetischismus.
Anmerkung zur Logik von Weiblichkeit und Männlichkeit [Fetichismo Sexual. Nota
sobre a lógica de feminilidade e masculinidade], Krisis 12, 1992
Subjektlose
Herrschaft. Zur Aufhebung einer verkürzten Gesellschaftskritik [Dominação
sem Sujeito. Sobre a Superação de uma Crítica Social Redutora],
Krisis 13, 1993
Das Ende der Politik. Thesen zur
Krise des warenförmischen Regulationssystems [O
Fim da Política. Teses sobre a crise do sistema de regulação da forma da
mercadoria],
Krisis 14, 1994
Der Zusammenbruch des Realismus.
Anmerkungen zum Verfall der ehemaligen linken Opposition [O fracasso do
realismo. Notas sobre a decadência da antiga oposição de esquerda], Krisis 14,
1994
Postmarxismus
und Arbeitsfetisch. Zum historischen Widerspruch in der Marxschen Theorie [O
Pós-Marxismo e o Fetiche do Trabalho. Sobre a contradição histórica na teoria de
Marx], Krisis
15, 1995
Die
Himmelfahrt des Geldes. Strukturelle Schranken der Kapitalverwertung,
Kasinokapitalismus und globale Finanzkrise [A
Ascensão do Dinheiro dos Céus. Os limites estruturais da valorização do capital,
o capitalismo de casino e a crise financeira global],
Krisis. 16/17, 1995
Die
letzten Gefechte. Ein Essay über den Pariser Mai, den Pariser Dezember und das
Bündnis für Arbeit [Os
Últimos Combates. O Maio parisiense de 1968, o Dezembro parisiense de 1995 e o
recente acordo trabalhista alemão],
Krisis 18, 1996
Antiökonomie
und Antipolitik. Zur Reformulierung der sozialen Emanzipation nach dem Ende des
'Marxismus' [Antieconomia
e Antipolítica. Sobre a reformulação da emancipação social após o fim do
"marxismo”], Krisis 19, 1997
Weinkenner aller
Länder, vereinigt Euch!
Postmodernismus, Lifestyle-Linke und die
Ästhetisierung der Krise [Enólogos de Todos os Países, Uni-Vos! O
pós-modernismo, a esquerda chique e a estetização da crise], Krisis 20, 1998
Blutige Vernunft.
20 Thesen gegen die sogenannte Aufklärung und die westlichen Werte [Razão
Sangrenta. 20 Teses contra o chamado
Iluminismo e os "Valores Ocidentais"],
Krisis 25, 2002
Negative Ontologie. Die
Dunkelmänner der Aufklärung und die Geschichtsmetaphysik der Moderne [Ontologia
Negativa. Os obscurantistas do Iluminismo e a metafísica histórica da
Modernidade],
Krisis 26, 2003
Tabula Rasa. Wie
weit soll, muss oder darf die Kritik der Aufklärung gehen?
[Tabula
Rasa. Até onde é desejável, obrigatório ou lícito que vá a crítica ao
Iluminismo?],
Krisis 27, 2003
Die Substanz des
Kapitals. Abstrakte Arbeit als gesellschaftliche Realmetaphysik und die absolute
innere Schranke der Verwertung.
Erster Teil [A
Substância do Capital. O trabalho abstracto como metafísica real social e o
limite interno absoluto da valorização. Primeira parte],
Exit! 1, 2004
Die Substanz des
Kapitals. Abstrakte Arbeit als gesellschaftliche Realmetaphysik und die absolute
innere Schranke der Verwertung.
Zweiter Teil [A
Substância do Capital. O trabalho abstracto como metafísica real social e o
limite interno absoluto da valorização. Segunda parte],
Exit! 2, 2005
Grau ist des Lebens
goldner Baum und grün die Theorie.
Das Praxis-Problem als Evergreen
verkürzter Gesellschaftskritik und die Geschichte der Linken [Cinzenta
é a Árvore Dourada da Vida e Verde é a Teoria.
O problema da práxis como evergreen de uma crítica
truncada do capitalismo e a história das esquerdas],
Exit! 4, 2007
Der Unwert des Unwissens.
Verkürzte „Wertkritik“ als Legitimationsideologie eines digitalen
Neo-Kleinbürgertums [O
Desvalor do Desconhecimento. “Crítica do valor” truncada como ideologia de
legitimação de uma nova pequena-burguesia digital],
Exit! 5, 2008
Die
Kindermörder von Gaza. Eine Operation „Gegossenes Blei“ für die empfindsamen
Herzen [Os
Assassinos de Crianças de Gaza. Uma operação “chumbo derretido” para corações
sensíveis],
Exit! 6, 2009
Es rettet euch kein
Leviathan - Thesen zu einer kritischen Staatstheorie.
Erster
Teil [Não
há Leviatã que vos salve. Teses para uma teoria crítica do Estado. Primeira
parte],
Exit! 7, 2010
Es rettet euch kein
Leviathan - Thesen zu einer kritischen Staatstheorie.
Zweiter
Teil [Não
há Leviatã que vos salve. Teses para uma teoria crítica do Estado. Segunda parte],
Exit! 8, 2011
Kulturindustrie
im 21. Jahrhundert. Zur Aktualität des Konzepts von Adorno und Horkheimer [A
Indústria Cultural no Século XXI. Sobre a actualidade da concepção de Adorno e
Horkheimer – tradução em curso], Exit! 9, 2012
Original Zur
Erinnerung an Robert Kurz (1943-2012) in revista EXIT!
Krise und
Kritik der Warengesellschaft, 10 (11/2012) [EXIT! Crise e Crítica da Sociedade
da Mercadoria, nº 10 (11/2012)], ISBN 978-3-89502-346-0, 272 p., 13 Euro,
Editora: Horlemann Verlag, Heynstr. 28, 13187 Berlin, Deutschland, Tel +49-(0)30
49 30 76 39, E-mail: info@horlemann-verlag.de, http:// www.horlemann.info.
Tradução de Boaventura Antunes (02/2012).