O CRESCIMENTO DUVIDOSO DA INDÚSTRIA AUTOMÓVEL
A crise da dívida da União Europeia e
dos EUA prossegue animadamente, mas isso pouco parece conseguir prejudicar a
conjuntura económica mundial. Em particular, a indústria de exportação alemã
imagina-se numa Primavera duradoura. Sobretudo as empresas automobilísticas, que
registam sucessivamente novos recordes. Isto prova que a produção de automóveis
continua a ser um sector-chave do capitalismo. Neste ramo pode ver-se
exemplarmente para onde vai o percurso económico. Estarão então certas as
previsões optimistas que pretendem ver para a próxima década uma retoma
económica sem fim da economia real?
Vale a pena observar mais de perto a
estrutura do boom da indústria automóvel. As vendas na Europa parecem
continuar a cair. Em compensação está explodindo a exportação para os países
emergentes, especialmente a China, e para os EUA. Se essa situação fosse
sustentável a prazo ela estimularia o consumo das grandes massas populares com
carros pequenos e médios, enquanto o segmento de luxo poderia formar apenas o
cume de uma base ampla. Mas passa-se exactamente o contrário. A carga propulsora
do suposto milagre da indústria automóvel são os ostentosos carros de luxo da
Daimler, BMW e Audi e os desportivos da Porsche.
Na China, tal como nos EUA, continua a
aumentar o fosso entre ricos e pobres. Este é um problema social e económico: Se
o consumo de automóveis em massa quase não se verifica no segmento de menor
renda, isso é um sinal da natureza febril do crescimento baseado no segmento de
luxo. Trata-se de uma prosperidade fictícia baseada no crédito e nas bolhas
financeiras.
A nova classe média com capacidade de
pagamento na China, cuja dimensão é ilusória em virtude da massa oculta da
população, não tem fundamento sólido. Ela está associada ao aumento especulativo
de edifícios residenciais e de escritórios em grande parte vagos, estádios e
outros investimentos ruinosos, que foi orquestrado por quadros partidários
corruptos a nível local e regional. O seu consumo de luxo é financiado a crédito
ou com rendimentos irregulares. Muito semelhante é o caso dos EUA, onde as
injeções financeiras constantes do governo e da Reserva Federal só chegam a uma
minoria.
Realmente não é preciso esperar pelo
próximo colapso financeiro para ver que os consumidores de luxo globais se
excederam - mesmo no muito aclamado país das maravilhas alemão: Os grandes
carros quase não são vendidos a pronto, mas sim em leasing. É possível
comprá-los com uma prestação mensal relativamente modesta. É que o fôlego do
financiamento já é curto porque para muitos o limite do rendimento já foi
atingido.
Mas os carros de prestígio de alta
potência são tão artilhados que as reparações se tornam necessárias rapidamente.
O que ainda era relativamente barato num carro pequeno antes da electrónica
atinge logo 800 ou 1000 euros nos carros mais caros. Na Alemanha e não só as
maravilhas adquiridas em leasing acumulam-se nos stands e nas oficinas porque os
seus orgulhosos utilizadores não conseguem pagar a reparação (ou a próxima
renda). Um pequeno indício de que o boom dos automóveis de gama alta poderá ser
tão duvidoso como o boom imobiliário.
Original
Faule Autokonjunktur in
www.exit-online.org.
Publicado em Neues Deutschland, 04.06.2012.