Roswitha Scholz
NÃO DIGO NADA SEM A MINHA ALLTOURS
A identidade (masculina) pós-moderna entre a mania da
diferenciação e a segurança da teoria marxista vulgar. Réplica às críticas à
teoria da dissociação e do valor
Introdução *
O conceito de dissociação-valor * Igual
originariedade e sujeito “autónomo” * Falsa historicização e falsa
ontologização * Dissociação-valor como conceito da totalidade * O não-idêntico
e a lógica da dissociação e do valor * Princípio social fundamental e
diferenças * A ausência do conceito de dissociação-valor na teoria feminista *
Teoria, empiria e desenvolvimento histórico * Sexo e Género * Dissociação-valor
e heterossexualidade compulsiva * Dissociação-valor e crítica da economia
política * Diferentes níveis de análise e pensamento positivista * Conclusão: O
espírito do tempo pós-moderno na crise, os círculos de esquerda virados queer
e a insustentabilidade de uma mentalidade de crítica ecléctica
Introdução
Passados
nove anos desde a publicação do meu livro O sexo do capitalismo (2000),
é tempo de pegar em determinadas críticas que têm surgido em discussões tanto
orais como escritas. Uma lista de alguns dos principais argumentos contrários
pode ser encontrada nos textos de Fritjof Bönold A crítica imanente ao
teorema da dissociação e do valor (2008a, 2008b) surgidos na revista de
Viena Streifzüge. Por isso me vou ocupar deles, ainda que Bönold
trabalhe de forma muito desleixada, misturando desordenadamente ideias e
planos, pelo que é necessário um maior esforço hermenêutico para reproduzir os
seus pensamentos em seu próprio sentido, mesmo que aproximadamente, o que é de
resto bastante sintomático de grande parte dos círculos (políticos) feministas
de esquerda hoje. Aproveito a ocasião para abordar também outras críticas não
mencionadas por Bönold, ou que até quase contradizem o seu discurso.
O problema
principal parece-me consistir na abordagem positivista, que disseca passagens
isoladas do meu texto, confrontando-as apenas superficialmente com os
argumentos contrários. Bönold considera, de facto, a teoria da dissociação e do
valor de algum modo justificada (ainda que condescendentemente) e gostaria,
segundo diz o título, de fazer uma “crítica imanente” dela. Vou mostrar, no
entanto, que ele se move precisamente em sentido contrário. Uma dificuldade
particular para ele é, obviamente, o meu método dialéctico, que contraria o
entendimento burguês da teoria e da ciência. Por outro lado, também para a
“ortodoxia” marxista que se pode encontrar numa leitura de Marx ou de Adorno
limitada à filologia, ela própria caída no positivismo, não constitui menor
obstáculo conseguir perceber a elaboração teórica da crítica da dissociação e
do valor como qualitativamente nova. Barbudos do antigo marxismo e
voluntaristas pós-modernos do pluralismo podem por vezes chegar a alianças
notáveis, até numa e mesma pessoa. Tanto o sugestivo recurso a “certezas” pós-modernas
como a interpretação positivista da teoria de Marx procedem mais ou menos de
acordo com o mote “Não digo nada sem a minha Alltours” (1). Assim se sentem
autorizados a meter no bolso a crítica da teoria da dissociação e do valor.
Esse é também o propósito de Bönold.
A elaboração
teórica inovadora, em contrapartida, nunca se apegou servilmente à letra do
“mestre”, pelo contrário, baseando-se no seu conhecimento e tradição, tenta
simultaneamente produzir novas reflexões e formações teóricas – por assim dizer
com o gosto pelo debate da dialéctica à maneira do Talmude; é claro que sempre
desafiada e condicionada também pelo contexto histórico em que se move. A
relação de género, como problema teórico, coloca aqui um desafio especial,
porque se trata de apreender algo que realmente vai contra o conceito na
elaboração teórica corrente, mas que ainda assim tem de ser “concebível”. Aqui
Bönold recua (e não só ele). A crítica da dissociação e do valor, ao tentar dar
uma resposta a este problema, esbarra fundamentalmente em atitudes que se
agarram ao entendimento tradicional da teoria, recusando-se em última instância
a dar lugar a esboços de “grande teoria”, precisamente no que respeita à
relação de género; mesmo se eles afirmam aparentemente o contrário, para dar
satisfação ao “politicamente correcto”.
A posição em
que de seguida vou argumentar é a do meu livro sobre o género de 2000, no qual
já corrigi alguns erros de avaliação anteriores. Nos pontos essenciais, no
entanto, mantive-me fiel ao que escrevera. Para não aumentar a complexidade,
levei em conta apenas de passagem o que foi exposto nas minhas publicações
posteriores a 2000. Se além disso me virei para “outros” temas, tal não
constitui qualquer contradição com a posição teórica de fundo. A crítica da
dissociação e do valor pretende chegar ao todo social, trazendo em si a sua
auto-relativização, ao afirmar um princípio formal baseado na dissociação do
feminino. Pois esta abordagem teórica proíbe um processo de derivação dedutivo
a partir de um princípio estabelecido como absoluto, no qual a totalidade não
fica absorvida. Nessa medida, para a crítica da dissociação e do valor pode
haver algo ainda mais importante do que a sua própria elaboração meticulosa da
relação de género em sentido estrito, especialmente na actual crise mundial do
capitalismo. Por exemplo, a preocupação com o anticiganismo, que tem de ser
visto como um padrão fundamental escondido da modernidade, o que parece
completamente absurdo à primeira vista (Scholz, 2007).
Com isto não
pretendo de modo nenhum contestar a legitimidade da exigência de que a teoria
da dissociação e do valor seja elaborada detalhadamente. No entanto, creio que
no meu livro sobre o género já foi definida e desenvolvida muita coisa com
muito mais precisão do que pretendem reconhecer alguns críticos como Bönold. De
seguida quero não em último lugar deixar isso claro. Portanto, se
ocasionalmente cito o meu livro sobre o género não é para insistir obstinadamente
no próprio projecto, mas para mostrar que uma leitura mais cuidadosa da parte
de Bönold teria à partida retirado força a muitos dos seus argumentos. Em todo
o caso, no entanto, a minha crítica da dissociação e do valor deve ser
reavaliada em aspectos importantes.
Há ainda
algo que é preciso dizer desde já. Em rigor, a meu ver, não existe qualquer
nível epistemológico abstracto, nem sequer no sentido da teoria de Marx de que
a crítica do conhecimento já tem de ser sempre crítica social. Isto é
particularmente válido para a teoria da dissociação e do valor que, na verdade,
só pode ser completamente entendida na referência ao conteúdo do
desenvolvimento social e histórico real. Se aqui tenho de começar por me manter
por longos períodos num plano conceptual e de crítica do conhecimento
aparentemente “nu” e abstracto, isso acontece apenas para pelo menos dar a
entender aos muitos círculos do tipo de Bönold que nem sequer no sentido de uma
tal abordagem (em última análise ainda “com o método” geral) subsiste a sua
argumentação, argumentação de que a teoria da dissociação e do valor se liberta
no seu desenvolvimento. Escolhi este modo de discussão em parte abstractamente
conceptual apenas para efeitos de exposição de uma anti-crítica da minha parte
“imanente”, para de certa maneira a voltar a reconduzir ao seu traço próprio.
O conceito
de dissociação-valor
Já no plano
básico da elaboração teórica Bönold interpreta-me de forma completamente
equivocada. Ele imputa à crítica do conceito (conotado com a lógica da dedução)
que assim “a ‘definição’ do dissociado do valor (seria) paradoxal e, em última
instância, inviável” (Bönold 2008 a), pelo que esta teoria “(tornaria
problemáticas) as possibilidades de reconhecer o dissociado em geral” (ibid.).
A teoria da dissociação e do valor deveria, portanto, considerar o seu objecto
em última instância incognoscível. Na realidade, o que se diz é simplesmente
que “definir” e, portanto, “compreender” consiste numa exposição que tem de
considerar o que não fica absorvido no conceito, sem renunciar ao conceito.
Isso significa, no entanto, não só no caso deste tema, mas no caso deste tema
em particular, que o tradicional “conceito de conceito” teórico não é
suficiente. Bönold, porque ele próprio continua preso nesse entendimento, pergunta:
“Será ‘dissociação’ um não-conceito?” (ibid.). Isso já mostra que ele tem um
problema elementar com o carácter dialéctico do tema e com a aproximação a ele,
problema que, no entanto, pretende imputar à teoria da dissociação e do valor,
como sendo “dela”.
Nada parece
ser mais estranho a Bönold do que o pensamento dialéctico especulativo que
constitui a base da elaboração teórica da crítica da dissociação e do valor. A
partir desta perspectiva, é um pouco absurdo fazer a pergunta que normalmente persegue
uma pessoa nas discussões: O que é então a dissociação-valor, exactamente?
Diga-o claramente de vez em duas frases! A verdade é que a problemática do
género e as relações de género no patriarcado produtor de mercadorias podem ser
reconhecidos conceptualmente – o meu “livro sobre o género” é testemunha disso
– mas não exactamente no sentido de definição formal. Pelo contrário, elas
“existem” precisamente apenas no seu desenvolvimento e nos diferentes níveis da
simultânea separação e unidade que o acompanham no processo histórico.
Bönold não
quer saber disso, porque aqui nada tem a ver “conceptualmente” com um
pensamento formal racional em sentido positivista, profundamente enraizado na
consciência androcêntrica, que ele gostaria de aproveitar, mesmo virado em
(pseudo)crítico do género. Como de seguida é preciso tematizar ainda com mais
frequência a crítica do pensamento da lógica formal, torna-se necessário desde
já esclarecer um eventual mal-entendido. Trata-se aqui apenas da crítica de um
pensamento que gostaria de resolver e “restringir” a determinação fundamental
da relação de dissociação-valor e da sua contraditoriedade interna em
definições formais. A lógica formal e a matemática não são per se idênticas
ao positivismo, mas apenas quando são aplicadas a relações e a processos
sociais com elas não apreensíveis. Isto não significa que seja impossível
representar formalmente determinadas relações quantitativas (como dentro das
categorias económicas ou em relação a aspectos empíricos). Também os cálculos
matemáticos em tais contextos são adequados e podem de algum modo contribuir
para uma argumentação lógica e precisa, desde que não se fique pelo momento
assim apresentável em cada caso. Seria tolice rejeitar um pensamento lógico
formal ou matemático onde ele pertence. Mas definições formais e matemáticas,
pelo menos no que respeita à teoria social, têm o seu lugar apenas num contexto
da totalidade histórico-social, que como tal não é compreensível pela
definição, nem pela lógica formal e pela matemática.
Podemos
formular o problema básico neste horizonte com as palavras de Ursula Beer, que
escreveu já na década de 1980: “A clarificação científica da relação de género
deve ser desenvolvida a partir de um corpus teórico (o de Marx, R.S.) que como
nenhum outro enfatiza a unidade sistemática ou o carácter sistémico das
relações sociais, mas não possui qualquer conceito de relação social
fundamental. Procura-se analiticamente algo que não existe no plano conceptual,
mas que terá de ser encontrado, se esta construção teórica tem razão ao
apresentar a pretensão de ser capaz de se transcender a si mesma, na medida em
que se reconhece como inevitável e necessária na sua historicidade” (Beer,
1990, p. 23).
Também não
me refiro à “… ocupação ‘masculina’ da ciência” de modo meramente superficial,
como Bönold gostaria de entender (ibid.). Em vez disso, a dificuldade de
exposição para a crítica da dissociação e do valor é que, como se pode perceber
também em Ursula Beer, a moderna elaboração teórica (da qual não podemos saltar
imediatamente) já no seu acesso ao conceito reproduz a relação de dissociação.
Para Bönold esse problema desfaz-se completamente quando ele diz: “Ora não se
pode negar que o pensamento conceptual e o raciocínio lógico no Ocidente foram
marcados pelos homens e (!) pela forma do valor. Por outro lado, é duvidoso que
assim se chegue necessariamente a excluir outras possibilidades de
conhecimento” (ibid., destaque de Bönold). Mas a questão não é que a lógica da
ciência moderna, por um lado, tenha sido desenvolvida empiricamente
principalmente por homens e, por outro, tenha sido moldada pela forma valor.
Pelo contrário, a teoria da dissociação e do valor afirma centralmente que a
forma do valor e a forma de pensar correspondente não são elas próprias como
tais sexualmente neutras, mas são determinadas estruturalmente como masculinas.
Portanto, “nesta” forma de pensamento chega-se de facto “necessariamente” à
exclusão de possibilidades de conhecimento que pudessem reflectir o dissociado.
Esse modo de conhecimento reduzido, no entanto, é simplesmente dominante na
modernidade, gostemos ou não, e simplesmente assume histórico-socialmente a sua
força de gravidade androcêntrica.
Depois de
ter distorcido o fio central do pensamento, Bönold pergunta como “se pode então
ainda reconhecer a identidade da forma de pensar e da forma da mercadoria se
ela surge num contexto fetichista” (ibid.). Aqui ele salta da problemática da
dissociação e do valor para o velho conceito universalista de fetiche, e a sua
pergunta mostra que já não tinha compreendido o conteúdo crítico deste. Ora o
conhecimento só é possível precisamente através da crítica deste
contexto e (na crítica da dissociação e do valor) da crítica da sua
ocupação sexual, o que inclui a correspondente crítica da lógica da
ciência que lhe está associada. Para Bönold, no entanto, esta lógica e o
respectivo entendimento do conceito representam obviamente a única
possibilidade de pensar, na qual ele gostaria então de subsumir também o
conhecimento da dissociação e do valor.
O mesmo erro
de interpretação continua quando Bönold me imputa ainda: “A relação de poder e
de dominação entre os sexos, o patriarcado, resulta para Scholz de uma
dominância do valor... em relação ao resto ‘menos valorizado’ da sociedade” (ibid.).
Bönold gostaria de entender a coisa assim: com a referência à relação de
dominância, eu própria diria que o valor é o “autêntico” e a dissociação é o
subordinado e derivado. Ora a questão é que a relação de valor em si é
simultaneamente uma relação de dissociação, ou seja, trata-se do próprio
princípio constitutivo em si fragmentário da própria socialização do valor e
não da sua relação com um “resto”. No que respeita à “dominância”, portanto,
ela só surge através da estrutura de dissociação em si. O valor (ou a sua
reflexão “na” forma de pensamento correspondente) não sabe dos seus próprios
pressupostos e julga-se autónomo, apesar de ele próprio ser totalmente
dependente, apresentando-se como o original precisamente por isso. Bönold volta
a não perceber que a dissociação-valor tem de ser vista no sentido de uma
relação dialéctica. Isso excede a sua capacidade de imaginação, como se mostra
em toda a sua crítica à teoria da dissociação e do valor e como se pode
verificar em muitos locais.
Ele cai
mesmo atrás do entendimento hegeliano que deve ser criticado no sentido da
teoria da dissociação e do valor. Assim já Andreas Arndt escreve relativamente
a uma recepção muito comum da dialéctica de Hegel: “Um dos equívocos
persistentes é que ‘o Outro de si mesmo’ seja pensado a partir do absoluto e
indique o acto de auto(re)produção da ideia; de facto, para Hegel, cada Algo
define-se em relação com um Outro, de tal modo que aquele define este como o
Outro de si mesmo, nomeadamente da determinação do Geral que se pode encontrar
nele, que então também é o Outro de si mesmo, portanto simultaneamente
ele-mesmo e não ele-mesmo, ou a contradição existente” (Arndt, 2008, nota p.
43). Ora, em Hegel, o “algo como o Outro de si mesmo”, apesar desta definição, está
ainda sob a égide do Geral, que no entanto não é concebido exactamente como um
absoluto abstracto, mas como a “contradição existente”, que se pode entender
como o Ser do valor. Para o pensamento positivista de Bönold, porém, uma
“contradição existente” já é em si obviamente uma “impossibilidade lógica”,
mesmo no sentido universalista de Hegel. Quando agora a teoria da dissociação e
do valor, indo além da concepção dialéctica de Marx (ela própria já
trivializada e positivistamente retorcida no marxismo), vira novamente através
do conceito de dissociação o paradoxo real já virado “materialistamente” no
conceito de valor e de capital, então a potenciação da contradição perfaz uma
impossibilidade por assim dizer potenciada para a consciência positivista.
Igual originariedade e sujeito “autónomo”
Este
pensamento de lógica formal, naturalmente, também não lida bem com a definição
de uma “igual originariedade” de valor e dissociação, que resulta exactamente
da dialéctica da “contradição existente”. Bönold escreve: “A relação entre
valor e dissociação permanece pouco clara, porque o processo de dissociação (na
psicanálise) pressupõe algo que se dissocia, assim conferindo ao feminino
dissociado o estatuto de mero objecto. Isto é contrário (logicamente) à hipótese
de igual originariedade e supõe afinal um ‘bom sujeito originário’ (...), que
seria de preservar. Que estatuto tem então verdadeiramente o dissociado?”
(Bönold, 2008 b).
A confusão
desses argumentos é difícil de superar, como já se vê no conceito de sujeito
supostamente positivo que na realidade é o adoptado pelo próprio Bönold. De
facto, não existe aqui qualquer fundamento primeiro originário do sujeito, e só
assim se constituem o valor e o sujeito (aparentemente) autónomo que
corresponde ao valor, sendo como este estruturalmente conotado como masculino e
inerente ao moderno patriarcado produtor de mercadorias. Essa percepção
constitui precisamente o essencial da teoria da dissociação e do valor. Bönold
se pergunta se essa crítica do sujeito é compatível com a referência a Adorno,
pois este “não (gostaria de) negar a dicotomia sujeito-objecto, mas sim de
eliminar a dominância do sujeito ou a hierarquia para com o objecto” (Bönold,
2008 b). O assumir da abordagem de Adorno da crítica do sujeito, porém, não
impede dogmaticamente o seu desenvolvimento crítico. Nas reflexões de Adorno
sobre a tensão entre um sujeito por ele definido de novo já não “autónomo” na Dialética
Negativa não vejo a sapiência da última palavra; elas pertencem a um certo
tempo e, tal como em relação a essa realidade passada, também é preciso ir além
da sua consciência teórica e do seu método. Isto também significa que não pode
ser mantida qualquer relação sujeito-objecto em última instância ontológica;
nesta conclusão (ao contrário do que supõe Bönold) estou completamente de
acordo com Robert Kurz. Em minha opinião, não se pode antecipar hoje como irá
parecer tal modo de pensar. Para chegar lá, no entanto – e aqui novamente com
Adorno – é fundamentalmente necessária uma “(...) posição crítica para com a
ciência” (Bönold, 2008 b) que ultrapasse o zelo positivista académico e as
chatas rotinas do pensamento, coisa que no entanto mais uma vez obviamente não
agrada a Bönold.
No que
respeita a uma crítica mais ampla do sujeito “autónomo”, também nos textos
originais pós-modernos ou pós-estruturalistas assoma perfeitamente o
reconhecimento da sua existência não autónoma, pelo menos fenomenologicamente,
embora eles não medeiem a relação de género com a relação de valor e nessa
medida continuem deficitários relativamente ao conjunto social. É o caso de
Judith Butler: “Em certo sentido, o sujeito constitui-se através de um processo
de exclusão e diferenciação, possivelmente também de repressão, que em seguida
é disfarçado e encoberto pelo efeito da autonomia. Nesse sentido, a autonomia
representa a consequência lógica duma dependência disfarçada. Isto indica que o
sujeito autónomo só pode manter a ilusão de autonomia na medida em que encobre
a ruptura a partir da qual se constitui” (Butler, 1993, p. 44).
Tais
formulações entretanto caíram em grande parte no esquecimento no caso de
muitos/as seguidores/as destas teorias; nisto Bönold não está sozinho. Se nas
décadas de 1980 e 1990 ainda era considerado como assente por muitas esquerdas,
não em último lugar tendo como pano de fundo as hipóteses (culturalistamente
redutoras) de Butler entre outros, que tais percepções abalavam fortemente o
vigoroso sujeito, hoje vejo nas discussões muitas vezes uma certa reviravolta
na argumentação. Este sujeito já não se sente agora extraordinariamente
abalado, agarra-se (novamente) aliviado a operações de lógica formal, ou seja,
a um pensamento contra o qual outrora alinharam tanto a teoria crítica como
também de outro modo o pós-estruturalismo (eu bem sei que há “muitos”).
Ouve-se
então a questão virada contra a crítica da dissociação e do valor (como acima
em Bönold): Será possível representar a dissociação de forma independente do
valor? Se isso não for possível e a inversa for verdadeira, ou seja, se o valor
puder de facto ser pensado sem a dissociação, mas não a dissociação sem o
valor, não se seguirá daqui “logicamente” que o valor é o primeiro e a
dissociação algo de secundário, no fundo um mero derivado? Maravilha: Se o
valor e o sujeito só existem porque não conhecem os seus próprios pressupostos
e se pertence necessariamente à subjectividade não os conhecer, então, do ponto
de vista da lógica da representação não pode ser de outra maneira: o sujeito ou
o valor tem de surgir como o primeiro. Aqui se confunde a lógica de
representação universalista androcêntrica (ou o pensamento não-crítico desta
maneira de pensar) com a lógica estrutural real e com o conteúdo (uma vez que
este “outro” já está sempre para além do Material), precisamente porque o valor
e o sujeito, os quais na sua constituição correspondem ambos ao desenvolvimento
capitalista, não poderiam existir em geral sem o seu Outro nem sem a
dissociação. Através de uma operação de lógica formal que falha completamente o
objecto, uma pessoa já se imagina no entanto outra vez para lá do velho
“descentramento” do sujeito e encontrou agora uma via “racional” para
finalmente deixar surgir de novo o valor e o velho sujeito com um novo brilho,
como um Hércules de feira com o peito inchado e fortes bíceps. Ah, e volta-se a
pregar, mais uma vez, com o pensamento lógico na mulher estúpida (e nos
estúpidos “outros Outros”)!
Pelo
contrário, no processo dialéctico não há “epistemologicamente” por princípio
qualquer espécie de todo que se pudesse fraccionar e voltar a unir inteiro e
restabelecido, como Bönold me imputa, porque a dialéctica já parte sempre de
uma unidade contraditória do todo. É fundamental para nós que a partir desta
perspectiva resulta uma “igual originariedade” que não pode ser analisada com
hierarquia causal. Isso é o que parece apenas a um pensamento que se mantém
preso nesta estrutura. O facto de ao feminino apenas ser reconhecido o estatuto
de objecto é que constitui exactamente essa estrutura e assim – se se quiser –
a miséria do sujeito na verdade dependente mas que se imagina autónomo. O valor
como contradição em processo está assim fortemente dependente de uma
dissociação do feminino e a dissociação por isso é completamente diferente de algo
pendurado de modo meramente externo no valor.
Falsa
historicização e falsa ontologização
Se há
dificuldade com a dialéctica, é preciso construir uma “clareza” definitória
positivista, não só no aspecto lógico, mas também no histórico (a qual é então
novamente resolvida nas teorias pós-modernas em “contingência” e
“ambivalência”, apenas no plano superficial fenomenológico, sem perceber a
contradição interna da relação subjacente; ver abaixo com mais detalhe). O
conceito da relação assimétrica de género e particularmente do patriarcado é
assim reduzido às condições pré-modernas. Assim se volta novamente às posições
do antigo marxismo no que respeita à relação de género, como é o caso da
formulação de Natasha Wilting na revista “Bahamas” contra a teoria da
dissociação e do valor: “Considerar isso como aditamento ‘não dogmático’ à
crítica do valor levanta dúvidas sobre a capacidade lógica elementar desses
críticos do valor (...) O valor, como não-objectividade par excellence,
como forma em processamento imaterial, por um lado, coloca-se em oposição com
todas as formas pré-encontradas de socialização e de modos de vida, de que ele
se apropria e que acaba por dissolver; por outro lado, justamente por causa do
seu vazio constitutivo, ele precisa de um material onde possa ilustrar-se ou
representar-se em termos “de conteúdo”; onde esse material não está à sua
disposição como produto grátis, ele estabelece-o fora de si. Então acontece que
fenómenos arcaicos, na verdade há muito tempo extintos, são continuamente ressuscitados
para uma segunda vida zombi no meio da civilização moderna” (Wilting citada em
Scheit, nota da p. 540 s.).
O que Bönold
apenas indirectamente intenta com os seus constructos sobre alegadas
incoerências de lógica formal, nomeadamente, em última análise, a subordinação
lógica dedutiva da assimetria sexual ao valor, é aqui promovido de forma
bastante aberta a falsa historicização: a relação de género assimétrica, por
mim compreendida como relação de dissociação especificamente moderna (justamente
em contraste com as formas pré-modernas de patriarcado), deve agora ser um
“fenómeno arcaico”, um mero remanescente de tempos passados, que apenas se
manteve um pouco mais. O valor e o trabalho abstracto aparecem mais uma vez
como de costume sexualmente neutros de todo e são vistos implicitamente no
contexto da habitual metafísica iluminista “anti-alemã” do progresso: no “vazio
constitutivo” do valor, o patriarcado não deve estar objectivado, mas já
progressivamente superado, enquanto seria devido apenas a uma formação de
reacção regressiva (principalmente ideológica) a esse “vazio” que os
“fenómenos” patriarcais, sexistas etc. seriam “ressuscitados para uma segunda
vida zombi”. A dissociação sexual, como momento específico da estrutura de
reprodução especificamente capitalista, é ocultada e pelo menos potencial ou
tendencialmente mergulhada na socialização total universalista do valor, que
apenas teria de ser promovida positivamente para além de si mesma.
Precisamente
ao contrário procede uma polémica com a teoria da dissociação e do valor que se
apresenta menos como crítica do que como usurpação universalista androcêntrica;
é o caso de Ernst Lohoff em seu artigo Sem ponto fixo (Krisis 30). Ao
contrário de Wilting, o conceito de dissociação é assumido (“naturalmente”, sem
qualquer referência bibliográfica à teoria subjacente; Lohoff é sempre ele o
inventor de tudo), mas, tal como no caso de Bönold, reduzida à “relação de
subordinação” ao valor e ao sujeito correspondente. A “acção do sujeito” é
posta em marcha pelo facto de que “... cada acção e cada comportamento cuja
submissão à forma de sujeito é bloqueada são constantemente rebaixados a algo
marginal, inferior e inessencial. Mesmo o que é indispensável para a
continuação da existência de qualquer (!) sociedade é expulso para o ‘meramente
privado’ e já por isso tratado como inferior” (Lohoff, 2006, 35).
Tal como
acontece com Bönold, permanece implícita a auto-magnificência do valor, na
medida em que fica escondida a dependência da socialização do valor
relativamente ao seu “Outro” e só se vê a hierarquização na lógica formal. Mas,
enquanto em Wilting este “Outro” da dissociação surge no elenco masculino da
hierarquia como um simples remanescente de um arcaico mobilizado
regressivamente, portanto negativamente, mas não como o reverso do próprio
valor, no caso de Lohoff ele figura no elenco feminino subordinado como “o bom”
sensível, portanto como positivo, e é ontologizado em conformidade como algo
“indispensável” para a existência de “qualquer” sociedade (ou seja, sempre),
que é constantemente degradado e rebaixado etc. pelo valor: “A desvalorização
de facto vai até à não-percepção e atinge em primeiro lugar as actividades
desqualificadas como tipicamente femininas e assim tornadas ‘invisíveis’” (ibid.,
35 ss.).
Lohoff
usurpou a teoria da dissociação e do valor só superficialmente, mas
interpretou-a completamente mal no seu conteúdo. Não há aqui nenhuma
determinação ontológica, mas apenas a relação histórica específica de
dissociação e valor, como conceito do moderno patriarcado produtor de
mercadorias. Correspondentemente, a dissociação, como o “Outro” do valor, não
constitui de modo nenhum uma ocupação positiva, nem certamente um “bem”
ontológico ou o “eterno feminino”, mas é tão negativa como o próprio valor,
como seu reverso. Portanto, não existe aqui qualquer base ontológica de
sensualidade submetida para “salvar”, pelo contrário, valor e dissociação, como
as duas faces da mesma moeda, são para rejeitar e abolir igualmente os dois –
incluindo a respectiva afirmação positivamente identitária (portanto também do
feminino). Os cumprimentos duvidosos de Lohoff ao “bom” feminino ontológico não
passam de fantasias (masculinas), por exemplo relativamente a uma maternidade
mitologizada. Se Lohoff reduz a dissociação a uma “depreciação da acção
quotidiana que é incompatível com a forma de sujeito” (ibid., 36), ele
inscreve-se, de certo modo, como homem de classe média “transformado em dona de
casa” (Claudia von Werlhof), que agora espera poder pôr de lado a forma de
sujeito como quem tira uma gravata, na medida em que revaloriza a “acção do
quotidiano”. No entanto, já aqui se mostra, precisamente nisso, que ele apenas
gostaria de manter a supremacia, na medida em que assume o ceptro de forma
perfeitamente masculina tradicional no dissociado usurpado e positivado e monta
o verdadeiro “departamento criativo” (já como “definidor de conceitos” tão
formalmente lógicos como equivocados). O que tem muito pouco a ver com a
emancipação da relação de dissociação-valor.
Seja de modo
“arcaico” ou “ontológico”, seja com sinais negativos ou positivos, no conjunto
Lohoff e Wilting, apesar da oposição recíproca das respectivas abordagens, não
se afastam entre si nem de Bönold, porque o denominador comum é a colocação do
valor como “o primeiro” e a reprodução mental e conceptual da hierarquização de
género. Um ponto essencial aqui é a redução do conceito de dissociação a
determinadas “actividades” ou, como no caso de Bönold acima, a um “resto”,
assim se dizendo desde logo que o “autêntico” seria algo diferente.
Dissociação-valor
como conceito da totalidade
Decisivo
para entender é também o estatuto real e conceptual da dissociação em relação
ao todo social e à sua repartição em diferentes “esferas”, domínios da
reprodução ou sistemas parciais/subsistemas, como se exprime concretamente, por
exemplo, na teoria dos sistemas. Ora tal como a “dominância” do valor é (mal)
compreendida superficialmente como redução da relação de dissociação a um
“resto”, e a “definição” de lógica formal igualmente superficial é (mal)
compreendida como resultado de uma relação de derivação, assim também por
maioria de razão a alegada atribuição do “feminino” a uma “esfera” totalmente
diferenciada da sociedade, a uma área separada ou a um “subsistema” no mesmo
sentido deveria ser considerada como outra “prova” de que o dissociado, de
qualquer maneira, não passa de algo secundário e parcial, enquanto apenas o
valor brilha como conceito do todo. Assim afirma Bönold sobre a teoria da
dissociação e do valor: “A génese histórica é tratada como separação de esferas
(...)” (Bönold 2008 a) e chega-se quase ao ponto de “procurar” a definição do
dissociado “em diferentes formas de actividade e ‘esferas’ daí resultantes”
(ibid.).
Ora, no meu
livro sobre o género, em contraste com publicações anteriores (Scholz, 1991),
procurei mostrar que o ponto de partida fundamental para a crítica da
dissociação e do valor simplesmente não consiste num ponto de vista de teoria
da diferenciação. A chamada separação de esferas da modernidade, numa esfera
pública e noutra privada, é à partida conceptualmente secundária, ainda que
esta definição tenha inicialmente desempenhado um papel mais importante, para
se conseguir a aproximação ao conceito de dissociação. Sem dúvida é um facto
que a sociedade da dissociação e do valor se diferenciou em esferas, embora
isso não deva ser compreendido no entendimento positivista reificado da teoria
dos sistemas. E não há dúvida que algumas actividades reprodutivas conotadas
como especificamente femininas estão localizadas na chamada esfera privada. No
entanto, não é isso que determina o CONCEITO de dissociação. Reduzir a
dissociação a uma esfera particular implica, além disso, um modo de proceder
positivista, como de resto se pode ver também imanentemente no entendimento do
valor do marxismo vulgar, quando o valor é reduzido economistamente a uma
“esfera económica”.
No meu livro
sobre o género pus a claro que a dissociação não “reside” apenas na esfera
privada, o que continua a ser largamente ignorado por Bönold e não só. Pelo
contrário, a dissociação-valor constitui um princípio fundamental abrangente
que atravessa todas as esferas, ou seja, tanto a esfera privada como as várias
esferas públicas. Portanto ela continua a manifestar-se, mesmo se as mulheres
há muito tempo deixaram de se limitar a ficar fixadas simplesmente ao domínio
da reprodução, sendo hoje, em contraste com a fase fordista, “duplamente
socializadas” (Regina Becker-Schmidt) e desenvolvendo processos de
individualização (ver abaixo). Isso não significa, no entanto, qualquer
nivelamento da assimetria sexual; como já indica a expressão “dupla
socialização”, as mulheres são individualizadas de forma bem diferente dos
homens. O facto de o capitalismo ter constituído o “trabalho” como uma “esfera
realmente abstracta” separada (como diz Robert Kurz na sequência de Polanyi)
não coloca contradição absolutamente nenhuma. Tal como o trabalho abstracto não
pode ser entendido como “campo viável” isolado, o mesmo se passa com a
dissociação. No entanto, verifica-se repetidamente nas discussões que essa
redução a uma esfera particular não passa de um estereótipo, precisamente
porque o pensamento positivista só consegue perceber as esferas funcionais
relacionadas reciprocamente umas com as outras e perante as altas árvores deixa
de ver a floresta da conexão interna, e portanto também qualquer princípio
social fundamental abrangente. Voltaremos a este problema mais de uma vez.
O equívoco reducionista
reflecte-se em Bönold também no facto de que, para ele, certas actividades das
mulheres só deixam definir o seu papel na ordem simbólica do patriarcado ou até
nos processos típicos (?) de socialização quando se “relacionam directamente
com o mercado e com o Estado” (Bönold, 2008 a). Porque há-de isso ser assim
permanece um segredo seu e uma mera afirmação. Tal como já no caso do
entendimento de “dominância” e no da “lógica da definição” formal, também aqui
mais uma vez se supõe que mercado e Estado subsistem por si, enquanto a
dissociação apenas poderia aparecer “em relação” com o mercado e o Estado. Pelo
contrário, o facto é que também mercado e Estado se relacionam com a relação de
dissociação per se invisível, na medida em que esta, por seu lado,
também chega às suas “particularidades”, ocorrendo nestas esferas, de certa
maneira, uma formação secundária, que só se pode explicar se a
dissociação-valor for compreendida como princípio fundamental, que também se
expressa nas esferas do mercado e do Estado, embora de modo diferente do da
esfera privada ou de outros “domínios”.
Ao contrário
das interpretações persistentemente repetidas, a dissociação-valor não
constitui qualquer conceito de diferenciação, mas sim um conceito da
totalidade, conceito este tornado anátema nas últimas décadas no contexto da
pós-modernidade. Sem um conceito de totalidade, no entanto, não é possível
entender criticamente o todo. Na verdade, a teoria da dissociação e do valor
estipula que trata do todo e determina a relação de género ao mesmo nível de
abstracção que o valor. Trata-se aqui, no entanto, de um conceito de
“totalidade concreta”, já representado por Lukács e Adorno contra um marxismo
positivista, ou seja, de um entendimento da totalidade já não puramente dedutivo,
sendo que, no entanto, para lá de Lukács e Adorno, a definição abstracta já não
é universalista, mas sim quebrada em si, no sentido da dissociação e do valor.
Isto leva-nos à crítica de Adorno da lógica da identidade, que a este respeito
também deverá ser formulada de novo.
O
não-idêntico e a lógica da dissociação e do valor
A partir da
definição conceptual de dissociação-valor em termos de uma “contradição
existente” que vá para além da dialéctica de Hegel e de Marx segue-se também
que ela não é de modo algum equiparável ao “não-idêntico” de Adorno. O facto de
essa diferenciação feita por mim provocar irritações parte possivelmente da
intenção mais ou menos inconsciente de que a dissociação do “feminino”,
conceptualmente estrangulada e no sentido duma dialéctica marxista tradicional,
deveria ser de novo deportada para o reino do não-essencial, meramente
particular e colateral, onde ela na verdade pertence segundo esse entendimento.
Em vez disso, a dissociação (e valor) – ceterum censeo – é pelo contrário
uma estrutura basilar, uma lógica na dimensão processual, mesmo se nas
atribuições a “a mulher” se mostra aquilo que representa estupidez e
irracionalidade para um modo de conhecimento matemático formal, ou seja, que
constitui uma pedra no sapato para a feitura da ordem formal.
Para Bönold
a diferença entre dissociação e não-idêntico, devido ao seu mau entendimento e
ao seu reducionismo já expostos, é mais uma vez incompreensível; na sua
opinião, a minha argumentação sobre isto limita-se à lapidar “informação” de
que os dois seriam simplesmente “não sinónimos” (Bönold, 2008 b). Da minha
exposição, porém, ressalta uma razão clara: A dissociação não é simplesmente o
não-idêntico nem tão-pouco pode representar qualquer espécie de “resto não
reificável”, porque é justamente o reverso do valor, ou seja, é o próprio
princípio fundamental da socialização do valor e não algo exteriormente
não-idêntico ao conceito no sentido de Adorno. Isto implica, contudo, também um
conceito modificado de identidade e não identidade. A crítica da lógica da
identidade e o recurso ao não-idêntico pressupõe também em Adorno, mesmo na
crítica, uma universalidade abstracta do valor (em todo o caso determinada
negativamente), ainda que esta seja pensada como quebrada. Esta reprodução
conceptual, precisamente na medida em que o é, tem no entanto necessariamente
um ponto cego na percepção da realidade, porque pressupõe a dissociação e,
portanto, também reproduz o seu obnubilamento. Se não se reflecte sobre este
contexto, tal obnubilamento no plano conceptual ameaça a insinuar-se também na
crítica.
Por isso
defendi já no meu livro sobre o género, contra uma posição de crítica da
identidade meramente formal de Becker-Schmidt/Knapp nas décadas de 1980 e 1990,
que “... não se poderia evitar a impressão de que a insistência de Adorno na
‘não identidade’ (...) é sociologicamente reduzida e transformada na
constatação em todo o caso banal de que já é sempre tudo diferente e altamente
contraditório, distinguindo-se sempre um dos outros, o que em última análise
tem por consequência uma infinda enumeração (por exemplo, de diferentes
mulheres e grupos de mulheres) (...). Essa crítica, portanto, é utilizada não
só como certificado de inocência de uma arte de saltimbanco da diferença e da
‘diferenciação’ no fundo positivista, mas quase não se pode evitar a impressão
de que ela tem de servir para racionalizar uma exaltação obsessiva da
exactidão, que se esforça por ir mesmo além dos padrões habituais do trabalho
científico (...) Precisamente o tema ‘especial’ da relação de género, que além
disso também é uma relação social fundamental, precisaria agora ele próprio de
um ‘conceito’ num plano teórico perfeitamente fundamental, pois
significativamente tem sido aplicado apenas a essa relação e ao ‘feminino’ como
‘domínio obscuro’, que tem existido quase por oposição dualista ao conceptual
(...)” (Scholz 2000, p. 66 e ss).
Aqui nos
confrontamos novamente com o problema fundamental de que é preciso agarrar
conceptualmente também o próprio não-conceptual da dissociação no pensamento
androcentricamente universalista, precisamente porque não representa qualquer
“resto”, constituindo pelo contrário um princípio basilar em correspondência
com (e não em subsunção a) o valor; mas, com uma elaboração conceptual que
rompe com o horizonte conceptual androcentricamente universalista e, portanto,
também com uma duplicação do princípio basilar da forma como princípio em si
quebrado (valor e dissociação), por assim dizer também a crítica da lógica da
identidade tem de ser duplicada – ou seja, o seu próprio conceito não pode ser
entendido no sentido da velha dominância do conceito. É isso que quer dizer ir
com Adorno para além de Adorno. Daí que eu tenha escrito no livro sobre o
género: “Torna-se necessária uma elaboração conceptual basilar, como a da forma
da dissociação e do valor, que seja capaz de apreender mesmo este não
conceptual e simultaneamente conheça os seus próprios limites (...) e que assim
também consiga chegar às contradições da situação pós-moderna das mulheres (e
às correspondentes estruturas) através da historicização” (Scholz, 2000, p. 66
e ss.)
Assim, como
que num segundo passo, o não-idêntico de Adorno entra novamente em jogo também
contra o conceito de dissociação, tal como ele está contido na caixa de Pandora
desta teoria. Aqui a “crítica do valor” tem de se modificar e assumir uma
qualidade completamente nova; não só no que respeita à decifração da relação de
valor como simultânea e co-originária relação de dissociação, mas também no
sentido de que o entendimento da dissociação-valor como lógica fundamental por
sua vez não pode ficar em si mesmo como um “sistema fechado” simplesmente
alargado, pelo contrário, tem de dar seguimento também àquilo que o seu
conceito não “consente” directamente. Foi isso que tentei mostrar no meu livro
sobre o género. No entanto, na ausência do conceito do que é tornado não
conceptual neste sentido pela relação de dissociação, então a consequência é
essa redução acima esboçada da crítica da identidade, que no seu modo de
proceder formal já não constrói qualquer referência a um princípio social
fundamental ou ao todo social e, portanto, dissolve também as questões de
género em meras determinações empírico-sociológicas. Sem surpresa, este
contexto por maioria de razão constitui para Bönold uma exigência excessiva, de
tal modo que no seu caso nem consegue ser tematizado como tal, mas surge apenas
indirectamente.
Pelo
contrário, incluir o não-idêntico ao conceito contra o próprio conceito de
dissociação-valor significa: se a crítica da dissociação e do valor é forçada a
pensar contra si mesma e, contra um (mau) entendimento universalista, se
desmente a si mesma, então ela tem de dar seguimento igualmente a outras
disparidades sócio-económicas, bem como a padrões ideológicos como o
anti-semitismo, o racismo e o anticiganismo, como temas para “levar
particularmente a sério”, ou seja: estes não podem ser derivados da
dissociação, tal como a dissociação não pode ser derivada do valor, mas também
aqui é preciso fazer valer uma pesada dialéctica negativa (ver em detalhe
Scholz, 2005). Além disso, a crítica da dissociação e do valor, colocando em
questão de certa maneira a partir do seu interior dialéctica e negativamente
tanto um pensamento de lógica formal positivista como um pensamento coberto com
o universalismo, tem de procurar fazer justiça POR PRINCÍPIO sempre à própria
“coisa”. Isso significa agrupar os conceitos em constelação em torno da coisa,
para pretender a qualidade própria da coisa, o que não tem nada em comum com um
procedimento de lógica formal, nem com um procedimento vitalista que abandona
completamente o conceito.
Mesmo o
“indivíduo não é o último”, como diz Adorno (Adorno, 1966, p. 165). Isso ainda
representa uma maior complexidade: “Aquilo que no não-idêntico não pode ser
definido em seu conceito excede seu ser-aí singular no qual ele não se
concentra senão na polaridade em relação ao conceito, tendendo em direcção a
ele. O interior do não-idêntico é a relação com aquilo que ele mesmo não é e
que lhe recusa a sua identidade arranjada, cristalizada, consigo mesmo. Ele só
se alcança a si mesmo na exteriorização, não em sua cristalização; isso ainda
precisa ser aprendido com Hegel, sem fazer concessão aos momentos repressivos
da sua doutrina da exteriorização. O objecto abre-se para uma insistência
monadológica que é consciência da constelação na qual ele se encontra: a
possibilidade de uma imersão no interior necessita desse exterior. (Adorno,
1966, p. 165). [2009, p. 141]
É
precisamente nestes termos que a crítica da dissociação e do valor tem de se
desmentir como afirmação dum princípio social fundamental, no sentido de um
“primeiro”, no entanto também tendo igualmente de persistir com veemência em si
mesma, nomeadamente como objecto na verdade particular, que no entanto ao mesmo
tempo apresenta um carácter de generalidade no sentido de um princípio
fundamental, sobre o qual ainda assim nada deve nem pretende ser conhecido.
Consciente da própria limitação, ela deve ainda assim expressar-se em voz alta
e não ficar embotada com a “censura” (Jessica Benjamin), como uma orientação
dominante queer ou sexual que, à sombra do empreendimento académico, tem
por bem chapinhar de forma auto-suficiente e insignificante (v. de certo modo
semelhante Soiland 2003, p. 167). Caso contrário derreter-se-ia até mesmo o seu
“carácter especial”, a sua própria qualidade, em prol de uma visão redutora e
simples de “não-identidade”. Na indiferenciação ela seria apenas um dos
múltiplos muitos, os quais estão todos apenas lado a lado. No entanto, assim já
não teria lugar qualquer outro, enquanto dialéctica e negativamente Outro,
independente, mas sem o qual ela própria não poderia mesmo ser de qualquer
maneira. Deste modo também se aplica à teoria da dissociação e do valor que não
há idêntico sem não-idêntico, ao qual tem de ser dado seguimento
incondicionalmente, como autónomo. Em contraste com a crítica “convencional” da
troca, ou do valor, a crítica da dissociação e do valor está impedida de
permanecer em si e de se posicionar a si mesma como “primeira”. Voltarei
novamente mais tarde à importância de pensar em constelação no sentido da
crítica da dissociação e do valor.
Princípio
social fundamental e diferenças
Assim
chegamos também ao problema que representa para a crítica da dissociação e do
valor a relação entre conceito (de um princípio fundamental) e as famosas
diferenças que nele não são absorvidas. Também aqui a crítica de Bönold se
desmorona completamente na sua argumentação. Por um lado, ele até tenta tornar
plausível a teoria da dissociação e do valor através de uma abordagem
positivista que está exactamente na tradição de lógica formal especialmente
visada pela crítica desta teoria. Naturalmente que isso nunca pode ser conseguido,
de modo que Bönold também julga descobrir montes de absurdos e contradições.
Basicamente, ele censura ao conceito de dissociação-valor não ser compatível
com o entendimento do conceito androcentricamente universalista tornado
positivista no seu desenvolvimento e, por assim dizer, não ser suficientemente
“conceptual” de acordo com a corporação, ou seja, por lhe faltar exactamente
aquela generalidade abstracta que é precisamente o objecto da crítica.
Por outro
lado, ele também procede exactamente em sentido inverso, na medida em que
censura de certo modo o conceito de dissociação-valor por ser “demasiado”
conceptual e operar ele próprio na lógica da subsunção relativamente ao
concreto, ao diferente. Atrás disto esconde-se naturalmente um pensamento que vivencia
como “arrogância” atribuir um conceito sui generis ao que foi tornado
não conceptual na relação de dissociação. Ele tem o mesmo problema já acima
identificado na posição de Becker-Schmidt/Knapp, por exemplo quando compara
“sexualidades no plural,” “diferenças ou hierarquias entre as mulheres e entre
os homens”, e um entendimento da história como uma lista de “factos” (Bönold
2008 a) a uma visão da dissociação e do valor como princípio fundamental em
processo histórico. Uma vez que ele aqui subitamente já não quer saber para
nada do conceito de totalidade, falta-lhe a si mesmo o carácter persuasivo de
lógica formal que exige de mim presunçosamente. Ele tem “aqui” uma estrutura
geral que reclama que seja determinada como sempre de modo formalmente definitório,
e “aí” os “múltiplos” muitos determinados como sempre, enquanto o contexto de
mediação fica completamente no escuro.
A partir do
“entendimento metódico” peculiarmente abstracto de Bönold deveria seguir-se que
um “plural” de dissociações, homens, mulheres, sexos, etc. para começar tivesse
“logicamente” como pressuposto a sua definição geral, antes que então, no seu
pensamento típico e de certo modo no nível da classificação dos insectos, os
pudesse voltar a diferenciar em “muitos”, encontrando os correspondentes
“conceitos”! Na medida em que ele não percebe a outra definição do conceito de
dissociação, não de lógica formal mas dialéctica, pretendendo no entanto, por
outro lado, levar em conta o “diferente”, sem contudo conseguir percebê-lo em sua
referência a um princípio fundamental, ele cai na falsa imediatidade. Uma vez
que ele não consegue perceber o seu fundo positivista e simultaneamente insiste
num “mandamento de multiplicidade” pós-moderno e a meu ver também insiste numa
“proibição da realidade” relativamente ao todo social, o que inevitavelmente
tem por consequência uma certa confusão, perante a sua crítica lembramo-nos
involuntariamente do título de um livro de sucesso que expressa bem essa
confusão: Quem sou eu e, se sou, quantos? (Richard David Precht).
Tanto quanto
Bönold se lembra de um princípio social fundamental, ele pensa no valor como
“marxista” (positivista) que é, para quem a dissociação parece sobretudo
pavorosa e “ilógica”. No que diz respeito às diferenças, ele se transforma num
alegre “pós-moderno”, que também já não quer saber muito do valor abstracto
para nada. Enquanto a teoria da dissociação e do valor persiste no seu conceito
e ao mesmo tempo (um paradoxo para o pensamento da lógica formal) se desmente a
si mesma, uma vez que relaciona com ele o diferente sem ser numa lógica de
subsunção, reconhecendo-o na sua própria particularidade, Bönold “esquece” o
seu próprio conceito universalista do todo e imputa-lhe uma suposta
anterioridade “lógica” face ao múltiplo, ao particular etc., sem ter em conta o
conteúdo concreto, que no entanto é o que importa em primeiro lugar à crítica
da dissociação e do valor.
Em vez disso
Bönold cai por sua vez na hipostasiação positivista da diferença que se pode
encontrar em muitas teorias pós-modernas e que eu tinha criticado no meu livro
sobre o género. Pois, como eu tinha escrito, acontece especialmente na
pós-modernidade que “... a ideia do individual, do particular e do diferente
fica novamente sob a égide do laço conceptual geral do cultural. Ao contrário
dos modos de proceder do ‘velho positivismo’, que promovem uma equiparação do
diferente na estandardização, (...) na visão pós-moderna o individual, o
particular e o diferente tornam-se o ponto de partida calculadamente empírico
da elaboração teórica culturalmente monista em si e para si. Poderíamos falar
de um quase ‘positivismo da diferença’ pós-moderno, que renuncia às
classificações e, em vez disso, tem prazer no registo das diferenças e/ou no
“olhar” do individual/particular. Procura-se aqui expulsar o denominador comum
abstracto tal como antes se procurava expulsar a diferença nas posições
positivistas clássicas. Desde meados da década de 1980, (...) no feminismo essa
tensão tem sido mais claramente resolvida a favor da diferença. Após um período
de generalização da hipótese de uma submissão universal e da tese oposta que
repentinamente se seguiu de uma situação específica das mulheres de acordo com
o contexto (cultural), que negava estritamente à partida de forma apodíctica
qualquer possível comunidade, a meu ver existe hoje a possibilidade (e também a
necessidade) de ter em consideração e fazer valer imparcialmente na sua tensão
tanto as coisas comuns como as diferenças “ (Scholz, 2000, p. 145).
Logo que
Bönold faz valer as diferenças contra mim e na circunstância abruptamente
posiciona como referência teorias pós-modernas/pós-estruturalistas, de repente
para ele já não existe qualquer forma social fundamental em geral, e muito
menos com referência de género, mas apenas vulgares sujeitos civis da
negociação que fazem eles próprios interactivamente a sua sociedade na
unilateralidade não dialéctica. O género aqui é em primeira linha “uma práxis
de indivíduos modernos” (Bönold, 2008 a). Assim “desconceptualizadamente”
Bönold pretende ter morto dois coelhos com uma cajadada só: De acordo com o seu
entendimento universalista androcêntrico que espreita em fundo são supostamente
revelados os limites do conceito de dissociação, conseguindo ele
simultaneamente, por outro lado, alistar-se no navio pós-moderno e imaginar que
assim mete tudo no saco, a estrutura e a acção em igual medida, e que no fundo
está acima de tudo, quando se limita a manifestar a sua confusão.
De resto ele
nem sequer está ao nível da literatura relevante sobre o tema, mas já um pouco
atrás no tempo. A hipostasiação da diferença por ele infatigavelmente explorada
há muito que vem sendo posta em questão em publicações feministas como Descentrado
e arriscando muito (Knapp, 2001), Mão no coração desconstruído
(Koppert/Selders, 2003), Diferenças entre mulheres. Para a determinação da
posição e a crítica do feminismo pós-moderno (Sommerbauer, 2003), entre
outras. Há muito tempo que se está novamente a tentar juntar marxismo e
feminismo. Sobre isso Bönold não diz uma palavra, porque estas reflexões em
sentido contrário não se encaixam no plano da sua esforçada crítica da teoria
da dissociação e do valor.
A ausência
do conceito de dissociação-valor na teoria feminista
No plano
conceptual, a teoria da dissociação e do valor critica as posições feministas
porque e na medida em que elas não determinam a relação de género ao nível do
princípio social fundamental. Isto aplica-se de diferentes maneiras, tanto ao
marxo-feminismo da década de 1970, quanto, como se viu, às teorias pós-modernas/pós-estruturalistas.
Ao mesmo tempo, no entanto, refiro-me, evidentemente, à pesquisa feminista.
Para Bönold isso já é mais uma contradição lógica; o “recurso ao feminismo”
seria “em qualquer caso incompreensível” porque “o termo (dissociação, R.S.)
também aí surge apenas marginalmente, não é central” (Bönold, 2008 b) e não
seria possível encontrá-lo em enciclopédias relevantes ou livros introdutórios.
Será este um critério?
Na minha
opinião, no entanto, os resultados da investigação feminista (pelo menos na
medida em que assim possam ser designados e não se tenham transformado numa
pesquisa do género muito conciliadora com a situação sobre múltiplas/os
mulheres-homens-sexos) apontam gritantemente no sentido de fazer do conceito de
dissociação o conceito nuclear ou essencial. Os “exemplos” seriam tantos que
aqui só difícil e rebuscadamente poderiam ser tidos em conta argumentos
contrários. É o caso quando Bönold pensa poder jogar contra o conceito de
dissociação “o conceito de abjecção” (usado, por exemplo, por Kristeva e
Butler) (Bönold, 2008 b), ou seja, pensa poder jogar rabulisticamente o
“rejeitado” contra o conceito de dissociação. De certo ponto de vista, o
“rejeitado” significa algo muito semelhante, ainda que num contexto limitado. O
facto de aqui haver, por assim dizer, sinónimos espontâneos no âmbito de vários
estudos aponta justamente para a situação de há muito tardar um conceito sobre
o todo, tornado explícito e fundamentado num plano mais elevado de abstracção,
quer isso agora agrade ou não ao empreendimento científico actual.
Se esse
conceito central de dissociação-valor até agora não aparece nas enciclopédias
isso é simplesmente irrelevante. Precisamente porque o contexto assim designado
no quadro teórico geral é mais do que óbvio (ou o conceito de dissociação de
vez em quando até é pronunciado explicitamente) esta ausência deveria ser vista
como falha das enciclopédias, apontando para uma enorme mancha cega, em vez de
denunciar as teorias originais, que não podem ser responsabilizadas pelo que a scientific
community agora aprova ou deixa de aprovar! Assim, é claro que a teoria da
dissociação e do valor constrói sobre as conclusões e os resultados da pesquisa
feminista (incluindo a académica), pois não há outra; mas é claro que não pode
ver um trabalho académico entretanto amplamente desdentado e sem graça
(precisamente no que respeita à “pesquisa de género”) como uma espécie de
autoridade papal, de acordo com cuja observação e classificação a sua própria
verdade ou falsidade teria de ser avaliada.
O conceito
de dissociação-valor representa um hiperconceito que combina diferentes níveis
e dimensões na sua processualidade (mas simultaneamente também dá seguimento à
sua autenticidade). Precisamente porque ele não se mantém por si, mas apenas
pode ser pensado na mediação com o conceito de valor, ele vai para além de uma
mera pesquisa da diferença (para a qual a linguagem e o discurso, como vazio
geral e abstracto, representa de certo modo um substituto da totalidade), vai
até ao todo social. Para ele trata-se, portanto, de fazer o famoso esforço do
conceito; um esforço que ficou fora de moda perante o pano de fundo do declínio
da dialéctica marxiana. Dada a predominância de um “marxismo cultural” e em
conjunção com o surgimento de teorias pós-modernas e pós-estruturalistas que se
tornaram o mainstream, há anos que o pensamento dialéctico representado
pela teoria da dissociação e do valor e formulado de novo está sujeito a uma
dificuldade de recepção. Torna-se aqui necessária uma crítica a esse mainstream
que se anuncia como tudo menos idolatria cientificista.
Teoria,
empiria e desenvolvimento histórico
A
problemática da relação entre princípio social fundamental e diferenças está
intimamente relacionada com a da relação entre teoria e empiria, embora seja
importante notar que se trata de diferentes níveis de abordagem. À semelhança
da sua crítica à alegada falta de compreensão da teoria da dissociação e do
valor para com as diferenças, Bönold também me acusa de ser empiricamente “descarnada”
ou “não mediada com a realidade” (Bönold, 2008 a). A pergunta é o que entende
ele verdadeiramente por “realidade”. Em todo o caso, os chamados factos também
não são reais se forem considerados descontextualizadamente; nesse caso eles
são tão irreais como um mero conceito abstracto não mediado. A realidade é
apenas o contexto conjunto não imediatamente perceptível, que também só pode
ser captado na reflexão por aproximação.
Ora é bem
verdade que uma certa variedade de crítica do valor abstracta e androcêntrica
se perde num “vazio matraquear do conceito” (como Bönold me acusa logo a mim,
embora isso se aplique antes às suas próprias referências de “crítica do
valor”) e coloca um chapéu do valor universalista sobre qualquer tema,
independentemente da sua constituição concreta. No entanto é precisamente à
crítica da dissociação e do valor que isto não se aplica, pois contradiz
decididamente a sua essência. Ela tem de ser capaz mesmo de se auto-corrigir
através do confronto com os resultados da pesquisa empírica tomados a sério.
Não se trata, porém, de que a teoria esteja unilateralmente submetida ao
veredicto da empiria (que deve ser questionada ela própria no seu modo de
entender). Trata-se, sim, de verificação e relativização cruzadas. Daí resulta
uma insolúvel relação de tensão entre teoria e empiria no conhecimento da
realidade, mais ou menos nos termos de Adorno: “(...) é próprio dos projectos
(teóricos) que eles não coincidam simplesmente com os resultados da
investigação; que se exponham contra estes, ousem ir mais longe, ou então, na
linguagem da pesquisa social, que tendam para generalizações equivocadas. Por
isso mesmo (...) foi necessário o desenvolvimento de métodos
empírico-sociológicos. Sem esse ousar ir mais longe da especulação, porém, sem
o momento inevitável na teoria, isso seria absolutamente impossível” (Adorno,
1995, p. 101).
Com isso
também se aborda exactamente o que Adorno entende por “crítica imanente” e
Bönold reivindica para si de forma diletantemente confusa, quando ele me
critica, sem ter em conta a referida relação de tensão. A invocação ingénua das
pesquisas em ciências sociais, particularmente no que diz respeito à diferença
de género, deve ser tratada com cautela, pois também aqui é possível uma
distorção ideológica da realidade, tal e qual como no apelo ingénuo à pura
teoria. Em Bönold está completamente ausente a problematização da ciência
positivista dos factos. Em vez disso ele trata os estudos empíricos – ignorando
a sua eventual natureza ideológica – como conhecimento já sempre seguramente
sem pressupostos, onde ele no fundo se permite confundir teoria e empiria.
Trata-se
aqui simultaneamente da dimensão historicamente processual da dissociação e do
valor, sendo que a acusação de Bönold a este respeito é de que os
desenvolvimentos históricos em termos de “matéria de facto” seriam considerados
inadequados, conceptualmente negados ou erroneamente definidos. Quanto a esta
problemática, já não é suficiente qualquer discussão abstracta de crítica do
conhecimento e de crítica social, mas exige-se a análise histórica concreta,
que por sua vez não pode consistir numa acumulação positivista de “factos”
descontextualizados. Também aqui é preciso distinguir entre essência e aparência,
sendo que a própria essência não deve ser entendida como rígida, mas em
processo histórico, a partir dos processos da constituição original.
Com este
objectivo há muito existem suficientes pesquisas, mesmo históricas, sobre as
quais se pode basear a teoria da dissociação e do valor. Foi o que fiz, como é
costume num trabalho científico, com referência entre outros a Heintz/Honegger
(1981) ou também a Heidemarie Bennent (1985), a qual prova a culpabilidade dos
grandes filósofos na “dissociação do feminino”, e tendo de facto como pano de
fundo análises históricas reais. Fundamentei a minha teoria da dissociação e do
valor precisamente tendo esses trabalhos como referência. É novidade para mim
que as investigações citadas teriam de ser repetidas sem fim – por causa da
polémica – cem mil vezes, como num moinho de orações. Isto significaria rigidez
e estagnação eternas na elaboração teórica. Tanto como no caso das enormes
“dúvidas empíricas” de Bönold em relação ao dimensionamento histórico da crítica
da dissociação e do valor. Ele próprio é que tem problemas com determinações e
definições rígidas, por um lado, e mudanças sociais, por outro.
Assim também
outras mudanças nas relações de género até hoje têm de ser entendidas a partir
dos mecanismos e estruturas da dissociação e do valor em si. Nesta base da
dissociação e do valor sobretudo o desenvolvimento das forças produtivas e a
dinâmica de mercado (que em si já assentam na dissociação-valor) socavam os
seus próprios pressupostos, uma vez que as mulheres se afastam em grande parte
do seu papel tradicional (cf. Beck, 1986) e agora na pós-modernidade a “dupla
socialização” já sempre ocorrida torna-se-lhes consciente na sua contradição. A
situação da dona de casa da década de 1950 na era fordista é muito diferente da
de uma mulher “duplamente socializada”, de facto igualmente responsável pelo
trabalho e pela família, como Regina Becker-Schmidt e muitas outras
pesquisadoras nas últimas décadas apuraram em estudos empíricos (ver mais
recentemente Gildemeister/Wetterer, 2007). Isto significa que a essência da
dissociação e do valor também tem de aparecer; não, porém, enquanto rígida,
onde a empiria seria apenas acidental, mas dentro e através do processo
histórico.
Aqui as
mulheres empíricas não são simplesmente equiparáveis com a dissociação-valor
como forma social fundamental, pois trata-se de um plano estrutural abstracto,
abrangente e ele próprio em processo. Ela aparece igualmente em estruturas
sociológicas, em certa medida num plano mais próximo da empiria, onde o teorema
das ciências sociais da “dupla socialização”, em que eu me apoio no meu livro
sobre o género, assenta completamente em estudos empíricos, ainda que tal
proximidade à empiria da minha parte assim mediada não convenha a Bönold e ele gostasse
de me empurrar simplesmente para a esfera das alturas ou me acuse da distorção
de imagens mediáticas equivocadamente levadas a sério.
Mais uma
vez, por outras palavras: a dissociação-valor, como princípio social
fundamental em processamento histórico, está estabelecida num plano muito
abstracto de teoria fundamental, mas a constatação da “dupla socialização” das
mulheres (em que se manifesta a natureza da dissociação e do valor numa
determinada fase histórica) é dimensionada pela estrutura social, tal como a
anterior atribuição das mulheres à “casa”; e o caso dos indivíduos isolados
empíricos é por sua vez uma outra história, mesmo que não possam escapar à
força da gravidade (historicamente variável!) das atribuições de género no
contexto da dissociação e do valor. Tais determinações diferenciadas na relação
entre teoria e empiria relativamente à processualidade histórica constituem um
grande problema para Bönold. A dissociação-valor não pode nem quer ser
apresentada apenas como um esquema, nem significa qualquer estrutura atemporal,
como Bönold gostaria de supor.
Já é preciso
olhar esforçadamente para o lado, quase fazer-se de burro, para não ver o facto
de que a “dupla socialização” das mulheres na mobilidade específica das
posições de vida e o modelo de “pequenas autonomias” por conta própria são hoje
dominantes, situação em que também a análise de Schultz (1994), da qual retiro
esta definição no meu livro sobre o género, é baseado em pesquisas sociológicas
empíricas. Basta ver hoje o discurso sobre a política da família de von der
Leyen, ou a alteração da Lei do Divórcio, em que agora as mulheres serão
responsáveis pelo seu próprio sustento após o divórcio. A política, como também
a publicidade e os média, têm aqui usado plenamente as descobertas da pesquisa
social (feminista). As mulheres empíricas, hoje, já na sua vida têm de ser em
si “múltiplas” e “queer”, o velho modelo de família da mulher dona de
casa está obsoleto. É exactamente nisso que se revela a nova face do
capitalismo, do patriarcado produtor de mercadorias. Perante este pano de
fundo, a questão em relação a Bönold, que quer jogar as mudanças históricas
empíricas contra o conceito de dissociação-valor, é: Quanta perda de
realidade pode suportar a elaboração teórica das ciências sociais?, na
formulação uma vez adoptada por Wolf Dieter Narr relativamente à hipótese de
uma contingência quase ilimitada nas teorias pós-modernas (Narr, 1994).
Neste
contexto, eu nunca afirmei que a constituição social e psicológica dos
indivíduos (sexualizados) tenha permanecido rígida até à pós-modernidade, pelo
contrário, ela tem de ser vista no contexto do desenvolvimento social global,
como por exemplo uma melhor formação e empregabilidade das mulheres hoje, o
surgimento do ideal das “pequenas autonomias”, a “dupla socialização” da mulher
e a sua construção como “pau para toda obra” (2). No meu livro sobre o género
expressamente previ que, se a família nuclear muda, também algo terá de mudar
nos pressupostos psicossociais. Por exemplo, quando, recorrendo a Kornelia
Hauser, falo também de um “código de sentimentos do mesmo sexo” das mulheres na
pós-modernidade.
Mas, se
nunca afirmei de forma dualista uma rígida sexualidade de dois sexos,
logicamente também não se pode chegar à sua inconsequente dissolução por mim na
pós-modernidade, como alega Bönold. Em vez disso, tratava-se para mim de saber
que mudança sofreram as relações de género no processo histórico da moderna
dissociação-valor desde os seus primórdios na época moderna; até precisamente à
“dupla socialização” das mulheres, ao risco de os homens “se transformarem em
donas de casa”, bem como à decomposição das relações familiares e às
correspondentes relações compulsivamente flexíveis no declínio pós-moderno do
patriarcado produtor de mercadorias hoje em todos os aspectos. Assim, apenas as
tendências de individualização pós-moderna e a responsabilidade das mulheres
simultaneamente pelo trabalho e pela família “levaram a uma diferenciação do
papel feminino (...)” e “a que as mulheres interpretassem as contradições como
tais e (se tornasse) possível o discurso da diferença entre mulheres” (Ostner,
1991, p. 202).
O próprio
Bönold se torna aqui “empiricamente” a-histórico quando afirma que eu gostaria
de “perpetuar acriticamente a tese da desintegração da família” (Bönold, 2008
a), enquanto ele a nega acriticamente. Em que material se baseia ele aqui e a
que sociólogos/as se refere, isso ele não se sentiu obrigado a dizer, apesar de
todas as outras picuinhices contra mim. De resto eu não reclamei simplesmente o
modelo de família nuclear para o mundo inteiro, como Bönold afirma, mas falei,
para as condições do chamado Terceiro Mundo, sobre a dissolução das relações
familiares alargadas. Esta expressão também podia ser realmente insuficiente,
mas na verdade eu não projectei de facto as ideias da dona de casa, do sustento
da família e da família nuclear “em todo o mundo” (Bönold, supra; em sentido
contrário ver Scholz, 2000, p. 122 e ss.)
Que a
dissociação-valor como forma social fundamental seja um processo é o que mais
uma vez indica o facto de ela ter de se desenvolver no plano da totalidade
concreta. Hoje esse processo culmina com a fantasia de omnipotência “natural”
das mulheres na sociedade, por exemplo em Frank Schirrmacher, que assim as vê
como mulheres dos escombros (3), capazes de tudo, o que se poderia verificar
repetidamente na história, uma vez que as mulheres sempre teriam lidado melhor
que os homens com situações extremas e isso ainda seria sempre visível na
cobertura social e na responsabilidade social por outras pessoas (cf.
Schirrmacher, 2006). Para ele as mulheres não são construídas como donas de
casa e mães: “Afirmar que as mulheres têm uma forte competência emocional e,
provavelmente, são as fundadoras da nossa comunidade, não quer dizer que isso
se aplique sem excepção a todas as indivíduas, nem que as mulheres devam ser
forçadas ao papel da mãe (...) Não podemos fazer o tempo andar para trás (...)
Investigações dos últimos cinquenta anos (Schirrmacher refere-se às “pesquisas
sobre o cérebro”, mas também à psicologia evolutiva, à antropologia e à
psicologia, R.S.) mostram que as mulheres têm um papel fundamental na
preservação das famílias e no desenvolvimento e estabilização de redes de
amizade que no futuro tomarão cada vez mais o lugar da família tradicional”
(Schirrmacher, 2006, p. 135 sg.). E continua: “O mais tardar até lá (na UE até
2050, R.S.) será exigido das mulheres que façam as duas coisas: fazer crescer o
produto social bruto e dotar o país de descendência (...) Mas isso não é
suficiente. As jovens mulheres têm de aumentar nas profissões científicas”
(Schirrmacher, 2006, 149). Elas devem, portanto, exercer profissões que na
história do desenvolvimento foram ocupados pelo sexo masculino e que estão à
disposição do talento enfático das mulheres na concorrência. ‘O caçador’,
basicamente o tipo de trabalhador assalariado do sexo masculino, não se tornou
de facto supérfluo na sociedade do ‘mínimo’. No entanto, os filhos ‘não’
conseguem o que as filhas conseguem ultimamente: praticamente tudo de uma vez.
As filhas podem ser socialmente competentes e ganha-pão” (Schirrmacher, 2006,
p. 147 s.).
As mulheres,
no fundo, são um paliativo na crise fundamental podendo aqui supor-se com
alguma justificação, portanto, um “modelo unisexo”: as mulheres são homens,
apenas diferentes (Thomas Laquer). A apreciação superficial das mulheres hoje,
de qualquer forma, deve ser encarada com a máxima desconfiança, não “apenas”
por causa da dupla carga, mas também porque todas as estatísticas continuam a documentar
como antes a discriminação das mulheres, simultaneamente com a estilização da
mulher como super-hipermulher-homem. Assim, o filme aqui é basicamente o
sujeito masculino da modernidade, completado com a dimensão social supostamente
feminina. Nessa medida, a diferença absoluta de género relativiza-se apenas num
novo nível de dissociação e valor.
As mulheres
devem – é esse o subtexto – ser ainda os melhores homens. Uma vez que são
estilizadas como deusas com muitos braços, deve ser para elas gostoso carregar
voluntária e orgulhosamente o jugo múltiplo, sendo notório que se espera delas
modéstia, ultrapassando atitudes agressivas e pretensões de dominância. As
considerações de Schirrmacher também mostram bem como se pode ser
desconstrutivista, sem no entanto ter de renunciar a uma fundamentação
biologista-essencialista, e mesmo nesta posição considerando ainda a mudança
social fundamental. Ele aceita plenamente que nem todo o homem seja e tenha de
ser egoísta, nem toda a mulher seja e tenha de ser social. Isso devia dar que
pensar às orientações (des)construtivistas recentes. E também devia fazer ver a
Bönold como até Schirrmacher o poderia perfeitamente repreender por ele próprio
ter sido muito selectivo no seu recurso às pesquisas científicas, o que em
Bönold constitui uma objecção cardeal às minhas exposições supostamente
“descarnadas” da teoria da dissociação e do valor.
Sexo e
Género
Deveria ser
óbvio que as definições da teoria da dissociação e do valor são
fundamentalmente histórico-sociais, recusando qualquer fundamentação ontológica
ou biologista, como a que se pode encontrar repetidamente nos discursos sobre a
relação de género. No entanto, pelos vistos basta juntar no mesmo plano de
abstracção do princípio social fundamental a relação de género moderna com a
relação de valor ou de capital para poder dar lugar à suspeita de que eu teria
intrometido na lógica da formação histórica algo de biológico supra-histórico.
Na verdade, esta é apenas uma indicação de que esses críticos e críticas
pretendem ligar consciente ou inconscientemente a relação de género a uma “base
biológica” pré-social. Assim, no mencionado artigo de Natasha Wilting, a ideia
de que a teoria da dissociação e do valor precisaria de uma “ontologia da
feminilidade ‘sensual’” (ibid.), que ela me pretende imputar a mim, é
consequência de seu conceito de valor sexualmente neutro, à maneira do antigo
marxismo. No entanto, como o conceito de dissociação se relaciona com o moderno
patriarcado especificamente objectivado em processo histórico, e não com um
mero “arcaísmo” ideologicamente invocado, tal conceito certamente não tem nada
a ver com uma “sensualidade do feminino” (biológica) abstracta, que pudesse ser
retirada da socialidade histórica como um resíduo.
Isso para
mim não quer dizer que as pessoas “em” sua sociabilidade não sejam
simultaneamente também seres naturais; mas apenas que estas definições não
podem ser separadas e que, portanto, o corporal ou sensual só existe na sua
socialidade histórica. Pelo facto de eu (de resto novamente com Adorno) aderir
em geral a uma dialéctica entre natureza e cultura em processo histórico, só
poderia daí seguir-se a acusação de “biologismo” se o momento natural fosse
totalmente engolido na socialidade sem deixar rasto. Isso não tem nada a ver
com Marx nem com Adorno; nessa medida a insinuação de Wiltung não passa de
rabulice interesseira que está em contradição com as suas próprias posições de
referência. Não por acaso a mesma insinuação é feita contra a teoria da dissociação
e do valor também do lado do pós-estruturalismo. É assim que Bönold (na sua
qualidade de pós-moderno) me acusa de ter ignorado o debate sexo-género da
década de 1990.
Estava em
questão nesse debate a tese culturalista baseada no livro de J. Butler Problemas
de género [Gender trouble] (1991) de que o sexo já seria sempre género,
isto é, na abordagem da lógica da identidade teoricamente a natureza seria
completamente absorvida na cultura. Justamente neste debate, no entanto,
existem não poucas vozes contra tal ponto de vista. Escreve por exemplo Carmen
Gransee: “Houve assim uma tendência para a argumentação (cultural) idealista,
que ignora qualquer outra ancoragem em contextos histórico-sociais (da
experiência e da estrutura), a não ser nos das abordagens simbólicas e
formações discursivas historicamente variáveis, em que ‘natureza’ ou sociedade
são pensadas, descobertas ou mudadas. Mas a análise das relações de género
marcadas com especificidade histórica e em mudança pressupõe a focagem do
contexto social estrutural” (Gransee, 1999, p. 41).
Bönold agora
faz o seguinte: Ele afirma bem pós-modernamente a construção incondicional do
género [Geschlecht], mas pretende por outro lado saber que foram fornecidas por
mim evidências sócio-históricas que apoiam a minha tese de dissociação-valor.
Bönold baralha-se aqui nos diferentes planos. Ele mistura sem rodeios
considerações da teoria da cultura e da teoria social, sem se preocupar com os
problemas “metodológicos” daí resultantes. Depois faz uma coisa de que me acusa
sempre, como mestre picuinhas supostamente científico da diferenciação (Bönold,
2008 a). Mas, como esclarece Gransee, é algo completamente diferente se eu no
fundamental argumento (des)construtivistamente e no plano da teoria da cultura,
ou se o faço no plano da teoria social. Ambas as perspectivas estão
interligadas, o que exige uma justificação mediadora. E uma mediação
bem-sucedida é a meu ver a que se pode encontrar em Holland-Cunz (a quem tenho
feito referência em diversas publicações), quando sugere um entrelaçamento
dialéctico entre sexo e género: “Considero (...) a categoria marginalizada
‘sexo (...) uma possibilidade categorial essencial para reimplementar e
reintegrar (...) o material, o corpo, a sua finitude temporal e espacial, a sua
lógica e modo de funcionamento definida de forma não exclusivamente social, o
seu contexto de mediação com a natureza não humana, a sua identidade e
não-identidade com a ‘naturalidade’ extra-humana. Se o ‘sexo’ fosse
concepcionalizado de modo não-ontologizante, talvez com base nesse conceito se
pudesse criar um acesso a uma mediação analítica, não-analogizante entre
relação natural e relação de género. (...) Em ligação com Jaggar e Grimshaw
gostaria de (...) sugerir o ‘sexo’ não como campo de sedimentação biologista
para naturalizações, mas como conceito a re-estabelecer dialecticamente mediado
com o género: o sujeito social torna-se pensável na corporalidade humana
historicamente adquirida; em que a participação ‘do’ humano na natureza e na
sociedade teria sido possibilitada; como contrapeso contra um conceito
exclusivamente construtivista de 'género', como lugar de teorização não 'da
natureza’, mas da relação dos indivíduos com a natureza, tal como consigo
próprios” (Holland-Cunz, 1993, p. 206 e 208).
Neste ponto
se vê que eu com a referência a Holland-Cunz não parto desajeitada e
dualistamente dos factos biológicos que “depois” são culturalmente moldados e
“valorizados”. A problemática natureza-cultura ou sexo-género poderia e deveria
certamente também ser explorada com mais detalhe numa tematização basilar
separada. Mas não era esse o meu tema. Eu estava preocupada em primeiro lugar
com a constituição da relação de género no contexto capitalista, ou seja, no
contexto de sua constituição estrutural fundamental e, portanto, com o segundo
plano mencionado por Gransee, que ela designa sumariamente contexto social
estrutural, por contraposição à orientação abstracta para a colocação do
problema no plano da teoria da cultura. Esta estrutura (fundamental) é fundamentalmente
diferente das condições pré-modernas. E para mim tratava-se desta nova
qualidade. Minha teoria da dissociação e do valor é essencialmente de natureza
estrutural-conceptual; na medida em que, naturalmente, também queira e tenha de
recorrer aos conhecimentos históricos, ela não pode simplesmente ficar de modo
idealista numa totalidade abstracta, pelo contrário, para ela com Lukács a
“totalidade da empiria” constitui uma preocupação.
Nessa medida
também é absurdo supor que os géneros teriam de ser primeiro construídos para
depois serem instrumentalizados pelo capitalismo, como por vezes já me foi
objectado. Neste caso, de resto, vão na tradição da antropologia filosófica os
próprios esquemas feministas que se concentram na vida quotidiana na “produção”
do género em interacção e os quais Bönold invoca completamente na linha, entre
outros, de Helmut Plessner de “ser corpo e ter corpo” (cf. Gildemeister, 1992,
p. 226). Em última instância, eles também não conseguem evitar uma dialéctica
sexo-género. Do mesmo modo houve na década de 1990 um amplo debate em que
muitos teóricos e teóricas se pronunciaram contra uma construção total do
“sexo”. Sobre tais trabalhos por maioria de razão Bönold não diz uma palavra.
Por trás da
falsa acusação que igualmente se faz ouvir contra a teoria da dissociação e do
valor, de que esta operaria com uma ontologia biologista do sensual e do
feminino, estão implicitamente concepções diferentes de “sexo” do lado da
recepção por Bönold do desconstrutivismo e do lado da teoria do valor
universalista nos termos do antigo marxismo de Natasha Wilting. Bönold
favoreceu a este respeito aquele construtivismo total que faz desaparecer
completamente o sexo no género. Wilting, por sua vez, apenas gostaria de salvar
a pureza do valor da relação de género em geral. Mas, na medida em que ela
atribui a respectiva assimetria a um “resíduo arcaico”, que nada teria a ver
com o capitalismo, por trás de sua crítica da teoria da dissociação e do valor
está a hipótese de que se trataria basicamente de um pedaço da natureza
imutável, que entra no capitalismo como que de fora para dentro (Assim mais ou
menos também em Schatz 2005, p. 21 sg.; para a crítica, ver Rentschler, 2006).
Também esta posição não consegue fazer nada com a dialéctica sexo-género nem
com a constituição específica da relação de género no patriarcado produtor de
mercadorias. Assim ocorre uma naturalização do género, sendo perpetuada a
correspondente estrutura de dissociação-valor.
É claro que
a moderna relação de género não caiu do céu, mas tem a sua pré-história, como
quer que seja considerada; a dimensão histórica, no entanto, não deve ser
confundida com uma base natural isolável, pelo contrário, a dialéctica
natureza-cultura, ou sexo-género, apresenta-se de forma diferente nas diversas
formações históricas e tem um cunho inteiramente próprio e diferente no
patriarcado produtor de mercadorias. Não admira que muitas vezes sejam
precisamente naturalistas disfarçadas, como Wilting, que por outro lado
constatam simultaneamente que o capitalismo, com seu princípio da igualdade,
provoca necessariamente uma aproximação dos sexos (analogamente, contra a
teoria da dissociação e do valor: Willutzki, 1995). Mesmo assim virada, a
relação de género assimétrica já não desempenha qualquer papel. Homem e mulher
parecem então absorvidos numa tendência de individualização supostamente neutra
quanto ao género, devendo as funções por princípio ser intercambiáveis, mesmo
no que respeita às actividades na esfera da reprodução (tempo de parentalidade
também do homem etc.); tal e qual como se se pudesse prosseguir a análise
social “(escondendo) aí simplesmente um princípio central de diferenciação, de
estruturação, de estratificação e de dominação”. Ao que se deve contrapor: “As
relações de género entraram historicamente como constituintes na formação da
cultura e da sociedade modernas e também foram transmitidas em sua figura
actual através desta formação. A forma historicamente específica de umas não
pode ser compreendida sem a da outra” (Knapp/Wetterer, 2001a, p. 9).
Assim, se a
falsa acusação de que a teoria da dissociação e do valor iria pedir ajuda a uma
“sensualidade do feminino” ontologicamente biológica está em Bönold ligada a
uma recepção não assumida do construtivismo total, a mesma acusação em Wilting
está associada não só ao universalismo do valor, mas também a um momento de
naturalização do género, que no entanto não deve afectar a igualdade abstracta
(no fundo da esfera da circulação) e deve ser reservada para determinadas
necessidades vitais positivas (como a sexualidade). Vai um passo mais além uma
ideologização do “sexo” que pretende tornar este decididamente positivo com
argumentos simplesmente supostos ontologicamente biologistas. Só posso rejeitar
vigorosamente esta visão reificadamente positiva de “sensualidade”, que
ocasionalmente também me é imputada, como dado a-histórico e aparentemente
“autêntico”, em que então as mulheres seriam melhores seres humanos, porque
mais próximas da “natureza” e “com isso” da vida vivente.
Como já
acima na discussão sobre a positivação sociológica da dissociação como esfera
separada do “bom” ontológico, por maioria de razão se torna evidente na
correspondente biologização que o que está aqui em acção são fantasias masculinas
usurpadoras. A “sensualidade” dissociada em diferentes níveis da reprodução
deve ser entendida como já sempre historicamente devinda; ela, em sua
preparação específica, não é de modo nenhum melhor do que o lado
instrumentalmente orientado do valor abstracto, de que ela constitui
simplesmente o contrapolo imanente, em entrelaçamento dialéctico. Isto também
significa que as ideias da feminilidade de algum modo embelezadas não servem de
matriz utópica, como muito gostariam certas utopias rigidamente patriarcais
(ver Thürmer-Rohr, 1987).
E, tal como
no caso da inversão positivadora do conceito de dissociação reduzida
sociologicamente à “separação de esferas”, o mesmo se passa com os
representantes masculinos de uma crítica do valor redutora que pretendem deitar
a unha a uma teoria da dissociação por eles deformada. Na senda da viragem para
uma metafísica fenomenológica do quotidiano ocorre a celebração de uma nebulosa
sensualidade, da vida, da “carne” etc., que devem manter resistências prontas
para além do “valor”. Pelo mesmo diapasão afina, por exemplo, o autor vienense
Franz Schandl, em grande parte já mutante duma crítica do valor redutora para
uma ideologia de filosofia da vida. Precisamente na mesma edição da Streifzüge
em que Bönold se permitiu apresentar a sua crítica desconstrutivista à
sensualidade ontológica feminina supostamente afirmada pela teoria da
dissociação e do valor, Schandl expressa-se contra o monstro do pensamento
intelectual: “O pensador como pensador só é simpático à distância. A sua
certeza é um espantalho, é contagiosa, mas em última análise não convence.
Quanto mais perto se lhe chega, mais ela perde o brilho. O teórico é masculino,
mesmo que seja do sexo feminino. Isso tem menos a ver com a exclusão das
mulheres do pensamento do que com o facto de os homens, diferentemente das
mulheres, serem realmente instados a afastar-se da sensualidade. O sensual
aqui, naturalmente, não pode ser considerado como o não deteriorado, ou o bom,
mas apenas como agente de contraste” (Schandl, 2008; sobre isso, já similar,
Lohoff, 2006). Recentemente, esta visão culminou em novos artigos com títulos
como Sem teoria crítica sabe melhor! (Scheuringer, 2009), e temo que não
se trate de uma paródia. Portanto, está aqui em questão de facto uma “sensualidade”
ontológica, que se revela agora ao pensador masculino do quotidiano tornado
inimigo dos intelectuais, em sua existência precária; porém, essa
“sensualidade”, já sempre considerada com conotação feminina, é apenas um
“agente de contraste”, e as intelectuais do sexo feminino, no fundo, são ainda
muito piores do que o “original masculino”. Não é preciso dizer mais nada.
Dissociação-valor
e heterossexualidade compulsiva
Bönold
acusa-me ainda de abordar a heterossexualidade compulsiva apenas de passagem.
Este é certamente o caso. O meu tema, naturalmente, era a relação de
dissociação-valor. Sem o conhecimento teórico desta em toda a sua complexidade,
que de facto tem de aguardar ainda o seu desenvolvimento, também não pode haver
uma crítica adequada da heterossexualidade compulsiva, da homofobia, etc.
Entretanto a teoria queer, a este respeito invocada implicitamente por
Bönold, torna tudo muito simples. Na minha opinião, nas últimas décadas
desenvolveu-se uma certa problematização da heterossexualidade normativa
efectivamente conforme aos imperativos capitalistas de identidade flexível.
Assim, já o
Foucault tardio, nas suas lições sobre “governamentalidade” (e isso quase não é
referido na argumentação queer, como mostra Tove Soiland) soube observar
criticamente que “... o que surge no horizonte (...), não é o ideal ou o
projecto de uma sociedade disciplinar exaustiva em que a rede de leis
envolvendo os indivíduos de, digamos assim, mecanismos normativos seria
continuada e prolongada. Não existe sociedade em que não seja necessário um
mecanismo de normalização geral e de exclusão dos não normalizáveis. Pelo
contrário, temos neste horizonte a imagem, a ideia ou o tema programático de
uma sociedade em que haveria uma optimização dos sistemas de diferenças, em que
se admitiria espaço livre para processos de mudança, em que haveria tolerância
para admitir os indivíduos e as práticas das minorias” (Foucault, citado por
Soiland, 2008, p. 73).
As teorias e
as estratégias queer, que tiveram uma difusão inflacionária desde a
década de 1990, nesse sentido me parece possuírem um carácter mais ideológico;
na melhor das hipóteses apanham apenas superficialmente as relações
heterossexuais compulsivas. A alegria nos shows de travestis e no movimento queer
na minha opinião tem pouco a ver com gays, travestis e transexuais, que afinal
continuam a ser discriminados, mas tem muito a ver com uma reprodução de
estilos de vida da cultura heterossexual dominante, com tendências de
individualização etc. numa determinada fase da era de consumo pós-fordista após
a “sociedade de classe média nivelada” (Helmut Schelsky) no pós-guerra (ver
Scholz, 2008). Desde que nos últimos anos as (novas) classes médias ficaram
cada vez mais com a corda na garganta, crescem os ressentimentos não apenas
racistas, anti-semitas e anticiganistas, mas também contra os chamados
elementos anti-sociais e não em último lugar contra gays e lésbicas, em
paralelo com um simultâneo enfraquecimento ou mesmo negação do antigo
entendimento do sexo; e é de temer que essas tendências se venham a
intensificar ainda mais, na senda do colapso da modernização que agora se
revela na sequência da crise fundamental do mercado financeiro.
A minha
efectiva crítica do desconstrutivismo e das estratégias queer, portanto,
é que eles ignoram completamente estruturas sociais objectivas e dimensões
psíquicas profundas e são simplesmente superficiais. Quem está realmente
interessado na resolução de identidades compulsivas deveria pôr os olhos na sua
persistência teimosa mesmo na mudança pós-moderna. O problema da identidade não
se pode simplesmente mandar pelo cano abaixo na casa de banho à maneira
desconstrutivista, como se vê por exemplo nos massacres masculinos, cuja
fundamentação a partir da construção da masculinidade e da feminilidade é
simplesmente insuficiente (mesmo assumindo a dimensão da institucionalização na
ênfase dos rituais, ou seja, a célebre performatividade de má fama). Aqui já
são exigidas explicações mais complexas. A ilusão desconstrutivista ainda pode
vir a ficar cara às posições críticas da identidade.
Importa
também considerar que a heterossexualidade e a homossexualidade como
identidades são igualmente produtos da modernidade. Dado que a
heterossexualidade funciona como norma, estabelecida com a estrutura basilar de
dissociação e valor como princípio social e com a diferenciação nas esferas da
produção e da reprodução, surgem certas necessidades do sujeito. Portanto,
falando livremente, são necessariamente usadas sexualidades “desviantes” enquanto
“diferentes”. É importante lembrar, como Foucault assume, que o poder não é
apenas repressivo, mas também é produtivo. Apenas na modernidade, portanto, se
constituem também tais sexualidades “desviantes”; para falar sobre isto pelo
menos por alto, pois debrucei-me sobre o assunto no meu “livro sobre o género”.
Portanto, esses desvios contribuem tão pouco para a transcendência social, seja
no que respeita às condições passadas ou às presentes, como por exemplo
desafiar a construção positiva da feminilidade na sociedade androcêntrica. O queer
está sempre aqui – de certo modo. Isso já era válido nos tempos anteriores à
pós-modernidade e ainda hoje o é por maioria de razão. A “queerness” não
tem hoje nada para contrapor ao novo ressentimento contra gays, lésbicas etc. e
não apenas teoricamente.
Certamente
que não há nada a opor se Bönold pretende mobilizar as diferenças históricas no
interior da história do capitalismo no que diz respeito a orientações
homofóbicas; no entanto, se é preciso constatar, por exemplo, que as
correspondentes construções apenas no século XIX são “realmente” comprováveis,
isso ainda assim não altera nada a constituição fundamental hetero-normativa da
modernidade em sentido sexual. Mas uma tal exigência refere-se a um plano diferente
da fundamentação categorial da teoria da dissociação e do valor e só a sua
comprovação em estruturas sociais reais, relações e normas com absoluta
“cobertura empírica” é que fazem as sexualidades “desviantes” como tais.
Aqui se
torna novamente claro o que a crítica de Bönold à teoria da dissociação e do
valor fundamentalmente assinala: ele confundiu a crítica da lógica da
identidade com a afirmação de um positivismo tosco e com o patrocínio do
pensamento factual, com isso falhando no fundamental precisamente a realidade
social. Imagens tradicionais de género sobrevivem hoje precisamente na “Queer
Politics”; elas são preservadas justamente na tentativa anacrónica de
torná-las ridículas. O sexualmente desviante torna-se um acessório de moda de
forma meramente superficial e habitual, incapaz de apreender minimamente a
verdadeira base do seu desprezo; bem no pulso de uma ilusória realidade da
diferença positivistamente percebida, cujo ser-assim também deve ser
justificado e legitimado através de uma matriz cultural pós-moderna.
Dissociação-valor
e crítica da economia política
O conceito
de dissociação-valor reivindica descrever o plano de abstracção do princípio
social fundamental, indo assim além do marxismo. Nessa medida trata-se também,
naturalmente, de uma referência aos conceitos básicos da crítica da economia
política. Certamente que ainda tem de se verificar com cuidado em que relação
devem ser vistas as categorias e novos desenvolvimentos em O Capital
perante o pano de fundo da teoria da dissociação e do valor. O que terá de ser
investigado em detalhe. Por outro lado, pode mesmo assim supor-se que as
definições conceptuais originárias essenciais da relação de capital como
“valorização do valor” poderiam consistir na lógica de exposição em sua estrutura
imanente e não teriam necessariamente de ser a cada passo “artificialmente”
expandidas para a dimensão da dissociação. Na teoria da dissociação e do valor
estas determinações já estão sempre incluídas. Portanto, se por exemplo se fala
de “capital fictício” em sentido estritamente económico, nem sempre será
necessário anexar o conceito de dissociação externa e “automaticamente”; isso
resultará de determinados aspectos dessa mesma coisa particular.
A situação é
diferente, no entanto, se pretensões patriarcais megalómanas são incluídas num
plano fundamental; e com isso pretensões androcêntricas de omnipotência que já
são sempre necessariamente inerentes ao processo social (não só económico). O
que também não é independente do facto de as mulheres se encontrarem
estatisticamente menos que os homens em domínios públicos, como na esfera
financeira entre outras, ao contrário de actividades como por exemplo no
domínio da assistência. Pelo menos isso é verdade enquanto as respectivas
esferas de influência não forem ameaçadas pela queda. A crítica da dissociação
e do valor também já está sempre localizada num plano mais abrangente e mais
fundamental, na medida em que não foi simplesmente deslocada, mas desde o
início atravessa todos os domínios da sociedade. Em princípio e em pontos
cruciais em Marx, no entanto, isso deveria ser identificado e corrigido. Mas
para fazer isso é desde logo necessário fazer valer a dissociação-valor como
forma fundamental abrangente, ainda antes de se empreenderem todas as voltas e
reviravoltas analíticas em O Capital.
Em síntese:
A dissociação-valor abrange as relações sociais como um todo. Aqui é preciso
desde logo constatar que o trabalho doméstico não cria valor; trata-se de um
equívoco fundamental que hoje está de novo repetidamente em discussão, como se
nos famosos debates sobre o trabalho doméstico dos anos 1970 aos anos 1990 não
tivessem surgido argumentos contrários decisivos. Só o trabalho produtivo de
capital cria valor, de acordo com Marx. Alegar-se que o trabalho doméstico
também poderia fazê-lo é chegar a uma confusão equivocada dos planos de
abstracção e das referências de objecto, como já Ursula Beer sabe, a partir do
ponto de vista do antigo marxismo (Beer, 1990, p. 48). A relação hierárquica de
género tem de ser então a todo o custo redutoramente exposta como dimensão
económica imediata. O dissociado no fundo não é dissociado, mas directamente
parte do contexto funcional dominante. É escamoteada a dialéctica da
dissociação e do valor, a dissociação é privada da sua qualidade própria e é
novamente concebida sob o valor na lógica da subsunção e da identidade, o que
além disso já pressupõe em regra um entendimento positivo e afirmativo da forma
do valor. Aqui estaríamos nós de volta ao ponto de partida das nossas
observações. Mais uma vez a relação de género seria privada do seu carácter de
generalidade, como algo “meramente” particular. Note-se de passagem que assim
também se privilegiaria um entendimento economicista da totalidade, permitindo considerar
a cultura, a psicologia social etc. como mera “superstrutura” derivada.
Na teoria da
dissociação e do valor as mulheres são tão pouco idênticas à “dissociação” como
os trabalhadores assalariados são idênticos ao fetichismo da mercadoria. No entanto,
existe uma relação, que Marx explica em O Capital como desenvolvimento
concreto, relativamente ao trabalho assalariado e à relação de fetiche; e o
mesmo se aplica, indo mais além, também à dissociação-valor como princípio
social fundamental e aos indivíduos sexualizados. Bönold não percebeu nada do
meu recurso às determinações analíticas de duas lógicas de tempo em Frigga
Haug: a lógica de esbanjar tempo no domínio da reprodução e a lógica de poupar
tempo no domínio da produção (Haug, 1996). Embora estas estruturas sejam
perfeitamente «perceptíveis» na vida prática, em que a lógica de esbanjar
tempo, como no trato com crianças, tem o seu próprio potencial de stress. No
entanto, estas duas lógicas de tempo conflituantes não constituem uma
determinação que situe o valor e a dissociação apenas à superfície dos
fenómenos. Pelo contrário, no caso da lógica de poupar tempo, trata-se daquela
notoriamente infame “lógica de exploração da economia empresarial” (Robert
Kurz), do tempo abstracto do trabalho abstracto, enquanto a lógica de esbanjar
tempo se refere aos momentos dissociados do “trabalho de relacionamento” e do
“trabalho de amor” sociais e às funções psicossociais de mediação e de
amortecedor social, em ambos os casos historicamente delegados nas mulheres e
que não é possível dissolver no tempo linear do trabalho abstracto com
objectivos racionais.
Moishe
Postone faz valer também uma outra forma de tempo, o tempo processual histórico
do desenvolvimento das forças produtivas e da dinâmica capitalista, em que se
expressa indirectamente o tempo abstracto da economia empresarial e que
constitui uma historicidade interna do capitalismo. Não posso aqui entrar em
mais detalhes. O que importa, no entanto, sendo isso uma lacuna real do meu
livro sobre o género, é que ambas as formas de tempo por Haug designadas
“estruturais” mais o tempo processual histórico no sentido de Postone deveriam
ter sido teoricamente relacionados e desenvolvidos em seu entrelaçamento. Mas
Bönold está longe de reconhecer todo este contexto do problema. Em vez disso
ele apenas tem em conta que também as actividades no domínio da reprodução
exigiriam auto-disciplina e que alguns dias de trabalho teriam de ser abatidos
na economia empresarial com a interrupção do tempo linear abstracto (Bönold,
2008 a). O que é invocado com toda a seriedade contra considerações estruturais
com respeito a lógicas de tempo diferentes. O Manifesto contra o trabalho
(Gruppe Krisis, 1999) ter-se-ia visto obrigado a ter em conta
incondicionalmente este aspecto! Porque em ambas as lógicas temporais parecem
emergir momentos do pólo contrário, elas deveriam ser de qualquer modo iguais
ao litro e fundidas na lógica da identidade.
Mas, em
primeiro lugar, Bönold não vê que o momento de auto-disciplina na lógica de esbanjar
tempo é algo qualitativamente diferente do tempo linear do trabalho abstracto;
e isso também se aplica às interrupções e ao “rodar em falso” que se apresentam
de forma diferente nas duas lógicas de tempo mencionadas por Haug. Em segundo
lugar, é preciso constatar de facto alguma sobreposição das duas lógicas de
tempo especificamente no desenvolvimento pós-fordista (o que para Bönold não é
historicamente específico, mas surge como identidade estrutural). É assim que,
por um lado, se faz valer a lógica de poupar tempo da economia empresarial
também no chamado domínio da reprodução, por exemplo, na medida em que as
famílias devem ser administradas como empresas e “a criança” é tratada como um
“projecto” com objectivos racionais de acordo com as correspondentes
“instruções de uso”. Por outro lado, surgem inversamente na economia
empresarial momentos da lógica de esbanjar tempo que a bem ou a mal devem ser
tornados funcionais para o tempo linear abstracto (“gestão da qualidade”,
“competência emocional” etc., até chegar à prescrição de “tempos de meditação”
e interrupções quase terapêuticas para melhorar o desempenho e produzir
“aceitação” através de atitudes auto-repressivas). O que era exigido à
socialização feminina na esfera do trabalho abstracto e do domínio público, de
facto já para além do verdadeiro domínio da reprodução, porque a dissociação
atravessa mesmo todas as esferas, é agora deliberadamente instrumentalizado nos
esquemas de gestão. Mas mesmo nesta duplicação e entrosamento as duas lógicas
de tempo permanecem contraditórias e não são simplesmente intercambiáveis;
apenas nascem novos atritos em ambos os planos. De certo modo, a tentativa de
por assim dizer reverter as duas lógicas de tempo e de as inserir
instrumentalmente cada uma no pólo oposto já constitui por si só um fenómeno de
crise da sociedade da dissociação e do valor.
Por isso as
duas lógicas temporais contraditórias também não são niveladas nem porventura
dissolvidas na identidade do valor, mas a sua diferença mantém-se, constituindo
precisamente o pressuposto para a tentativa da sua instrumentalização pela
administração de crise a todos os níveis. Relativamente à sua definição
fundamental é importante lembrar que qualquer elaboração teórica não avança em
geral sem o elemento de “exagero” (Adorno), por muito empiricamente saturada
que possa estar, como é o caso da teoria da dissociação e do valor, por
exemplo, com a referência a estudos empíricos sobre a “dupla socialização das
mulheres” por Becker-Schmidt entre outros, como já mostrei. É o que escreve
Cornelia Klinger: “Ainda que ao todo, à totalidade, à presença absoluta não
pertença nada de empiricamente recuperável, nada da existência real, é
precisamente por causa do lançar de pontes sobre as rupturas e buracos que a
totalização do irredutivelmente parcial permanece uma tarefa necessária do
pensamento. Sem estender um arco de generalizações sobre as profundezas da
realidade (...), sem o elemento de especulação que não é coberto pela
'realidade' nem com ela poderá ser completamente tornado cobertura, não seria
possível uma orientação no pensar e no agir” (Klinger, 1998, p. 249). Isto
também se aplica à definição abstracta de lógicas de tempo diferentes, cujo
emaranhamento e confusão na empiria histórica não podem ser jogados contra o seu
próprio conceito. Pressupõe-se aqui, no entanto, um entendimento da “realidade”
não coincidente com resultados parciais empíricos; tal como a oposição entre a
lógica de poupar tempo e a lógica de esbanjar tempo se fazem valer tão
completamente na prática quotidiana, o mesmo se passa com a sua penetração
recíproca no processo de crise.
Esta relação
também se faz notar relativamente ao consumo de mercadorias no plano dos bens
de consumo (em oposição ao consumo de meios de produção directamente produtivo
de capital no processo de formação de valor). Mesmo não podendo a dissociação
sexual ser reduzida à esfera privada da reprodução, o específico “consumo
produtivo” nesta esfera, que cai fora da relação de valor, desempenha um papel
como momento constitutivo do valor da mercadoria força de trabalho, estando
nessa medida entrelaçado com a relação de valor. Por isso o valor da força de
trabalho é produzido não somente através dos bens de consumo capitalistamente
fabricados necessários à sua reprodução, mas também através da preparação
destes bens e das actividades conexas conotadas como femininas na dissociação,
incluindo os momentos não materiais, sendo que esta esfera do “trabalho de
consumo”, como aspecto da dissociação e do valor, tem em Marx uma importância
significativamente apenas secundária (cf. Kurz, 1992). Ela é mencionada, mas
não realmente considerada e a sua relevância para a reprodução geral não é tida
em conta. Como é sabido, há muito tempo que este aspecto tem sido tematizado
pelo feminismo no plano fenomenológico, sem referência à dissociação-valor como
princípio fundamental. Estas actividades, enquanto dissociadas, não constituem
valor, mas são, como a dissociação, pressuposto do valor em geral.
Bönold pensa
agora também aqui poder subsumir a dissociação ao valor, na medida em que traz
a terreiro o consumo como campo de valorização próprio (“indústria do lazer”) e
se refere a uma “atribuição de sentido ao consumo e à indústria da cultura”
(Bönold, 2008 a). Mas ele aqui está mais uma vez a jogar fenómenos empíricos
contra a determinação fundamental, apesar de uma coisa não poder ser pensada
sem a outra. Pois somente com base na dissociação-valor em processamento
histórico se pode conseguir no capitalismo avançado aquela “atribuição de
sentido” socialmente mais abrangente, transformando uma parte do “trabalho de
consumo” num campo de valorização próprio da economia empresarial. A relação de
dissociação-valor é aqui modificada, mas não dissolvida, permanecendo pelo
contrário como pressuposto, precisamente nas suas modificações e distorções.
Não admira
que Bönold também separe da dissociação o tempo processual histórico do capital
(sem referência a Postone e, portanto, sem entender o assunto), na medida em
que atribui unidimensionalmente o desenvolvimento das forças produtivas ao
valor. Ele permite-se perguntar: “Então não provém toda a dinâmica histórica do
valor?” (Bönold, 2008 b). É sempre o mesmo problema: se o valor só existe por
meio da dissociação, como pode então toda a dinâmica histórica provir apenas do
valor? Especificamente no que respeita ao desenvolvimento das forças
produtivas, por exemplo Elvira Scheich evidenciou muito bem que as ciências
naturais na história se baseiam essencialmente na repressão do feminino
(Scheich, 1993); e Frigga Haug tem o mérito de ter definido as relações de
género como relações de produção (Haug, 1996). O facto de se tratar aqui de um
contexto historicamente mediado não altera nada na determinação fundamental. A
unidade negativa entre desenvolvimento das forças produtivas e desenvolvimento
das forças destrutivas da modernidade, quer relativamente ao potencial de
destruição ambiental e de técnica bélica, quer também na tendência
sócio-economicamente auto-destrutiva do capital baseia-se, pois, não apenas na
dinâmica do valor, mas também na dissociação a ele associada desde o início.
Diferentes
níveis de análise e pensamento positivista
Não é
somente o problema da dinâmica histórica que leva mais uma vez de regresso às
questões epistémicas, em termos dos diversos planos teóricos e analíticos.
Fundamentalmente já se mostrou que Bönold se move totalmente no âmbito desse
corpus teórico sistémico fechado de que fala Ursula Beer e só reconhece a
validade dos seus princípios, ao carregar essa lógica para a estrutura da
relação de género, assim negando o conceito de dissociação como conceito de
totalidade e afirmando que apenas determinadas actividades das mulheres e
processos de socialização típicos de género devem ser susceptíveis de reconhecimento,
e somente na medida em que se relacionam com o mercado e com o Estado. Que um
pensamento filosófico-especulativo, como o que a crítica da dissociação e do
valor reivindica para si, é para Bönold um livro fechado a sete chaves e que
ele está vinculado a um ponto de vista positivista é o que se torna também
evidente no facto de ele contrapor superficialmente o “método” ao conteúdo. Em
vez disso, para um procedimento de dialéctica negativa, trata-se de
inspeccionar o objecto particular, a “coisa em si”, sem a subsumir
violentamente aos conceitos metodológicos gerais. Neste contexto, a sustentação
de contradições e ambivalências é o eixo de tal procedimento, que até tem as
aporias reais quase como base indispensável – mas de modo nenhum no sentido pós-moderno,
como renúncia a um conceito da essência social e, portanto, a um entendimento
crítico da totalidade. Contudo este conceito da essência e da totalidade não
pode surgir positivamente em sentido hegeliano, como uma reprodução do
“conhecimento absoluto”, mas apenas negativamente, como uma crítica da
totalidade fraccionada, que acede à particularidade dos objectos e dos domínios
numa abordagem não-universalista, sem ocultar a sua conexão interna. Crítica da
totalidade negativa também significa, assim, que na elaboração teórica apenas
pode ocorrer uma aproximação à “totalidade da empiria”, pois a pretensão da sua
reprodução absoluta só a reproduziria em sua negatividade.
Bönold
reclama agora, supondo ter encontrado em mim diversos níveis de análise e de
teoria, que eu deveria fazer uma fundamentação “metodológica” destes níveis no
objecto, em vez de me limitar a afirmar a sua existência e a fornecer uma
fundamentação puramente de conteúdo. Ele critica que falte “a relação entre
sistematização e formulação dos planos no objecto” (Bönold, 2008 b). De algum
modo ele registou que no meu caso se trata do objecto “metodologicamente”, com
recurso a Adorno. Ora, para Adorno, excluem-se precisamente o objecto
particular, de que ele pretende aproximar-se com um pensamento em constelação,
e uma fundamentação metodológica abstracta no objecto, porque a singularidade
da coisa com isto se afundaria de novo inevitavelmente numa fundamentação
universalista. Assim constata também Jay que em Adorno “não (há) qualquer meio
puramente metodológico contra a fragmentação do conhecimento que se exprime no
caos de disciplinas individuais concorrentes. O objectivo de um projecto
interdisciplinar plenamente integrado é, portanto, (...) inatingível. A
filosofia deveria dar-se por satisfeita com a forma de ensaio e fugir à
tentação de ser sistemática. A capacidade de assumir um conhecimento da
totalidade significaria voltar a cair no mito de uma subjectividade
transcendental” (Jay, 1982, p. 76).
Ensaio aqui,
de resto, não significa simplesmente uma escrita jornalística, nem tão pouco um
artesanato associativo do conceito – que, fazendo bluff, salta de pé ligeiro
por cima de todo o conhecimento de difícil aquisição, na medida em que ignora
em grande parte o conhecimento material, cuja profunda dominação apesar disso
sugere, pavoneando-se – mas sim uma escrita “entretecida” (Adorno, 1966, p.
44), que apenas exprime uma imagem na consciência através do desenvolvimento
concreto; por assim dizer, de certo modo justificado em si mesmo, e que só na
aparência vive de meras afirmações. Portanto, também só dificilmente se lhe
podem arrancar clichés.
Mas é
precisamente neste sentido que Bönold pede agora a formulação e “mediação” dos
níveis diferentes enquanto “sistematização”: “Parece-me também uma contradição
lógica quando Scholz, por um lado, no plano discursivo, se refere a estudos
como os de Laqueur (1992), que argumentam com Foucault; por outro lado, no
plano da psicologia social, refere-se à psicanálise, na figura da teoria da
relação com os objectos de Chodorow. As duas abordagens excluem-se, por exemplo
relativamente à ideia de sujeito” (Bönold, 2008 b). O facto de a crítica da
dissociação e do valor não poder ser transformada em chapeleira de forma fácil
e prática ao quadrado é no entanto o seu princípio mais íntimo! A referência a
posições opostas não é simplesmente alinhavada de repente, mas sim integrada
criticamente no processo da própria elaboração teórica posicionada de forma
completamente diferente, sendo que as diferenças analíticas referem-se às
contradições internas da própria coisa.
As objecções
de Bönold mantêm-se agarradas a um ponto de vista positivista do método
“sistematizador” meramente abstracto, que sempre foi fortemente questionado
pelo pensamento da dialéctica negativa (palavra-chave: polémica sobre o
positivismo, Adorno e outros, 1972). Porque Bönold na sua confusa crítica me
imputa agora uma abordagem aditiva, ele assume que para mim os planos seriam
multiplicáveis verdadeiramente à vontade. Porquê apenas três e não cinco ou
mais? – pergunta ele (Bönold, 2008 b). Também esta pergunta corresponde a um
entendimento da teoria reificado e reduzido à razão formal, precisamente o que
a crítica da dissociação e do valor tem especialmente em mira. Em vez disso,
esta procura apenas acercar-se do objecto através de um pensamento em
constelação no sentido de Adorno, mas mais desenvolvido pela dimensão da
crítica da dissociação; e na verdade como estrutura fundamental, por um lado, e
como realidade esfarrapada, por outro, na medida em que diferentes conceitos e
teorias (como os planos material, dos símbolos culturais e da psicologia
social) são agrupados em torno da área temática da dissociação e do valor. A
história e a economia fornecem-lhe igualmente pressupostos constituintes de
fundo.
Aqui o
“como” da produção das relações de género não pode ser respondido simplesmente
no plano da interacção, mas sim no contexto de um desenvolvimento da análise
conceptual da totalidade histórica concreta, na sua natureza quebrada e fragmentária,
que vai muito para além de uma interacção simbolicamente mediada, ainda que
esta também se possa aqui encontrar. Enquanto os construtivismos da teoria do
discurso podem servir de instância intermediária entre o nível macro da
dissociação-valor e os indivíduos sociais, as abordagens interaccionistas,
contudo, hipostasiam à partida o plano da acção, razão pela qual os esboços da
teoria do discurso também são objecto de mais atenção da minha parte. No
entanto eu não nego que também do lado interaccionista possa haver
contribuições parcialmente valiosas. Por exemplo, no que diz respeito à
“reconfiguração da diferença” na mudança de género das profissões ao longo da
história até hoje (Gildemeister/Wetterer, 1992, p. 222 sg.). Mas perante estes
resultados o mais importante é saber qual o fundo social que desde logo tornou
possíveis tais mobilidades de codificação. Assim, mesmo investigadoras
feministas das profissões que se assumem vinculadas a um fundo interaccionista,
como Angelika Wetterer, não podem deixar de notar: “A persistência da diferença
de género está altamente dependente das respectivas condições de contexto e a
reprodução de diferenciações de género consuma-se em grande medida num plano
interactivo. Tem lugar lá, no entanto não consciente e deliberadamente (...),
mas sim muito mais de forma encoberta e de uma maneira que evita e contraria a
norma da igualdade discursivamente carregada (...) Elas (as pesquisas recentes,
R. S.) na sua grande maioria fazem notar que as formas latentes e incorporadas
de conhecimento do género, que se tornam importantes no plano da interacção, se
adaptam automaticamente, assim continuando a ser tão naturais num nível
pré-reflexivo em muitas áreas profissionais” (Wetterer, 2007, p. 201 sg.). E
continua: “(Também) os arranjos na aparência sexualmente neutros, que
contribuem de forma encoberta para reproduzir as distinções de género e as
hierarquias tradicionais, recebem o seu potencial de formação de estrutura não
do campo profissional sozinho, mas a partir da ligação contraditória entre o
domínio profissional e o domínio da reprodução privada, e da persistente
equação tanto virtual como real segundo a qual trabalho reprodutivo é igual a
trabalho de mulheres” (Wetterer, 2007, p. 204).
Duvido,
portanto, que as abordagens interaccionistas do doing gender tenham
contribuído (pelo menos em dimensões-chave) para a percepção do essencial da
relação de género; pois as observações de Wetterer mostram que elas têm de
recorrer a fundamentações “não interaccionistas” (separação das esferas da
produção e da reprodução) para explicar o que acontece no plano da interacção.
Neste contexto, portanto, também é problemático que Bönold aposte em ideias de
configuração de guiões, de profecia auto-realizável etc., ou seja, que ele
pretenda, no que diz respeito à dimensão social e psicológica, saber
fundamentadas em primeira linha cognitivistamente (não só) as actuais relações
assimétricas (Bönold, 2008 b), em vez de visar as camadas profundas dos
indivíduos socialmente sexualizados, para o que eu considero indispensável um
instrumental psicanalítico. Mas, vendo com um olhar mais atento, torna-se óbvio
o que pretende Bönold em relação à somadoria positivistamente mecânica de
planos em geral: há nele claramente um sentimento contra a psicanálise e contra
a hipótese de um “inconsciente psicogenético” (Regina Becker-Schmidt). Em
Bönold consciente e inconsciente são equiparados na lógica da identidade, sendo
em última instância absorvidos no consciente, cognitivo. A consequência dessa
visão seria, no domínio pedagógico, por exemplo, que bastaria simplesmente
apresentar aos indivíduos as suas opiniões incorrectas para eles se poderem
modificar: “No entanto... são óbvios os buracos das abordagens construtivistas:
estas não podem explicar os processos afectivos que acompanham e promovem a
diferenciação de género e a escolha do objecto sexual. Na minha opinião isso
pode dever-se nomeadamente à exclusão total do ‘desejo’. O que na psicanálise
de certo ponto de vista é talvez demasiado determinante, o inconsciente, já não
aparece de todo nas teorias construtivistas” (Ott, 1998, p. 19).
Tais
orientações positivistas, no entanto, representam metodológica e
epistemologicamente um problema, não apenas em termos de crítica da dissociação
e do valor, mas mesmo em termos de uma crítica do valor “simples”. Por isso
Bönold deveria pedir a si mesmo os esclarecimentos que ELE exige constantemente
de mim. Sua opinião teria de facto consequências de grande alcance
“metodológico” para o conceito fundamental de fetiche de Marx em geral. Como é
sabido, este pressupõe – e isto constitui quase a questão central – que as
pessoas constituem elas próprias realmente as suas relações, mas isso acontece
inconscientemente, nas suas costas, embora de maneira diferente do sentido freudiano.
Assim se comprova repetidamente que Bönold não tem nada em mente um
entendimento dialéctico da totalidade e está a bordo dum barco completamente
diferente, ou seja, a bordo dum barco sociologista, cognitivista e
cientificista, no qual tudo aquilo que não se pode ver nem comer simplesmente
não existe. As observações de Bönold apontam afinal numa direcção que
conhecemos muito bem a partir da história da filosofia e da ciência meramente
positivistas: aí o conceito de fetiche é denunciado como um disparate
metafísico. Não é preciso muita imaginação para saber como Bönold “entende”
então Lukács, Adorno, Kurz e Postone...
Também no
plano da psicologia social, no entanto, poderiam as atitudes, opiniões,
conteúdos conscientes ser especificamente susceptíveis de decifrar o conteúdo
do que está acontecendo NOS indivíduos sociais, também em conexão com os
contextos dos símbolos culturais. Para abordagens limitadas pela perspectiva
cognitivista, no entanto, tal perspectiva interna é apenas uma “caixa negra”. O
que me preocupa não é procurar de modo “muito prático”, com qualquer tipo de
intenção terapêutica psicanalítica, um sujeito curado, de algum modo
reconciliado com o seu outro. A psicanálise é para mim um instrumental teórico
para a análise social crítica da má realidade capitalista. Perante mim não está
directamente um paciente deitado no divã, que possa/deva ficar curado pelas
minhas intervenções terapêuticas (embora também para a psicanálise, mesmo nesse
sentido prático, se possa defender uma dialéctica entre o eu e o
outro/recalcado. Mas não vou agora entrar por aí, pois não é essa a minha
intenção). O conceito de dissociação-valor, na circunstância, não está de modo
nenhum limitado apenas à dimensão psicanalítica. Reporto-me aqui muito mais a
Frigga Haug que, num contexto marxista (embora problemático, tradicional), fala
em primeiro lugar de uma dissociação das actividades femininas, de modo
completamente independente da psicanálise.
A partir
desta perspectiva, a dissociação-valor como princípio fundamental também não
pode ser entendida de modo simplesmente concretista, no sentido de subordinação
“da mulher” em termos do modelo de repressão, mas representa o princípio de
base social, que abrange tanto homens como mulheres, no entanto ao mesmo tempo fundamentando
a assimetria desta relação. Aqui, num plano concreto de desenvolvimento da
crítica da dissociação e do valor, contei muito com ambivalências e
contraditoriedades na situação de “dupla socialização” das mulheres em termos
de psicologia social, recorrendo, como tem sido frequentemente mencionado, a
Regina Becker-Schmidt. Mas defendo que tais situações e as correspondentes
sensibilidades e necessidades devem ser tratadas pelas mulheres em termos de
crítica da ideologia, uma vez que correspondem a exigências de flexibilidade
completamente inaceitáveis para as mulheres e, na realidade, trazem consigo
sobretudo uma coisa: trabalho, trabalho e mais trabalho, mais uma difusa
competência geral. Nesta situação a questão para mim era precisamente criticar
a colaboração das mulheres, hoje, bem longe de vê-las como vítimas em termos de
um simples modelo de repressão. No caso de situações com boas condições elas
têm descarregado esta problemática até agora em cima de empregadas domésticas
migrantes. Com a queda das classes médias tal posição está em vias de sobrar
novamente para elas. Minhas objecções a pontos de vista como o de
Becker-Schmidt eram contra o facto de eles apontarem a dança na corda bamba das
mulheres como “resistência” contra uma suposta imposição do papel de dona de
casa, que há muito passou à história.
Fiz um
grande esforço para trazer os diversos planos teóricos e analíticos mediados
criticamente para um contexto de mediação, no entanto não apenas no sentido de
uma “sistemática” exterior “metodológica”, mas sim quanto ao conteúdo, com base
na relação contraditória do próprio domínio do objecto. Neste ponto,
relativamente ao problema dos “planos”, é preciso voltar mais uma vez ao
desenvolvimento das forças produtivas. Bönold sobre isso vira-se mais uma vez
contra mim: “Scholz, no entanto, contradiz-se a si mesma quando, por um lado,
parte de uma independência dos planos (...), por outro lado, na sua tese sobre
o asselvajamento, fundamenta ainda assim o plano dos símbolos culturais e o
psicológico (! R.S.) a partir do plano material (mercado mundial globalizado,
crise político-económica)”. Para o efeito, cita-me falsamente: “(O)
desenvolvimento das forças produtivas e a dinâmica de mercado... têm por efeito
que as mulheres se afastam em boa medida dos seus papéis tradicionais e passam
a ter consciência duma ‘dupla socialização’ já sempre existente, com as
correspondentes contraditoriedades, na senda das tendências de
individualização” (Bönold, 2008 b). No original, no entanto, o que se diz é o seguinte:
“Assim o desenvolvimento das forças produtivas e a dinâmica de mercado, QUE
ASSENTAM ELAS PRÓPRIAS NA DISSOCIAÇÃO-VALOR, socavam sobretudo O SEU PRÓPRIO
PRESSUPOSTO, uma vez que têm por efeito...” (Scholz, 2000, p. 119, destaque
meu). Bönold não cita aqui os pontos principais, mas omite-os. Deste modo (como
já ficou claro acima) ele faz da dinâmica de mercado e do desenvolvimento das
forças produtivas pensados apenas a partir do valor os verdadeiros sujeitos da
mudança e, com uma citação forjada, atribui-me isso a mim e à minha teoria da
dissociação e do valor! Ele simplesmente não percebe que a dissociação-valor,
como princípio social fundamental, em seu desenvolvimento histórico, por um
lado, abrange os planos dos símbolos culturais e da psicologia social (e isto é
constitutivo precisamente também para a dinâmica de mercado e para o
desenvolvimento das forças produtivas), por outro lado, no entanto, estes
planos não podem ser compreendidos em sua qualidade própria na dimensão macro,
constituindo por isso uma dimensão de análise própria, e sendo precisamente por
isso também indispensáveis uma exposição ensaística, um pensamento em
constelação, etc.
Como se viu,
isto não tem nada a ver com um saltitar superficial e descomprometido, nem tão
pouco com alegações infundadas, sem nexo interno. Portanto, não faz sentido
atribuir-me o argumento de que a dinâmica do mercado e o desenvolvimento das
forças produtivas produziriam uma mudança das relações de género no plano
cultural e psicológico apenas na pós-modernidade, para então interpretar isto
como auto-contradição. É urgente aconselhar a Bönold uma leitura e uma
formulação mais cuidadas. Isso é tanto mais pertinente quanto ele na sua crítica
exige constantemente de mim uma argumentação mais detalhada.
É um
completo equívoco, se Bönold me censura que eu tenha partido de mudanças
profundas, mas que isso não teria tido quaisquer efeitos nas minhas exposições
“metódicas” (Bönold, 2008 b). Contra isso tem de ser dito resumidamente, neste
contexto, que a teoria da dissociação e do valor em seu desenvolvimento já é em
si uma abordagem completamente nova, que incide sobre a relação dos vários
planos da sociedade no seu nexo interno. Nessa medida, não pode ser satisfeita
a Bönold a reivindicação “de um método” isolado, porque isso se opõe
fundamentalmente à abordagem da crítica da dissociação e do valor; situação em
que Bönold, sempre que se trata desses diferentes níveis, pretende avançar “de
qualquer maneira” para uma elaboração teórica, uma metodologia etc.
inteiramente diferentes, ou seja, desconstrutivistas.
Pelo
contrário, nunca postulei uma relação dos vários níveis como um puzzle que
pudesse ser construído numa figura fechada, uma vez que, na melhor tradição da
Escola de Frankfurt, assumo que o “método” já é sempre a consciência da forma
social e do dissociado dela, como conteúdo exposto na sua contraditoriedade
interna. E, porque a dissociação-valor deve ser entendida como um princípio
social da forma precisamente no sentido de um processo histórico, a elaboração
teórica também tem de ser feita em torno da totalidade concreta. Isto
significa, por um lado, dum ponto de vista analítico, implicar os esquemas
construtivistas (que tradicionalmente faltam na teoria crítica) e, por outro,
deixar simultaneamente a descoberto a sua limitação categorial e histórica
concreta. Se se quiser estar de algum modo fundamentalmente actualizado do
ponto de vista “metódico”, “metodológico” e materialmente empírico, a teoria
crítica e a ciência social críticas terão agora de se voltar a apoderar de um
método histórico dialéctico, em vez de se contentarem com os ideologemas
positivistamente delineados da interacção e da teoria do discurso, como
continua a ser o caso ainda hoje amplamente na chamada pesquisa de género.
Assim,
aplica-se “metodologicamente” à argumentação de Bönold (e justamente também no
que diz respeito aos seus pressupostos no fundo palidamente marxistas na
crítica à minha abordagem analítica) o que Lukács já formulou na década de 1920
no prefácio de História e Consciência de Classe e até hoje permaneceu
incompreendido, onde ele insiste que “aos conceitos é dada a sua significação
correcta menos pela definição do que pela função metodológica que recebem na
totalidade enquanto momentos superados... Quando, portanto, aqueles que se
profissionalizam em ‘ultrapassar Marx’ falam de uma ‘falta de precisão
conceptual’, de ‘simples imagens’ em vez de ‘definições’ etc. em Marx, eles
oferecem um espectáculo tão desolador quanto a ‘crítica de Hegel’ por
Schopenhauer, a tentativa de apontar nele ‘erros lógicos’: apresentam o
espectáculo de sua total incapacidade para compreender pelo menos o ABC do
método dialéctico” (Lukács, 1967 a, p. 12) [2001, p. 60].
Deveria ser
verdadeiramente claro que “método” aqui não deve ser mal entendido num sentido
positivista exteriormente “sistematizador”, mas é preciso ainda assim
evidenciá-lo, como mostra por exemplo a crítica da teoria da dissociação e do
valor feita por Bönold. Se esta teoria também ultrapassa a tradição de Lukács
(tal como a de Adorno) na dimensão da dissociação, por isso mesmo ela tem de
ser posta “organicamente” em relação com aquilo que inclui necessariamente uma
nova qualidade e modifica a arquitectura da teoria como um todo; sempre
consciente de que conceito e teoria sempre têm de aceitar a priori o
facto de que nunca podem ter “todas as coisas” na mão. É perante essa tarefa
que esteve e está a teoria da dissociação e do valor, para além da dialéctica
negativa de Adorno. Bönold pelo contrário, regride para trás do nível de
reflexão tanto de Lukács como de Adorno; e é justamente deste modo que ele quer
pôr em causa a teoria da dissociação e do valor!
Conclusão: O
espírito do tempo pós-moderno na crise, os círculos de esquerda virados queer
e a insustentabilidade de uma mentalidade de crítica ecléctica
É algo
enigmático o que será “imanente” na crítica Bönold, se ele passa ao lado de
todos os principais percursos do pensamento e regride para um entendimento
positivista de lógica formal, com o qual gostaria então de medir uma elaboração
teórica que tem criticado em profundidade justamente esse entendimento. O seu
procedimento parece dever ser entendido no sentido de: Agora é que vou ver o
que me vem à cabeça, a mim e a outros, contra a Scholz (e também contra o
Kurz), em brainstorming associativo, de modo que tudo isso se traduza em
objecções e questões, sem ter tido de compreender o pano de fundo
“metodológico” da teoria da dissociação e do valor em geral. Parece ser para
ele uma pedra no sapato o facto de aqui se reivindicar mesmo uma elaboração
teórica nova e original, que ele gostaria de diluir de preferência noutras
abordagens teóricas mais antigas (em parte marxistas tradicionais, em parte
pós-modernas, entre si novamente incompatíveis) e na usual “cientificidade”
académica, à qual a “antiga” dialéctica já era completamente alérgica e com
razão.
Aqui
desempenha também um papel a exigência impertinente, há muito caída em descrédito
generalizado, de “proibição da polémica” orientada para “encontrar a verdade” e
para a disponibilidade para o debate, em certos meios pós-modernos de esquerda
teoricamente desarmados. Assim, para Bönold, o meu livro sobre o género “não
convida propriamente à discussão” porque contém “demarcações rígidas” que
teriam de provocar a correspondente reacção (Bönold 2008 a). Sem sequer começar
a apresentar a sua própria concepção, ele gostaria de ter misturado
eclecticamente isto e aquilo, mais aquele “é assim”, tudo numa caixa de
trabalhos manuais teóricos, sem responsabilidade pelo conteúdo.
O eclectismo
de Bönold, que é apenas uma tendência geral no contexto da esquerda, é
certamente muito apropriado para um trabalho científico burguês, quando ele aparece
como crítico do género numa tacanhez de lógica formal, mas não esclarece nada.
No seu surfar associativo nas ondas dos discursos, falta a dignidade
“metodológica” em si, mesmo em seu próprio sentido positivista. Bönold não
assume nenhuma tese, tudo está de algum modo simultaneamente certo e errado e,
nessa medida, uma pessoa também se pode ligar a tudo. Isso é sintomático dos
nossos tempos; e só por isso a desconstrutivista Judith Butler já é de novo
simpática na sua típica “insubmissão” (Fraser, 1993, 68). No início da década
de 1990 ela teve de impor na luta as suas teses sobre o gender trouble (sim,
ela ainda tinha teses!). Isso ainda custou alguma coisa e ainda circulou
durante algum tempo, até que acabou por se instalar nos círculos de esquerda de
modo animadamente queer o pós-moderno anything goes que se refere
a ela. É assustador ver no que isso se tornou para grande parte dos seus
seguidores e seguidoras a partir da ênfase e disponibilidade para fazer trouble.
Se hoje algo é considerado impróprio, então é certamente, apesar de todas as
poses superficialmente de Riot Grrrl (4) em contrário, a “butch”
(para “quem não sabe”: a lésbica habitualmente masculina que insiste em não ser
feminina e tem uma “posição “ própria), entre todos os tipos de masculinidade e
feminilidade desconstruídos e reconciliados, até no “abraçar” do pretenso
neo-feminismo hoje. De resto, assim se relacionam também nas actuais habitações
comunitárias de esquerda, todos multicolores lado a lado, o simbolismo da
batata de subsistência, o poder das mulheres, o queer, a causa
anti-imperialista, a solidariedade com Israel, a crítica da globalização da
ATTAC etc. Anything goes, porque já não se trata de nada.
Com a actual
crise económica mundial fundamental qualitativamente nova também tais ideias e
ideologias provavelmente chegarão ao fim. No entanto, isso não é motivo de
alívio. Por trás da caricatura de queerness heterossexual, não em último
lugar do homem queer transformado em dona de casa, poderia em última
análise estar à espreita uma orientação a la Carl-Schmitt, já sem o
colorido estatista; o que, obviamente, não deve ser entendido a priori como
atribuição identificadoramente personalizante aos representantes do discurso
corrente. Hoje é mais difícil olhar para trás da máscara queer
pós-modernamente patriarcal do que olhar na cara o velho patriarcado moderno
que ainda existe e volta a crescer de novo. As velhas reivindicações de
supremacia, no entanto, também se disfarçam sob novas vestes, como se a
anterior guerra dos sexos estivesse obsoleta apenas na medida em que se quer o
mesmo que “as mulheres”. Como se o maldito “tecto de vidro” (5) não tivesse
equivalente nas condições de concorrência entre (jovens) homens e mulheres,
comportando-se o homem queer como mulher ainda melhor e como
pesquisadora do género ainda melhor; porque, agora, supostamente trata-se
apenas da “coisa(-género)”, “neutralmente quanto ao valor” e imparcialmente.
Nada seria tão perverso como aceitar a oferta superficial de paz, alegria e
panquecas dos príncipes queer hetero, que andam atrás da reputação
(académica) excitados como uma cadela no cio, mas ao mesmo tempo não deixam de
piscar o olho e sacudir as madeixas loiras (naturalmente que tudo isto é dito
apenas metaforicamente).
É preciso
lembrar também que para o “homem que tudo quer” o habitual modo positivista de
pensar facilmente pode virar no irracional, místico, de que ele é o reverso
(talvez não nas mesmas pessoas); possivelmente ainda justificado com as
condições da própria pós-modernidade, de repente já não aceites, de
“bajuladores” tornados queer. Hoje é muitas vezes postulado de modo
ainda indeterminado um “muitos” que se impôs – por agora. Racismo,
anticiganismo e anti-semitismo, entretanto, surgem aqui na melhor das hipóteses
como secundários – e o sexismo de qualquer maneira é gradualmente “esquecido”
no circo do discurso pós-moderno. Embora ele devesse ser a questão supostamente
mais no âmago da crítica, apenas é tematizado implicitamente, “com seriedade
científica”, de modo fatigado e sem garra. Isto também se aplica à homofobia
que, aparentemente mudada com um olhar para cima falsamente feminino, pode
estar bem instalada na posição queer de estar no meio. Ela já não
dá muito nas vistas no amorfo “muitos”, encobre-se nas fraseologias de círculo
e em cross dressing parties.
Curiosamente,
agora, sob a impressão da crise, são precisamente as feministas que tentam, em
parte contra e em parte com Butler (que ela própria reconheceu há muito a
importância da dimensão psicanalítica) destacar de novo fortemente a má relação
que continua a existir entre os sexos; e mesmo expressamente contra a
perspectiva que em tempos assumiram da ideologia Beck-Giddens-New Labor da
década de 1990 (ver McRobbie, 2010). Isso mostra que seria fatal pretender
“desconstruir” de modo meramente culturalista a questão não apenas da
identidade sexual. Pelo contrário, ela tem de ser reposta actualizada, na sua
dimensão profunda, tendo como pano de fundo a dissociação-valor enquanto
princípio fundamental. É por isso que é extremamente crítico ver as abordagens
feministas queer, na necessidade da crise, voltarem a descobrir a
“economia”, supostamente com o “avô Marx”; na circunstância, no entanto,
ignorando amplamente as categorias fundamentais do valor e da dissociação e
pretendendo apenas emparelhar de modo demasiado barato a tematização feita pelo
antigo feminismo da relação de produção e reprodução (trabalho doméstico etc.)
com a perspectiva de nova pequena burguesia de uma “economia solidária” (desde as
pequenas cooperativas alternativas até às “reformas monetárias regionais) e até
mesmo com os correspondentes planos de redes de hacker-nerds dominadas
por homens.
Contra isso,
têm de ser postas numa nova relação recíproca a multiplicidade e a diferença de
situações sociais, por um lado, e o conceito de capitalismo como princípio da
dissociação e do valor, por outro, para procurar saídas para além de queerizações
superficiais. Na queerness sem rosto esconde-se uma renovada
“cumplicidade” das mulheres (Christina Thürmer-Rohr), se as relações
capitalistas e patriarcais forem percebidas em decomposição e, na senda do
estado de excepção, se propagandear um poder das mulheres (dos escombros) (3)
em que a “dupla socialização” da feminilidade se transforma em co-gestão da
crise. É “hora de luta”, mais que nunca agora, quando o tempo dos
pseudo-projectos se esgotou. Oscar Wilde e Virginia Woolf, que aparentemente
passam por padrinho e madrinha das tendências pós-modernas, estão amplamente
ultrapassados na sua classe subversiva.
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Notas do
tradutor:
(1) “Não
digo nada sem a minha Alltours”, constituindo um óbvio “desvio” da frase “não
digo nada sem a presença do meu advogado”, era o spot publicitário da agência
de viagens Alltours (= “todas as voltas” em inglês), que assim pretendia
combater as marcações directas pela Internet (contra a mania da diferenciação,
a segurança…).
(2) A expressão
idiomática alemã eierlegende Wollmilchsau diz literalmente “a porca que
põe ovos e também dá lã e leite”.
(3) Mulheres
dos escombros (Trümmerfrauen) eram as mulheres que, após a Segunda Guerra
Mundial e na ausência de milhões de homens mortos ou prisioneiros de guerra,
procuravam nos escombros das cidades alemãs e austríacas bombardeadas o que
fosse aproveitável para a reconstrução e para a sobrevivência.
(4) “Riot
grrrl”: movimento feminista punk underground norte-americano dos
anos 1990 com forte activismo.
(5) “Tecto
de vidro”: conceito cunhado nos EUA na década de 1980 (glass ceiling) em
referência a uma espécie de barreira invisível que impede a ascensão
profissional das mulheres aos lugares superiores.
Original OHNE MEINEN ALLTOURS SAG ICH
NICHTS in www.exit-online.org. Publicado na revista EXIT! Krise und Kritik der
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(12/2010)], ISBN 978-3-89502-310-1, 272 p., 13 Euro, Editora: Horlemann Verlag,
Grüner Weg 11, 53572 Unkel, Deutschland, Tel +49 (0) 22 24 55 89, Fax +49 (0)
22 24 54 29, http://www.horlemann.info/. Tradução de Boaventura Antunes
(09/2011)