A INFLAÇAO DA FOME
Era do
conhecimento geral que os enormes pacotes de resgate e programas de estímulo
económico, após o desabar da crise de 2009, continham um potencial
inflacionário, que deveria ser descarregado após um período de transição. De
facto, a inflação está em ascensão em todo o mundo - especialmente nos suportes
do crescimento global China, Índia e Brasil, mas já também em certa medida na
zona euro.
Há, no
entanto, diferenças entre sectores de produção. Em toda a parte os preços dos
alimentos sobem mais que os de outros bens. A taxa oficial de inflação na China
é actualmente de 5 por cento; no sector alimentar atinge os 10 por cento, mas em
termos reais estima-se em 19 por cento. Ainda pior é a alta dos preços dos
alimentos básicos na Índia e em outras partes da Ásia, África e América Latina.
Mesmo nos EUA e na UE, os aumentos dos preços da alimentação nos últimos meses
está muito acima da taxa geral de inflação. Segundo dados da FAO, organização
mundial para a alimentação, arroz, milho, trigo, carne, vegetais e mercearias
estão em média geral mais caros de 30 por cento desde o início do ano.
Por que estão
explodindo os preços dos alimentos? Aparentemente, cruzam-se aqui várias causas
da lógica económica capitalista. Os programas públicos de estímulo económico e a
inundação de dinheiro dos bancos centrais levaram a uma verdadeira
desvalorização do dinheiro, que afecta todos os sectores. No caso dos bens
alimentares acrescem factores especiais. Particularmente grave é o impacto do
aumento da produção de biocombustíveis: sementes oleaginosas são transformadas
em combustíveis e terras de cultivo são perdidas para o efeito. Simultaneamente
subiram os preços da energia fóssil, aumentando assim o custo do diesel e dos
fertilizantes na produção agrícola. Esse desenvolvimento intensificou-se porque
os preços elevados do petróleo tornam mais atraente a conversão de produtos
agrícolas em combustível. Finalmente, tal situação dos produtos agrícolas atrai
o capital monetário móvel especulativo, que aposta no aumento dos preços,
tornando este processo auto-alimentado.
O impacto
social dos recordes de preços dos bens alimentares depende inteiramente de qual
a parcela do rendimento que é gasta para comer e beber. A maioria das pessoas na
Ásia, África e América Latina gastam entre 60 e 90 por cento do rendimento em
alimentação. Na China, apesar do sucesso do crescimento, ainda chega aos 30 a 40
por cento. Na Europa, a proporção é de 5 a 10 por cento. Mas estes números estão
a deteriorar-se dramaticamente em todas as partes do mundo. Na esteira da crise
económica global não superada, a pobreza global tem se espalhado como fogo na
pradaria, embora de forma desigual. Em muitas regiões mundiais os rendimentos de
grandes massas da população caíram a um nível muito baixo. Agora, acresce o
aumento dos preços precisamente dos alimentos básicos. Já em 2010 o Banco
Mundial advertiu contra novos distúrbios alimentares. O crescimento insuportável
do custo dos alimentos desempenha um papel importante nos levantamentos no mundo
árabe. E Espanha mostra que algo de semelhante se prepara nos países em crise da
zona euro. É certo que aqui ainda ninguém estará a passar fome, mas, dado o
desemprego juvenil crescente, pode esgotar-se a paciência entre a geração capaz
de lutar, quando muitos já não conseguem sequer pagar os bens e tecnologias
culturais tornados naturais, porque os orçamentos estão em declínio e a simples
alimentação fica cada vez mais cara.