NÃO HÁ REVOLUÇÃO EM LADO NENHUM
Carta aberta às pessoas interessadas na EXIT! na
passagem de 2011 para 2012
Há muito que a
chamada esquerda do movimento se julgou superior à oposição ou mesmo à simples
relação entre reforma e revolução. O que só podia significar que já não se sabia
o que poderia ser tanto uma como a outra. O objectivo da abolição
revolucionária do capitalismo, como catalisador necessário até da mais pequena
reforma social, não foi reformulado, mas apressadamente imputado ao extinto
marxismo de partido e de Estado, para mais facilmente o poder descartar. A
monotonia pós-moderna dum culto das superficialidades habituais e dos detalhes
a-conceptuais, fanfarronando a sua pluralidade, não está para lá do antigo
nível de certeza, mas simplesmente esperneando desamparada ao lado dele.
Na verdade, a
ideia de revolução só foi considerada arrumada e selada pela operação do
movimento de esquerda e sua ideologia desconstrutivista porque se perdeu a
força para as habituais reformas dentro do capitalismo. Como é sabido, o neoliberalismo
comum a todos os partidos roubou o conceito de reforma e transformou-o no seu
contrário, sem encontrar qualquer resistência significativa. Lutas sociais
reais não só eram cada vez mais raras, mas também sem qualquer referência à
crítica social radical, permanecendo presas a interesses particulares tacanhos.
Em vez de uma interferência mais forte nas relações sociais surgiu a
performance de acções simbólicas; ou seja, a farsa de movimentos que já não
eram movimentos, mas só queriam representar a sua própria simulação mediática.
Às bolhas financeiras do capital de crise correspondiam as bolhas do movimento
de esquerda, que tinham de estourar do mesmo modo.
Tanto menos
credível é a repentina inflação do termo revolução, que teria vivido a sua
segunda primavera por todo o mundo em 2011, sem que as ideias do passado
tivessem sido criticamente revistas e transformadas. Em primeiro lugar surge
naturalmente a chamada revolução árabe, que derrubou alguns regimes
autoritários (Tunísia, Egipto e Líbia) com grande sacrifício de vidas humanas,
enquanto noutros lugares (Síria, Argélia, Bahrein, Iémen) por enquanto tem
vindo a ser metralhada. Em rápida sucessão a agitação cintilou também na
Europa. A Grã-Bretanha testemunhou violentos distúrbios de jovens de classe
inferior desesperados, a que o governo conservador respondeu com um padrão de
repressão por assim dizer arábico. Nos países da crise da dívida do Sul da
Europa (Grécia, Espanha, Portugal, Itália), houve um grau variável de
movimentos sociais contra a brutal política de austeridade, impulsionado
principalmente pela geração jovem. Um quadro semelhante se apresentou em
Israel, com manifestações de massa contra a política anti-social do governo de
Netanyahu. No Chile, os estudantes rebelaram-se contra a orientação
neo-conservadora do sistema de ensino. Finalmente, nos Estados Unidos, deu que
falar o chamado movimento occupy que, em protesto contra a desigualdade
crescente e contra o poder dos bancos, foi entendido como um contrapeso ao
ultra-conservador tea party e constituiu ramificações em muitos países,
entre os quais a Alemanha.
A esquerda que
cheira o traseiro de cada manifestação social à vista na rua o que mais
gostaria era de se regalar nas paisagens florescentes de um ano revolucionário em
2011. Para além da falta de vergonha para voltar a desenterrar e a remoer
freneticamente a palavra começada por R, que estava enterrada e esquecida, a
mera adulação dos diversos protestos e levantamentos não ajuda nada a causa da
libertação social. Marx sublinhou com razão que uma transformação
verdadeiramente revolucionária apenas progride na medida em que os seus começos
e fases de transição são criticados sem dó nem piedade, para os superar e para
repelir as suas meias-verdades, falácias e aberrações. Se assim não for, todo o
empreendimento se pode transformar no seu contrário. Decisiva aqui é a
importância da reflexão teórica. Isto é especialmente verdade numa situação
como a de hoje, em que ainda não há uma ideia desenvolvida da ruptura
revolucionária com a ordem estabelecida. A forma de mediação é a polémica
contra o estado dos movimentos, e não o envolvimento disposto a adaptar-se,
reagindo de modo puramente táctico às dificuldades ideológicas e limitando-se a
reflectir afirmativamente para os intervenientes a sua falsa consciência
imediatista. Depois de mais de 250 anos de história da modernização não há mais
espontaneidade inocente.
Para uma análise
crítica é preciso em primeiro lugar verificar a diferença de certo modo
existencial no grau de dureza da revolta e da repressão. Os movimentos de
massas árabes pagaram deliberadamente um pesado tributo em vítimas e na verdade
derrubaram governos. No sul da Europa e na Grã-Bretanha os embates foram
violentos para as condições de metrópoles ocidentais, mas muito menos
intensivos e em grande parte ineficazes. O mesmo se pôde ver em Israel e no
Chile. O movimento occupy dos E.U.A., finalmente, caracterizou-se em
grande parte por um mero moralismo superficial e piegas, sem garra, que entre
os seus imitadores na Alemanha ainda foi rebaixado ao nível de gnomos de jardim
por chefes de turma colocando questões bem comportados. É claro que as
diferenças na militância externa não dizem nada sobre um conteúdo
revolucionário, que só pode ser determinado pela profundidade da crítica
radical, mas indicam o diferente nível de ruína e desespero.
A nova crise
económica mundial de modo nenhum está terminada e não é apenas económica, mas
em grande parte do mundo também levou a sérias distorções sociais que não podem
resolver-se nas respectivas condições e formas de desenvolvimento específicas,
pois referem-se a estruturas gerais do capitalismo global. Por um lado, em toda
parte se pode ver uma explosão nos preços dos alimentos, que afecta sobretudo
as classes mais baixas, mas também para os consumidores de renda média se torna
cada vez mais dolorosa. Sobrepõem-se aqui o limite interno económico e o limite
externo ecológico do capital. A política geral de inflação com a inundação de
dinheiro dos bancos centrais é agravada para os produtos agrícolas pela
produção crescente de biocombustíveis em vez de alimentos básicos, que ao mesmo
tempo se tornam ainda mais escassos por desastres naturais socialmente
provocados. Isso é notório em todos os países sem excepção, mas tal tendência
torna-se insuportável em primeiro lugar onde, como nos países árabes, o custo
dos alimentos básicos já consome a maior parte do orçamento da maioria da
população.
Por outro lado, a
precarização dos jovens académicos há muito latente agravou-se dramaticamente
na crise económica mundial. Também este fenómeno é global; mesmo na Alemanha é
conhecida a “geração estágio” e não é só desde ontem. No sul da Europa o
desemprego juvenil generalizado atingiu a marca dos 50 por cento ou mais e
disparou o corte na formação e o subemprego dos finalistas do ensino secundário
e das universidades. Mesmo na China cada vez menos licenciados encontram um
trabalho adequado. De doutorando para ajudante de empregado de mesa, diz o
slogan da decadência. Claro que também há uma gradação global neste
desenvolvimento. Enquanto na Europa e na América do Norte os rebentos da classe
média qualificada ainda podem conseguir em parte apoio dos pais perante a falta
de perspectivas, noutros lados eles já têm de ajudar a alimentar as famílias
arruinadas. Não é de admirar que o tiro de partida simbólico para a revolta
árabe tenha sido a auto-imolação de um jovem académico tunisino que já nem
sequer como vendedor ambulante conseguia sobreviver.
Na história
moderna a degradação social da juventude estudantil sempre foi fermento de
erupções revolucionárias. Mas para que a partir daí ocorresse uma verdadeira
revolução social teve de se criar em primeiro lugar um esboço teórico
actualizado e, em segundo lugar, teve de realizar-se uma organização social
abrangente, incluindo as classes mais baixas. A este respeito se mostra a
completa vergonha intelectual, social e organizacional da geração Facebook. Em
todos os movimentos não há vestígios de uma ideia nova e revolucionária, a
classe média académica comporta-se em grande parte de modo auto-referencial e
sem qualquer conexão sistemática com as classes mais baixas e o encontro não
vinculativo através da Internet permanece sem força organizativa no domínio
social. Além de frases democráticas ocas não há mais nada. Portanto, também em
lado nenhum se pode falar de uma revolução, se se entender isso como mudança
fundamental social e económica e não apenas como substituição das personagens
da administração da crise por outras ainda piores.
Como não há
qualquer dialéctica qualitativamente nova entre reforma e revolução, mesmo as
abordagens sindicalmente limitadas não conseguiram implantar-se. A
redistribuição dos rendimentos do petróleo e do turismo não se concretizou. Na
Europa e nos EUA nem sequer exigências sociais específicas atingiram uma
amplitude apreciável. Assim, a revolta está a ser instrumentalizada por forças
muito diferentes que fazem valer a sua tendência para a barbarização perante o
vazio ideal e organizacional. Nos países árabes são os fascistas religiosos
islamistas que vencem uma eleição após a outra, assim pondo a descoberto a
indiferença de conteúdo da democracia aridamente formal como padrão de
legitimação. Eles já usurparam em parte os sindicatos, colocaram a sua política
de caridade no lugar da emancipação social e, assim, ganharam as classes mais
baixas, puseram em marcha o seu terror virtuoso hostil às mulheres e aos
homossexuais e transformaram o incitamento anti-semita contra Israel numa
válvula de escape para a raiva contra a falta de melhorias económicas. No sul e
no leste da Europa está em grande ebulição o anacrónico fascismo nacionalista,
que oferece a superfície de projecção para as formas bárbaras de digerir o
vazio de ideias e a impotência social. Os pogroms contra os roma na Itália e na
Hungria ou o tratamento cruel de refugiados e migrantes na Grécia falam por si.
O complemento ideal para isso é dado pelo tom inequivocamente anti-semita do
movimento occupy.
Israel demonstra
a sua natureza dual em que, por um lado, como Estado dos judeus, se transformou
no objecto de ódio número um na digestão ideológica da crise a nível mundial.
Por outro lado, enquanto Estado capitalista, passa pelas mesmas rupturas
sociais que todos as outros e produziu o seu próprio fascismo religioso, como
poder autodestrutivo interno (um fenómeno comum a todas as culturas da
pós-modernidade). Rabinos proeminentes falam do perigo de talibanização por uma
minoria de fanáticos ultra-ortodoxos, que se equiparam aos seus irmãos inimigos
islamistas como um ovo ao outro. Juntamente com os colonos chauvinistas,
ameaçam barbarizar Israel e privá-lo da sua legitimação histórica. O movimento
social da juventude israelita contra a administração da crise é semelhante em
muitos aspectos ao da Europa. Dada a situação geral, teria de se ligar a
revitalização do poder de intervenção quase sindical com a manutenção da força
militar contra os inimigos de Israel unidos que querem em última instância uma
limpeza anti-semita do mapa; dadas as circunstâncias, o espaço de manobra só
poderia ser ganho fechando a torneira do subsídio financeiro aos ultras
religiosos e nacionalistas. O protesto social pode de facto invocar o projecto
sionista fundamental, que remonta a Moses Hess, mas a ideia socialista também
aqui é apenas uma sombra do passado.
O mais
impressionante é que, apesar das diferenças, por todo o mundo a rebelião é em
grande parte "sem a esquerda", como o Frankfurter Allgemeine Zeitung
registou com satisfação. Portanto, mesmo para os políticos da tertúlia pós-operaista
da globalização, o entusiasmo com o movimento da multitude está um pouco
entalado na garganta. Mas afinal o que teria ainda para dizer o mainstream
do actual marxismo residual ou pós-marxismo, que está por um fio, aos que
engrossam o protesto no movimento, independentemente dos seus protagonistas? Se
a falta de ideias no plano intelectual e a impotência no plano social da
geração Facebook é um produto directo da socialização do capitalismo de crise
virtualizado, também os círculos de esquerda nas suas várias correntes
representaram apenas uma ideologia postiça dessa mesma situação. Um mero
reflexo da sua própria tacanhez teórica nos conceitos do batido
desconstrutivismo não pode abrir qualquer perspectiva histórica aos novos
intervenientes. Também não ajuda nada tratar a economia, redescoberta pela
força das circunstâncias, com as grelhas de interpretação da década de 1970 (ou
até mais antigas), e pretender juntar estas com o pensamento pós-moderno, numa
mistura intragável.
A teoria de Marx
não está a ser desenvolvida para lá das leituras historicamente obsoletas, mas
está a ser despojada de sua crítica essencial das formas fundamentais do
capitalismo, para transformar o limitado marxismo do movimento operário
tradicional num marxismo de classe média pós-moderno ainda mais limitado. Em
vez de criar uma nova ideia de revolução e, assim, formar um pólo oposto à
barbárie da crise, a esquerda iludida pelo culturalismo em parte fantasiou até
mesmo o fascismo religioso islâmico como força susceptível de aliança (viva a
diversidade) e, inversamente, deu espaço a um impulso estupidamente
anti-semita, inimigo de Israel por princípio; a condizer com o enterro da
crítica radical da economia política.
O que une o
protesto não-de-esquerda com a pós-esquerda com ele boquiaberta é a
justificação aparente da frase democrática com a frase existencialista. O que
falta de ambos os lados é a crítica conscientemente antipolítica da esfera da
regulação capitalista; só que o protesto é apolítico até à medula, enquanto a esquerda
volta sempre a requentar de novo o politicismo mais batido e na crise
ressocialdemocratiza-se com gosto para manter a sua inocência comprovada. Como
reverso da mesma medalha, em toda a parte se fazem as honras a um revoltismo
hostil à teoria (em França com coloração pós-situacionista), que julga poder
evitar a renovação conceitual e analítica da crítica radical, atribuindo à
falsa consciência das massas uma partida para novas fronteiras, em suplementos
culturais entusiasmados.
A Insurreição Que
Vem já aí está, mas
o seu conteúdo é tão pobre como a situação em si, que ela em lado nenhum é
capaz de transcender conceitualmente. Sem teoria revolucionária não há
movimento revolucionário, esta verdade antiga precisa de ser reinventada para a
situação historicamente mudada. É no desenvolvimento e disseminação de
conteúdos inovadores de reflexão, na própria intervenção teórica, que reside
hoje a resposta à questão do que fazer; não em pseudo-atividades inventadas,
nem na actividade artesanal em pequenos mundos ilusórios resguardados, que
ainda ficam trás dos movimentos de protesto. Somente quando estes se modificam
a si mesmos, confrontando-se com a teoria reformulada e justamente assim se
mediando consigo mesmos, só então eles deixam de funcionar no vazio. Não deixa
de ser involuntariamente cómico que a esquerda parada ao lado volte a tematizar
outra vez a “questão da organização” com grande vazio de conteúdo teórico e sem
uma ruptura fundamental com o padrão de pensamento falido do antigo marxismo e
da pós-modernidade. Isso já em 1968 correu horrivelmente mal.
A renovação
teórica em atraso só pode visar negativamente o falso todo de modo
essencialista e anti-relativista. Quem não quiser apreender e combater a
totalidade capitalista já perdeu. A viragem culturalista e desconstrutivista
levou a um impasse, porque pretendeu fazer esquecer a lógica objectivada do
fetiche do capital para poder fazer desaparecer a crítica no design das
particularidades. Deve-se, pelo contrário, provocar uma espécie de contenda do
universalismo, que caracterize a abstracção categorial como referência
essencial da realidade. Não será com a barriga nem com os pés que se tocará
para as relações de crise a sua própria melodia.
Certamente que é
necessário um esforço teórico de muitas forças a nível mundial para suplantar a
paralisia da transcendência revolucionária. Não, porém, como gritaria
pluralista burguesa, mas sim na determinação da questão geral, o capital
mundial, e na batalha pela verdade teórica do tempo. A elaboração teórica da
crítica da dissociação e do valor formulada no contexto da revista EXIT tenta
contribuir para isso no espaço de língua alemã e para além dele. A crítica da
relação de dissociação e valor também determinada sexualmente mostrou que não
se trata da antiga exegese do capital na lógica da derivação; mas, justamente
por isso, por maioria de razão é preciso insistir em sintetizar a totalidade do
capital em si quebrada. Não temos para apresentar a pedra filosofal, mas a
partir do foco da crítica da forma basilar e da localização histórica foram
produzidas as primeiras abordagens duma transformação da teoria crítica. Quem
com razão se queixa de que a elaboração teórica ainda não foi suficientemente
desenvolvida e concretizada não deve deixar desaparecer as condições para isso.
Sem apoio material nada feito, a produção teórica e a possibilidade da sua
recepção independente não podem ser tidas por adquiridas. Impacientes e não só
são convidados a ajudar a EXIT a "nadar contra a corrente".
Robert
Kurz pela redacção da EXIT!, Janeiro de 2012
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