DOPING ECONÓMICO
As crises vêm e vão, mas o capitalismo
continua. Disso estão convencidos tanto os teóricos liberais como os de
esquerda. Como será superada uma grande crise económica? Através da
desvalorização do capital excedentário em todas as suas formas (meios de
produção, força de trabalho, mercadorias, capital monetário). Então supostamente
poderá recomeçar-se sempre de novo. Os professores de economia chamam a isso
"ajustamento", a esquerda académica chama-lhe "limpeza". Desde o Outono de 2009
diz-se em geral que a nova crise económica mundial já teria passado. Mas a
grande desvalorização ou limpeza não ocorreu. Em vez disso "escapou-se" de
qualquer maneira. De acordo com os pontos de vista da ciência económica oficial,
tal como dos seus colegas de esquerda, isso prova que o verdadeiro choque de
desvalorização ainda está para vir.
Talvez os pragmáticos tenham sido mais
sensatos que os teóricos, porque pressentiram que após o ajustamento global
restaria apenas terra queimada do ponto de vista económico. É claro que as suas
operações de resgate apenas empurraram com a barriga o problema fundamental,
deixando-o crescer em dimensões cada vez maiores. Há mais de 20 anos que a
economia mundial vive principalmente do doping financeiro. Durante muito tempo
foram as bolhas financeiras, o poder de compra criado sem base real; depois,
desde a passagem do século, os bancos centrais e os orçamentos públicos. A
mobilização de força de trabalho na China, na Índia e na Europa foi baseada
unicamente em circuitos de deficit de sentido único. Os processos de produção
assim fomentados são em última análise "inválidos". Terão de terminar com a
desvalorização de todos os seus componentes. Assim, embora os teóricos acabem
por ter razão, daí não decorre nenhuma nova perspectiva para a valorização
global do capital.
Pode-se falar de uma paralisia tanto da
teoria económica como da política económica e monetária. É o que testemunham
também as controvérsias violentas entre a corporação dos economistas e entre os
governos. Os neoliberais de linha dura, como o ex-economista-chefe do BCE,
Jürgen Stark, que acaba de se demitir, querem pôr fim a isto pelo terror, porque
acreditam mais na sua ideologia do que na realidade. Os pragmáticos, no entanto,
querem expandir o doping fiscal excessivamente, apesar de assim acumularem cada
vez mais combustível para o inevitável choque de desvalorização. Actualmente por
todo o lado estão a acabar os programas públicos de estímulo económico e de
imediato as taxas de crescimento declinam com notável rapidez – como a um
corredor dopado falta o fôlego quando lhe começa a faltar a substância. A
próxima recessão global está à porta. Nos EUA, o presidente Obama já quer
preparar um novo mega-pacote de estímulo económico, sem saber onde irá buscar o
dinheiro.
Também se pode formular o insolúvel
dilema capitalista de outra maneira. Enquanto se for sucessivamente apoiando o
decrépito sistema financeiro com novas medidas, a crise permanece por assim
dizer no limbo. Mas, logo que a criação de moeda sem substância se transforma em
procura real, desencadeia-se a desvalorização do dinheiro, que ainda vem sendo
controlada, desde que a crise económica de 2009 foi ultrapassada. No entanto, a
inflação, dificilmente mantida sob controlo nos países emergentes, está também à
porta da União Europeia; na Grã-Bretanha já atingiu a marca de 4,5 por cento. O
BCE e os governos de Sarkozy e de Merkel, tal como a administração britânica,
decidiram-se aparentemente pela inflação, como mal supostamente menor. Isso
levará a uma prova de fogo política e económica. Na realidade, estamos perante
uma questão sistémica, mas isso ninguém quer admitir.