O
FIM DA ECONOMIA DA POTÊNCIA MUNDIAL
Na
Alemanha festeja-se o "conto de fadas de verão" de um forte
crescimento trimestral, impulsionado principalmente pelo sucesso das exportações
da indústria automóvel (o mercado doméstico caiu entretanto 30 por cento) e
da construção de máquinas. A crise é considerada superada, embora o nível
anterior do produto interno bruto nem de longe tenha voltado a ser alcançado,
nem seja previsível um novo boom da
economia mundial. O actual factor de incerteza é constituído pelos Estados
Unidos, a maior economia do mundo. Há aí um clima deteriorado. Isso deve-se
principalmente a uma mudança de fase da economia, pois os Estados Unidos foram
os primeiros a aplicar os programas de estímulo económico os quais, portanto,
também aí acabam mais cedo. Agora se evidencia que a suposta "retoma”
ameaça rodar em falso. Economistas influentes falam de um iminente double
dip [mergulho duplo], uma recaída possivelmente ainda mais profunda na
recessão.
O
problema principal, além do endividamento público, é o sobre-endividamento
maciço das famílias americanas, cujo consumo representa 70 por cento do PIB.
No auge da conjuntura económica de deficit, em 2007, o rendimento médio real
foi menor que o de 1970. O poder de consumo vinha apenas dos cartões de crédito
e de créditos garantidos por hipotecas que na sua maioria não têm qualquer
valor. O desemprego oficial duplicou para os 10 por cento, sendo o desemprego
real estimado em 17 por cento. Mesmo para manter este precário status quo é necessário um crescimento anual de 3 por cento; uma
redução durável da taxa de inactividade somente seria viável com um
crescimento de 6 a 9 por cento. Isso está fora de questão no longo prazo,
especialmente porque a classe média está a ser corroída a um ritmo de tirar o
fôlego. Para recuperarem o poder de compra, as famílias teriam de amortizar dívidas
de mais de seis biliões de dólares ou reduzir os seus encargos durante 10
anos. Isso seria lançar a economia ainda mais no abismo. A continuação das
subvenções públicas, por sua vez, põe em questão o crédito dos E.U.A. e, não
em último lugar, o seu poder militar mundial. Os custos das operações no
Afeganistão, no Iraque e em outros países têm aumentado desde 2002 várias
centenas por cento, e, após o estouro de bolhas financeiras, deixaram de poder
ser pagos com os fundos da caixa para pequenas despesas.
A
má vontade anti-americana que grassa perante este desenvolvimento negligencia o
papel da economia da potência mundial no capitalismo global. Seria ilusório
pensar na separação a longo prazo da conjuntura económica global
relativamente aos Estados Unidos. Essa conjuntura, construída ao longo de décadas
e que assenta no consumo baseado no deficit da potência mundial, não pode ser
transformada no seu contrário no espaço de alguns meses. Nem a China nem a União
Europeia ou o Japão estão em posição de assumir o papel dos E.U.A. Isso diz
respeito também à função do dinheiro mundial. Após o fim do “dólar-ouro”
agora está em discussão o “dólar-armamento”. O yuan chinês nem sequer é
uma moeda convertível e o euro está numa profunda crise. A perda de uma moeda
reconhecida no comércio internacional e como moeda de reserva por maioria de
razão teria repercussão na conjuntura económica global. À medida que as
diferentes fases conjunturais se equipararem e os programas de estímulo económico
chegarem ao fim também na China e na União Europeia (neste caso, com o
agravamento das políticas de austeridade impostas), ocorrerá também nestes
centros uma situação semelhante à surgida agora nos E.U.A. O fim efectivo da
economia da potência mundial, segura já apenas por fios ténues, poderá então
desencadear, o mais tardar nos próximos anos, uma segunda onda da crise económica
mundial.
Original
DAS
ENDE DER WELTMACHT-ÖKONOMIE in www.exit-online.org.
Publicado em Neues Deutschland
20.08.2010