O PÓS-MARXISMO
E O FETICHE DO TRABALHO
Sobre a contradição
histórica na teoria de Marx
Se o marxismo como forma
histórica (e a ser historiada) da reflexão teórico-social não
há-de ser hoje nem levado adiante integral nem simplesmente
descartado como "erro", mas antes superado
(aufzuheben), então resta saber naturalmente com auxilio de
que conteúdos e critérios deve proceder essa aguardada superação.
Pois é sabido que um marxismo integral, unitário e
incontroverso jamais existiu como tal, nem mesmo na história
interna da época da "modernização" que agora chega
ao fim. Hoje tal facto torna de novo aparentemente possível uma
reacção à crise (ou na verdade já à decadência) do
marxismo, reacção esta essencialmente vinculada ao passado e
que gostaria de desenterrar alguns antigos ossos daquelas muitas
variedades e ramificações que já no passado tiveram um destino
ideológico de Neandertal. O problema da superação não pode
contudo ser arqueológico: está disponível toda a história da
modernização dos últimos cem anos, com todos os seus
marxismos. Para fixar um ponto de partida, pode ser útil um
breve relance nas rupturas da própria história ideológica
interna do marxismo do movimento operário ou da modernização
até aos dias de hoje .
Historia e declínio do
marxismo
Repetidas vezes a teoria de Marx
já foi declarada morta, e reiteradamente ela provou a sua força
de sobrevivência ante relações insuperadas, nas quais o homem
permanece em boa parte um ser escravizado por mudas coerções.
Na história da modernização, esse estado nunca pôde ser
ultrapassado, e no momento estamos aparentemente mais afastados
do que nunca do cumprimento da promessa de superação. Porém
não se deve esperar com demasiado fervor uma ressurreição
quase-automática dos princípios marxianos e do seu conteúdo
emancipatório, mais ou menos como os neoliberais aguardam os
poderes autocurativos do mercado, alguns marxistas tardios o
próximo "modelo de acumulação" capitalista e as
seitas escatológicas o regresso de Cristo. Já no passado, o
enterro e a ressurreição de Karl Marx sempre foram acompanhados
por rupturas e rejeições teóricas e sociais, nas quais o
processo de modernização ainda inesgotado se impunha aos
solavancos e se revelava em novas e surpreendentes formas. Assim,
as diversas "crises do marxismo" conduziram de cada vez
a uma forçosa reinterpretação e controversa reformulação da
teoria de Marx no contexto social modificado.
A primeira "crise do
marxismo" eclodiu quando, ao fim da longa estagnação da
unificação alemã, se revelou a ulterior capacidade de
acumulação a longo prazo do capitalismo e o movimento operário
ocidental por toda parte se voltou para uma
"Realpolitik" reformista e imanente ao capital.
Enquanto os marxistas reformistas, dos quais Eduard Bernstein era
um dos representes na Alemanha, reformulavam nesse sentido a
teoria de Marx e descartavam alguns de seus momentos como falsos
ou "metafísicos", os guardiães do Graal da herança
não adulterada de Marx, com Karl Kautsky à cabeça, teimavam
numa ortodoxia cada vez mais estéril, que não podia ser
concretizada na realidade social do momento. Essa ortodoxia
permaneceu em todo caso, ao menos na Alemanha, a doutrina
teórica oficial da social-democracia, ainda que a efectiva
praxis política cada vez menos tivesse a ver com ela.
A segunda "crise do
marxismo", na Primeira Guerra Mundial, trouxe o grande cisma
entre a social-democracia e o comunismo. Desta vez, a
reinterpretação da teoria de Marx veio da "esquerda",
ao contrario da época anterior. Com a Revolução de Outubro às
costas, Lenine rompeu tanto com o reformismo ocidental quanto com
a chata ortodoxia kautskyana. Em resposta aos problemas da
revolução numa Rússia atrasada em termos capitalistas, a
teoria de Marx foi reformulada contudo menos pela crítica da
economia política ou por seu conteúdo filosófico, que no
aspecto "politicista", no sentido de uma imposição
revolucionaria do poder e como modelo das relações em boa parte
agrarias e pré-modernas. A "radicalidade" referia-se
sobretudo a procedimentos e formas do movimento político, pouco
ao conteúdo histórico e quase nada à determinação económica
da forma da própria sociedade, uma vez que a postulada
alternativa da planificação económica jamais abandonou as
categorias económicas fundamentais da modernidade produtora de
mercadorias, cuja forma ocidental permaneceu modelo expresso em
vários aspectos. Tudo corria sob a "economia
planificada" e a "eliminação da propriedade
privada", não passando de um derivado económico-estatal da
relação capitalista.
A reinterpretação comunista ou
bolchevique da teoria de Marx transformou-se assim no programa
teórico de uma modernização retardatária das regiões
atrasadas em termos capitalistas no leste e no sul do planeta.
Ela encontrou sua eficácia histórica na industrialização
soviética, na revolução chinesa e nos movimentos de
libertação nacional anticolonialistas. No ocidente, pelo
contrário, o comunismo e os ramos da esquerda radical
permaneceram minoria ou simples fenómenos marginais. Apesar de a
sua teoria não corresponder às relações ocidentais
desenvolvidas, o assim chamado "primado da política",
na verdade germinado no terreno de uma modernização
retardatária, tornou-se ainda assim o legado teórico e a marca
da fábrica também do comunismo ocidental até hoje, muitas
vezes ainda ampliado de forma voluntarista, ao passo que a
crítica da economia política não foi substancialmente além do
estágio atingido por Kautsky/Hilferding (ou, na sua esteira,
Lenine).
O choque da crise capitalista do
mercado mundial, o grande êxito temporário da
industrialização soviética, a revolução chinesa e os
resultados da Segunda Guerra Mundial estabilizaram, num primeiro
momento, a reformulação comunista da teoria de Marx e pareceram
sugerir o advento de um sistema comunista mundial (fosse
capitalista de estado ou socialista de estado). A terceira
"crise do marxismo" tornou-se porém inevitável quando
o "milagre económico" ocidental do pós-guerra, com
taxas inusitadas de crescimento, fez empalidecer e rebaixou a
ritual distributivo a crítica do capitalismo nos países
ocidentais desenvolvidos, ao mesmo tempo que as economias
orientais (e meridionais) da modernização retardatária
decaíam relativamente ainda mais e começavam a petrificar-se
tanto no aspecto económico quanto no social, cultural e
teórico. O "marxismo-leninismo" fixou-se num esquema
dogmático e a social-democracia ocidental desembaraçou-se da
teoria de Marx em geral como doutrina ("Godesberg" )
(1).
A reconstrução e reformulação
da teoria de Marx também nesta situação veio novamente da
"esquerda", desta vez numa peculiar amálgama de
teorias ocidentais do sujeito, representadas sobretudo pelo
movimento jovem e estudantil de 68, por um lado, e, por outro, da
última onda dos movimentos de libertação nacional do Terceiro
Mundo (Vietname, entre outros), flanqueada pela interpretação
especificamente chinesa de Marx por Mao Tse- tung. O denominador
comum dessas reinterpretações era a apoteose teórica do
voluntarismo "politicista". Assim, tal reformulação
da "Nova Esquerda" era a mais fraca até então, pois
não fazia senão reproduzir de forma ampliada no novo contexto o
antigo "politicismo" das esquerdas radicais e do seu
prolongamento voluntarista nas respectivas correntes dos anos 20
ou 30. A única fonte realmente original dentro da "Nova
Esquerda" (ao lado de Ernst Bloch, cuja recepção foi
contudo periférica) era a Teoria Crítica da Escola de
Frankfurt, que já fora formulada muito antes e que em geral
ficou à margem das coisas marxistas. Tal projecto, cujas
implicações "sombrias" e por vezes cripticamente
formuladas permaneceram inexploradas, foi entretanto assimilado
quase que exclusivamente na sua leitura voluntarista e
compatibilizado até mesmo com a tosca doutrina utilitarista das
"ideias de Mao Tse-tung". A reformulação da teoria de
Marx pela "Nova Esquerda" aparece assim como o produto
do ocaso do marxismo, no qual nenhum projecto realmente autónomo
foi elaborado, sendo antes todas as concepções do passado mais
uma vez repisadas eclecticamente.
A crítica ao capitalismo desse
fogoso radicalismo de esquerda foi sempre fraca, na medida em que
deixava intactas as formas básicas do sistema capitalista e
produtor de mercadorias, percebidas apenas no seu aspecto
externo. As sociedades em desenvolvimento do leste e do sul,
baseadas na economia estatal de recuperação tardia, foram
criticadas no plano político e cultural (inadequada e
inconsequentemente) devido a certos fenómenos
"não-democráticos", ao passo que a sua verdadeira
forma de reprodução burguesa continuou por equívoco a ser
tomada como "bases económicas do socialismo".
Tornou-se inevitável a quarta "crise do marxismo". Sob
as condições de produtividade e de desenvolvimento do mercado
mundial dos anos 80, ruíram primeiro grande parte do chamado
Terceiro Mundo e depois também as economias do chamado
"socialismo real". As concepções politicistas da
esquerda ocidental revelaram-se enfim como conformes ao capital e
transmutaram-se numa nova "Realpolitik". A Nova
Esquerda experimentou assim o seu "Godesberg"
específico. A teoria de Marx, desigual pela própria história
de recepção contraditória nos surtos globais de modernização
desde inícios do século XX, foi mais uma vez (apressadamente)
baixada à cova.
Se agora se levanta a questão do
reiterado revival de uma teoria crítica, que de facto só
pode morrer juntamente com o seu objecto, o capital, isso não se
dá decerto por razões de fidelidade ideológica duma crédula
paróquia marxista, agarrada à sua bíblia e solidamente firme
na fé. Tal como no passado, também hoje em dia só uma
constelação social do próprio tempo será capaz de inalar vida
nova à teoria marxista considerada morta. A realidade
contemporânea da sociedade mundial, meia década após o colapso
do socialismo real, é no entanto a de uma crise global nunca
vista em suas dimensões. Muito mais provável que a
transformação das sociedades em ruínas do leste e do sul em
economias de mercado e democracias funcionais, com um novo surto
subsequente de acumulação capitalista mundial, é o fim comum
da modernidade produtora de mercadorias numa barbárie global.
Também dificilmente será uma solução, se as diversas
pretensões renovadoras oriundas do actual marxismo desembocarem
de certo modo numa bernsteiniada à segunda potência. No entanto
parece ser mais ou menos justamente esse o caso na maioria dos
envelhecidos projectos do que restou do marxismo académico
A razão mais profunda para esta
elaboração da última crise do marxismo ser notavelmente
superficial, indigna de fé e não levar a nada de novo reside no
facto de todos os marxismos até hoje terem permanecido imanentes
à história da modernização, ou seja, terem estado mais
fortemente comprometidos com a dinâmica da modernidade contra a
sociedade agrária pré-moderna e suas sequelas do que com a
crítica ainda não claramente formulável do sistema produtor de
mercadorias da própria modernidade. Isso não se aplicou apenas
aos marxismos das sociedades em modernização retardatária no
leste e no sul, mas também aos marxismos do velho movimento
operário no ocidente. O marxismo como um todo desenvolveu assim
a sua polémica principalmente contra as relações e parâmetros
pré-modernos, em cujos conceitos a própria relação
capitalista era ainda entendida e criticada.
Isso não e de espantar, na medida
em que o capital e as formas e esferas secundárias que lhe
correspondem de maneira alguma ingressaram na história em estado
puro e tipicamente ideal, mas múltipla e inextricavelmente
vinculados e misturados a estruturas, padrões de conduta e
formas de pensamento tradicionais. Século XX adentro, "o
capital" foi por assim dizer idêntico à sua história de
consolidação (mesmo no ocidente), ou seja, "foi" uma
miscelânea em e com um mundo ainda de modo algum plenamente
capitalizado, "foi" o abraço de momentos capitalistas
e pré-capitalistas, modernos e pré-modernos. Sob tais
condições, não se podia na verdade criticar o capitalismo como
tal (isto é, em suas formas-fetiches básicas), mas somente uma
amálgama social com que a cada momento se deparava, de certo
modo do ponto de vista virtual do "degrau seguinte"
(sempre capitalista) no estágio de desenvolvimento
Por outras palavras: o que os
marxistas criticavam era o capital empírico de um empírico
estado de transição histórico (o passado, visto de hoje), e
essa crítica imanente necessariamente limitada era incapaz de
diferenciar-se de uma crítica consagrada ao fundamento da
modernidade capitalista em geral. Como os conceitos desse
marxismo em seu todo sempre estiveram embebidos na problemática
ainda inexplorada da modernização, e como a sua ênfase
revolucionária, se é que a possuíam, era tomada de empréstimo
aos momentos jacobinos da revolução burguesa (ou a suas
repetições em ditaduras de modernização do leste e do sul),
as ideias de transformação e "socialismo" de todo
este longo período também jamais atingiram as categorias
básicas do moderno sistema produtor de mercadorias.
O grosso do marxismo académico
já não é capaz de se livrar do fardo dessa herança, embora a
era como um todo tenha chegado ao fim em 1989. A queda do
socialismo real não é concebida como parte de uma crise
histórica generalizada da modernidade, mas somente como a
catástrofe de um suposto distanciamento radical das "leis
da economia de mercado". Os falsos inovadores querem
portanto descartar de Marx precisamente o que não é compatível
com as categorias fundadoras da ciência económica (valor,
preço, rentabilidade, etc.), para então deixar apenas um
espantalho teórico sem sentido, cujos farrapos de crítica se
encontram também noutros lugares, e melhores. Eles não percebem
que com isso se tornam a si próprios supérfluos como marxistas
(eis, talvez, o sentido oculto da sua "renovação"),
pois eles não têm nenhuma contribuição original a dar para a
análise da economia de mercado existente na realidade e da Realpolitik
a ela vinculada. Uma pseudo-renovação marxológica que
assim procede só pode entrar em declínio, juntamente com o
marxismo que perdeu o seu objecto.
O duplo Marx
Para uma verdadeira renovação da
teoria de Marx, não se pode mais colocar o problema de uma
simples interpretação (como continuação da longa série de
interpretações), mas apenas, hoje em dia, no final da
modernidade, justamente o problema da superação dessa
teoria e, com ela, das suas interpretações. Que a teoria de
Marx se tenha convertido, contra a vontade expressa do seu autor,
em "marxismo", perdendo assim o seu status como
teoria social absolutamente comum, com limites humanos e
históricos de conhecimento absolutamente comuns, e se tenha
transmutado de facto numa espécie de doutrina salvífica, que
até mesmo nas variantes mais críticas do "marxismo
ocidental" se furtou a uma diferenciação de seus
conteúdos, a uma revisão e portanto historização superadoras
- todo esse notável processo tem a ver decerto com o facto de
que o próprio projecto de Marx foi além da capacidade de
compreensão (e desse modo, por assim dizer, além de si mesmo)
que a praxis social ainda impunha no interior da história da
modernização capitalista.
Portanto não é possível
dissociar Marx do marxismo e da história da modernização e
incriminar os marxistas de simples "erro"
(interpretativo). Antes, impõe-se primeiro indagar o que ainda
é afinal "teórico da modernização" nessa própria
teoria de Marx e assim se torna obsoleto no nível de
desenvolvimento agora alcançado e na maturidade da crise da era
moderna. E como um retorno à pré-modernidade não é obviamente
possível nem desejável, caberia ao mesmo tempo indagar quais
momentos da teoria de Marx, por outro lado, remetem à
constelação só agora alcançada e eram tão avançados no seu
tempo que ainda hoje nos atingem e aliás só hoje podem
tornar-se eficazes.
Deste ponto de vista, pode-se
proceder a uma historização e diferenciação da teoria de Marx
que distingue duas vias teóricas em última instância
incompatíveis, não como uma relação entre "erro" e
"verdade", mas como um problema da extemporaneidade
histórica dentro da própria teoria de Marx, e assim reconhecer
um "duplo Marx". A primeira linha argumentativa,
"exotérica", teórica da modernização e imanente ao
fetiche, refere-se à forma interna do movimento e à história
da imposição do capital como juridificação e reificação de
todas as relações, cujo horizonte de desenvolvimento ainda era
preeenchido positivamente. E este é, na verdade, o Marx corrente
e mundialmente conhecido: "ponto de vista do
trabalhador" e luta de classes são os conceitos centrais
desta linha que conduziram ao marxismo histórico
A segunda linha argumentativa de
Marx, "esotérica" e em sentido estrito
"radical" (isto é, que desce às raízes) refere-se à
real mistificação da forma como tal da mercadoria e do
dinheiro, "na" qual a modernidade, a par de seus
conflitos imanentes, se expõe, impõe e desenvolve. Por um lado,
portanto, uma mobilização e intervenção teórica e ao mesmo
tempo política no interior do movimento de modernização (em
última instância preenchido positivamente); por outro lado, uma
metacrítica "sombria" do sistema de referências
específico da própria modernidade produtora de mercadorias.
Por outras palavras, trata-se
agora inapelavelmente de libertar a obra de Marx dos modos de
interpretação oblíquos e impregnados de incenso, cujo momento
quase-religioso remete a uma sombria faceta não redimida (e até
hoje irredimível) dessa teoria. O momento quase-religioso do
marxismo procede certamente também do conteúdo religioso
secularizado do próprio movimento da modernização, que nada
mais é que a libertação de uma forma de fetiche (valor e
dinheiro). Dentro deste movimento histórico como um todo, no
entanto, a forma fenoménica especifica da adoração marxista do
fetiche nutre-se do temor ante o impossível e irredimível em
geral na teoria de Marx, a saber, ante o principio de uma
crítica radical dessa própria forma de fetiche objectivada e
interiorizada.
O tabu absoluto da modernidade, a
forma da mercadoria/forma do valor como tais, o dinheiro e com
isso a própria forma do sujeito, esta correlação presta-se
tão pouco a tema de crítica e superação para a consciência
constituída de modo fetichista quanto o mistério para os
religiosos. O "modo de produção baseado no valor"
(Marx), que traça a sua órbita como um cometa de candência
afinal catastrófica, pressupõe cegamente o valor como
categoria-fetiche e inflecte toda a reflexão como por si mesma
para essa forma, na qual não apenas se age, mas também se
pensa. Só o fim catastrófico torna socialmente tematizável a
"segunda pele" dessa forma do fetiche da modernidade
(coisa que não garante ainda o êxito da descamação dessa
pele); o carácter teoricamente errático da teoria de Marx está
justamente no facto de ela ter esse problema como o seu centro
oculto. O temor dos marxistas praticantes perante este núcleo
duro e (para eles) ao mesmo tempo dúbio, que em épocas passadas
não pôde ser rompido, mergulha a teoria marxista e a história
da sua recepção naquele característico lusco-fusco
quase-religioso.
Ora, a crítica do fetiche na
teoria de Marx em boa parte ainda não foi formulada e muito
menos concretizada no sentido de um "movimento de
superação", contando aliás com o gigantesco volume de
fragmentos legado por Marx (embora, ou até mesmo porque quisesse
ser extremamente "sistemático", um facto
teórico-científico e histórico-teórico não sem interesse).
Um tal aguçamento da crítica social concreta à constituição
fetichista do capital, ou seja, do dinheiro erigido em
auto-referência paradoxal como movimento de valorização, seria
além do mais uma exigência excessiva para uma teoria pouco
posterior a meados do século XIX. Num tempo em que a relação
capitalista ainda tinha pela frente mais de um século de
desenvolvimento estrutural e de história de imposição social
(mundial), a crítica radical das categorias básicas da
socialização pela forma da mercadoria teria de ficar
absolutamente isolada.
Que Marx pressentiu a
contradição na sua teoria depreende-se de inúmeras
asserções. Na Alemanha, escreveu ele no prefácio da sua
principal obra, "aflige-nos, como no resto de todo o
continente da Europa ocidental, não só o desenvolvimento da
produção capitalista, mas também a falta de seu
desenvolvimento" (Kapital, vol. I, p. 12). Marx
visava aqui apenas a uma comparação directa entre a Alemanha
subdesenvolvida de então e a Grã-Bretanha já industrialmente
avançada, mas com isso captou involuntariamente numa única
fórmula todo o programa histórico do movimento operário. Não
somente os países continentais da Europa eram subdesenvolvidos
em relação a Grã-Bretanha, mas o capitalismo como tal ainda o
era por assim dizer em relação a si mesmo e tinha à sua frente
(ao contrário das expectativas de Marx) um campo secular de
desenvolvimento histórico, no qual o movimento operário e o
marxismo começaram a actuar como pontas-de-lança do próprio
avanço do sistema capitalista.
Marx envidou naturalmente todos os
esforços não apenas para reconciliar e mediar ambos os
princípios incompatíveis da sua teoria, mas também para
expô-los como de origem lógica diversa. Quanto mais o movimento
operário se apropriava da sua teoria sob a variante
"exotérica", tanto maiores eram suas ilusões sobre
essa capacidade de mediação e mais raivosas se tornavam as suas
investidas contra a interpretação da sua teoria excessivamente
imanente ao sistema, interpretação esta que lhe havia de
parecer mero "equivoco". Seu acólito Friedrich Engels,
que de resto pensava bem mais limitadamente em termos
"positivos", perdeu em definitivo o contacto com o
conteúdo "esotérico" positivistamente sepultado da
teoria de Marx e sagrou-se o primeiro Padre da Igreja do marxismo
ascendente. Hoje estamos às voltas com a peculiar problemática
de que o "outro Marx", sepultado desde o berço pelo
próprio marxismo, se pode erguer pela primeira vez à luz de uma
nova história de crise, enquanto inversamente o Marx
"marxista", nosso velho conhecido, tem de ser por sua
vez finalmente sepultado, já que seu conteúdo se esgotou por
completo, juntamente com o movimento de modernização.
Em principio, o "duplo
Marx" pode ser "destrinçado" e exposto em todos
os níveis de sua teoria. Como já sugeri, a
argumentação "dupla" de Marx remete em primeiro lugar
ao problema da forma da relação fetichista "valor"
(este é o cerne da constituição do fetiche) em sua divisão
social das categorias capitalistas. O Marx "exotérico"
critica de modo redutor a subordinação da "classe
operária" ao capital na forma fenoménica imediata da mais
valia como "trabalho não pago" (e já por isso
compatibiliza-se com a ideologia de legitimação do movimento
operário, representada de maneira tanto mais tosca e eficaz por
teóricos ideológicos como os ricardianos de esquerda ou
Lassalle). O outro Marx, o "esotérico", critica pelo
contrário a categoria de fetiche básica valor como tal,
e, a partir dessa perspectiva, a mais-valia aparece então como a
própria forma consumada do valor num sistema dinâmico e
autodestrutivo; isto é, não se pode superar a mais-valia em
nome da emancipação social do proletariado, de sorte que o
valor permaneça como base ontológica; antes, a superação da
emancipação negativa nas leis objectivadas da valorização do
valor é idêntica à superação da própria forma do valor como
tal. A "simples" forma do valor é de facto apenas um
fantasma histórico da ideologia; ela estaria realmente vinculada
à mera existência em nichos de produção de mercadorias a
baixos níveis de força produtiva e necessidade, ao passo que
uma libertação da lei compulsória da valorização, que deve
ocorrer ao nível elevado da socialização alcançada, só é de
algum modo possível através de um rompimento da forma do valor
fetichista (ou seja, por intermédio da superação da mercadoria
e do dinheiro).
Ante um tal pano de fundo, surge
também uma compreensão dupla do próprio conceito de capital. O
Marx "exotérico" permite ao conceito monista de
capital dissociar-se dualisticamente em classes sociais
existentes "em si"; ele argumenta
"sociologisticamente" de cabo a rabo. "O
capital" aparece assim como uma "relação
social", embora em sentido sociologisticamente redutor: como
a relação de uma parte socialmente dominante da sociedade que,
dando pelo nome de burguesia ("classe dominante"),
"é" ou representa o capital, ante a parcela
socialmente oprimida da sociedade, que como proletariado nem
"é" nem representa em si o capital. Segundo esse
jargão, caberia adoptar o "ponto de vista da classe
operária", que (desde Engels e sobretudo depois de Lenine)
tornou-se o meta-sujeito mistificado e o objecto de um ardor e
devoção quase-religiosos (e popularuchos). O Marx
"esotérico", ao contrário, prende-se ao conceito
monista de capital, e a "relação social" neste
sentido é total, incluindo todos os membros sociais na mesma
forma de fetiche. Aqui, as "classes" já não são
sujeitos de conflito existentes em si, sem pressupostos, mas nada
mais que diferentes portadores funcionais da sua forma básica e
histórica comum; e também a chamada classe operária
"é" nesta acepção inapelavelmente parte integrante e
momento da relação capitalista, mas não o seu opositor
predestinado.
Trabalho como conceito do
fetiche
Até este ponto de uma
focalização teórica do "duplo Marx", ainda não se
alcançou o limite de dor marxista (e o limite de dor moderno e
burguês em geral). A problemática de uma superação da
mercadoria e do dinheiro talvez seja tida como
"maluca", mas ainda é pensável ocasionalmente em
algumas formas tecnocráticas e de economia estatal (mesmo que
numa definição pejorativa). O problema "pode" ser
perfeitamente pensado como ideia socialista do futuro nesse
sentido redutor, ainda que a maioria das vezes fosse escamoteado
num futuro bem distante. O verdadeiro limite de dor ideológico
da consciência fetichista moderna só será ultrapassado se a
crítica começar a destruir o Todo-Poderoso, isto é, o
"trabalho" e seu conceito ontologizado. Neste ponto, os
espíritos apartam-se definitivamente. É por isso que só aqui
tem inicio a verdadeira superação do marxismo e da teoria de
Marx. Em termos apodícticos, quem é incapaz de transpor esse
limiar tem forçosamente de recair no universo do velho marxismo
e, desse modo, na história burguesa da modernidade que se tornou
obsoleta.
Correspondentemente, neste ponto
será tanto mais difícil distinguir o "duplo Marx".
Não apenas se tornam maiores as resistências externas dos
marxistas, que nessa questão beiram francamente o ataque de
nervos, mas também as resistências internas da própria teoria
de Marx. Ao que tudo indica, Marx utiliza à primeira vista um
conceito ontológico de trabalho de forma corrente e sem lacunas.
Mas, de novo, é apenas na variante "exotérica" que
parece que o trabalho se torna o conceito de uma eterna
condição existencial supra-histórica da humanidade,
aparentemente apenas plasmada de modo usurpador pela forma e pela
moderação legal do capital - uma argumentação que calou fundo
no "marxismo ocidental", com a máxima nitidez, é
claro, em Georg Lukacs, e que é aguçada particularmente por
Alfred Sohn-Rethel, apesar de sua crítica abrangente em outros
aspectos. O trabalho interpretado dessa maneira torna-se uma
alavanca ontológica de uma pretensa superação do capital, e o
sujeito portador desse trabalho torna-se idêntico ao sujeito
portador dessa superação (de maneira correspondente à
concepção redutora e dualista ou sociologista da relação do
capital). Mas nesse muro aparentemente liso da ontologia marxista
do trabalho (e da "utopia do trabalho", a seguir)
revelam-se ao olhar mais próximo brechas decisivas, nas quais a
actividade febril do Marx "esotérico" irrompe mais uma
vez.
Se quanto ao conceito de trabalho
ambas as almas se mesclam de maneira particularmente íntima e
quase indiferenciável no seio da teoria de Marx, isto ocorre por
uma razão absolutamente histórico-dialéctica. Mesmo o Marx
"esotérico", tivesse ele podido reflectir-se como tal,
teria motivos não para uma afirmação ontológica, mas
inteiramente histórica do "trabalho" - e isso
justamente por guiar-se tão bem entre os meandros do fenómeno
empírico. Como se sabe, ninguém se ergueu de modo tão
inequívoco quanto Marx contra os enormes sofrimentos da
história da consolidação do "trabalho" abstracto.
Mas ele tentou fixar acidentalmente tais sofrimentos ao conceito
de "trabalho", pois não queria renunciar ao outro lado
do mesmo processo, o momento emancipatório e libertador perante
a menoridade e carência pré-modernas (ao contrário dos
críticos meramente reaccionários do capitalismo).
O conceito sistemático de
"trabalho", a cuja estrutura sem sujeito se prendem os
tormentos da modernização, expande-se de certo modo a
contragosto em Marx rumo a seu duplo "exotérico", isto
é, a um conceito sociologicamente redutor de sujeito que, em
falsa imediatidade, identifica o todo do modo de produção com o
portador funcional particular "burguesia", que é
responsabilizada subjectivamente pelos tormentos do sistema
("ódio de classe"). Se o marxismo cai nesta redução,
o próprio Marx deixa-se várias vezes arrebatar por
declarações relativizadoras, que por assim dizer desculpam o
sujeito funcional antagónico, dependente e particular:
"Menos do que qualquer outro pode o meu ponto de vista, que
concebe o desenvolvimento da formação económica da sociedade
como um processo histórico-natural, responsabilizar o indivíduo
por relações de que ele é, socialmente, criatura, por mais que
se erga subjectivamente acima delas" (Kapital, vol I,
p. 16).
Este acento relativizador já se
revela no Manifesto Comunista, onde a mesma
"burguesia" aparentemente antagónica (e com ela,
indirectamente, todo o sistema de referências do
"progresso" social pelo trabalho) é por assim dizer
entusiasticamente festejada. "A burguesia revelou como a
brutal expressão de força, que a reacção tanto admira na
Idade Média, encontrava seu complemento adequado na mais
indolente madraçaria. Foi ela a primeira a dar provas do que é
capaz de realizar a actividade dos homens. Ela erigiu colossos
inteiramente diversos de pirâmides egípcias, aquedutos romanos
e catedrais góticas, ela empreendeu viagens inteiramente
diversas de diásporas e cruzadas. [...] A burguesia, por meio da
vertiginosa melhoria de todos os instrumentos de produção, por
meio das comunicações infinitamente mais fáceis, atrai à
civilização todas as nações, até mesmo as mais
bárbaras." (Manifest der kommunistischen Partei, p.
46 s.). O discurso da "missão civilizatória" do
capitalismo encontra-se à farta em Marx, e a pretensão
pedagógica que nele ecoa refere-se não somente às culturas
não-europeias "menores de idade", mas também às
estruturas pré-modernas no próprio ocidente.
A modelagem do sujeito humano por
meio desse "processo civilizatório" está porém
forçosamente ligada a uma imposição do "trabalho",
cujos sofrimentos têm de ser transformados com falsos
adjectivos. A própria referência desdenhosa a uma pretensa
"madraçaria da Idade Media" revela o apego ao "ethos
protestante" do moderno fetichismo do trabalho. Sem
dúvida, este apego em Marx não é absoluto nem integral: ele o
vê antes em seu próprio condicionamento histórico, quando diz
a respeito do capitalismo (novamente de modo positivo): "o
dinheiro como fim torna-se aqui meio do trabalho universal, [...]
Abrem-se, assim as reais fontes de riqueza" (Grundrisse,.p
135). De certo modo, Marx afirma aqui o "dinheiro como
fim" e, com isso, também o "trabalho", embora
não em seu aparente fim em si mesmo, mas antes como inconsciente
"pedagogia da historia": num sentido hierarquicamente
superior e não mais percebido conscientemente (sem sujeito), o
"dinheiro como fim" torna-se um "meio" para
libertar um "trabalho" que supera a rude carência, o
qual por sua vez é igualmente um "meio" histórico
inconsciente para abrir ''as verdadeiras fontes de riqueza"
- para produzir, em toda sua inconsciência fetichista, um mundo
de recursos, necessidades e possibilidades (incluindo a própria
individualidade).
Compreendido assim o
"trabalho", isto é, tomado não no sentido protestante
rasteiro como coercitivo fim em si mesmo, a consequência lógica
seria na verdade que o "trabalho" e a sua forma de
representação "valor" ou "dinheiro" podem
ser repudiados após o cumprimento ("execução") de
sua restrita tarefa histórica, na condição de
"meios" decadentes cujo verdadeiro objectivo -
franquear as "reais fontes de riqueza" - foi
alcançado, tornando-os assim positivamente supérfluos e
absurdos. De facto, essa consequência já fora
surpreendentemente sugerida na Ideologia alemã, uma obra
em parceria de Marx e Engels publicada pela primeira vez em 1932,
após longo período arquivada. Aí se lê com bastante clareza
"que em todas as revoluções até hoje a espécie de
actividade permaneceu sempre intocada e tratou-se exclusivamente
de uma outra distribuição desta actividade, de uma nova
repartição do trabalho a outras pessoas, ao passo que a
revolução comunista dirige-se contra a espécie de
actividade actual, elimina o trabalho (!) […]" (Deutsche
ideologie, p. 71: grifos de Marx/Engels).
Dessa concepção aparentemente
monstruosa resulta uma exigência não menos monstruosa ao
"proletariado": "Portanto, enquanto os servos
fugitivos queriam apenas desenvolver livremente e fazer valer
suas condições de existência já presentes, chegando assim, em
última instância, somente ao trabalho livre, os proletários,
para se fazer valer como pessoas, têm de superar a sua
condição de existência actual, que é ao mesmo tempo a de toda
a sociedade: o trabalho" (op; cit.. p. 79). Como e
óbvio, os proletários de modo algum prestaram esse favor a
Marx. O horizonte do anseio deles de "se fazer valer como
pessoas" era o horizonte histórico do desenvolvimento do
próprio "trabalho". Marx cai numa ilusão óptica que
aqui e acolá foi fatal também a outros teóricos da modernidade
(a Kant por exemplo) e que sempre turvou os olhos da ideologia
marxista: o historicamente novo, manifestado justamente apenas em
estado embrionário e que em sua manifestação precoce pode ser
apreendido logicamente, é tomado como já "pronto",
sem se notar que a exposição e extrapolação lógicas
antecipam em curto-circuito um desenvolvimento histórico geral,
cuja efectiva marcha social percorre vários estágios,
obviamente com muito mais vagar e sinuosidades do que a carreira
rápida e directa do pensamento teórico. De facto, as
condições de existência do "proletariado" ainda se
baseavam profundamente em estruturas pré-modernas só
superficialmente desagregadas, e foram necessárias as lutas de
mais de um século para que o sistema do "trabalho"
atingisse o seu estágio maduro.
Superar o "trabalho",
querer de facto "eliminá-lo", tal tema suspeito do
sempre surpreendente patriarca teórico tinha portanto de
contrariar os epígonos marxistas profundamente arraigados ao
fetichismo do trabalho. Desde a publicação da Ideologia
alemã os ideólogos dos mais diversos marxismos tentaram
torcer a interpretação destes "trechos" escandalosos:
Marx há-de ter esquecido algum adjectivo, talvez quisesse dizer
"trabalho assalariado" ou trabalho definido pelo
capitalismo, etc. Por outras palavras: ele não podia ter querido
dizer o que disse. E, de facto, essas declarações suspeitas
estão incidentalmente entremeadas, mas não ofensivamentc
elaboradas, pois a polémica com o idealismo alemão e as
ideologias dos primeiros socialistas que o seguiram tem como
objectivo algo inteiramente diverso. Na contraditória teoria de
Marx, o marxismo preferiu assim agarrar-se àquelas asserções
que soam inequivocamente fundadas na ontologia do trabalho:
"Como formador de valores de uso - como trabalho útil - o
trabalho é[. ..] uma condição de existência do homem
independente de todas as formas sociais, uma eterna necessidade
natural para mediar o metabolismo entre o homem e a natureza e
portanto a vida humana" (Kapital, vol. I. p 57)
Todavia, nem mesmo tal
declaração é plenamente compatível com a ontologia marxista
do trabalho. Embora aqui, vinte anos após a Ideologia alemã,
Marx não fale mais de uma superação e eliminação do
"trabalho" e de facto ontologize essa categoria como a
reiteradamente citada "eterna necessidade natural" ele,
diferentemente do marxismo, não a equipara directamente, ao
"processo de metabolismo com a natureza". Antes cabe a
ela somente "mediá-lo". Talvez, pode-se depreender,
esta eterna necessidade antropológica seja então meramente o
"processo de metabolismo com a natureza", ao passo que
a "mediação" desse processo está submetida às
mudanças históricas, e o "trabalho" representa com
isso apenas uma determinada forma de mediação histórica que
não é compulsória nem para todo passado nem para todo futuro.
Marx não tira essa conclusão: ele sente perfeitamente que uma
ruptura com a ontologia do trabalho não está madura e que o
grande movimento histórico ao qual se sente obrigado - o
movimento operário - ainda é incapaz de saltar por sobre estas
sombras.
Numa outra perspectiva, o Marx
"esotérico" permanece sem dúvida rigoroso face ao
marxismo. Jamais ele pôde livrar-se da ideia de que a
superação do modo de produção capitalista tinha de ser
idêntica a uma superação da forma da mercadoria social, ou
seja, a uma suplantação da relação monetária fetichista. O
marxismo sempre considerou essa demarche de seu grande
mestre com desconfiança e repúdio, subterfúgios e paliativos.
Embora a superação da relação mercadoria-dinheiro (mas não a
superação do "trabalho") pudesse, como disse, ser
perfeitamente "pensada"; precisamente por isso ela não
o era como um problema sério ou mesmo prático, mas no máximo,
como um alvo abstracto e filosófico muito além da revolução
"socialista" ou "proletária". É mesmo de se
notar que a tematização desse problema coube antes aos
primórdios do marxismo, ao passo que, com a crescente
experiência histórica do movimento operário, empalideceu cada
vez mais até desaparecer por completo, culminando num aberto
repúdio à ideia. As débeis concepções actuais de uma
"economia de mercado socialista" são pouco mais que os
resíduos desse processo ideológico de enfraquecimento e
diluição.
Aqui fica patente uma peculiar
limitação do problema histórico do desenvolvimento. Marx
queria, contra o marxismo, irmanar uma (hesitante) ontologia do
trabalho com uma superação da forma da mercadoria, isto é, do
dinheiro. Naquela forma esotérica, que indica um futuro ainda
por vir, ele tinha mais razão que o marxismo. Mas sua
argumentação é paradoxal, pois "trabalho" e forma da
mercadoria/dinheiro são apenas modos de representação ou
formas de expressão sociais diversas de algo idêntico. O
marxismo tinha entretanto mais razão que Marx, sob uma forma
historicamente limitada e "realista", por levar em
conta essa identidade, embora com isso tenha demonstrado sua
imanência capitalista.
Nas formas tanto do movimento
operário ocidental quanto do socialismo estatal do leste e dos
nacionalismos libertadores do sul, além da imposição do
"trabalho", como consequência lógica, o marxismo
insistiu portanto na continuação da forma do dinheiro e do
salário em dinheiro. Ora, desse modo a própria forma do capital
da reprodução da sociedade como tal permaneceu fora da crítica
teórica e prática. No fundo, o capitalismo não devia ser
substituído por meio de uma suplantação da própria forma do
capital, o que seria idêntico a uma superação do
"trabalho" e da mediação total do dinheiro, mas
unicamente por meio da sua estatização. Mas a tentativa de
submeter as categorias funcionais insuperadas do
"trabalho" ao comando estatal podia somente ganhar uma
racionalidade temporária e sempre precária, sob as condições
da "modernização retardatária", para afinal
despedaçar-se no contacto com o mercado mundial.
O duplo conceito de trabalho
abstracto e a separação social das esferas
Para Marx, o dilema imanente de
sua "dupla" argumentação, justamente no que respeita
ao conceito de trabalho, há-de ter estado sempre presente como
um espinho a verrumar, ainda que ele (patriarca e irascível que
era) jamais o tenha querido confessar. A uma consideração mais
próxima de seu trato com esse problema quase inapreensivelmente
cambiante, revela-se que ele por assim dizer defraudou a si mesmo
com um truque conceptual para remediar o dilema. Pois, na
verdade, o conceito de "trabalho" sem qualquer atributo
(e portanto a abstracção "trabalho") já é o
conceito da actividade produtiva produtora de mercadorias. A
parte do chamado valor de uso dessa actividade só pode ser o
reverso da mesma abstracção social da realidade, isto é, o
modo pelo qual essa abstracção social se apodera da matéria
sensível e a submete à sua forma. O "duplo carácter do
trabalho" (Marx) não tem ancora ontológica: ele é, de
acordo com sua essência, o duplo caracter das relações
produtoras de mercadorias. Ora, Marx faz da parte sensível e
material do "trabalho" (e com isso do "valor de
uso", que representa apenas a parte sensível e material da
mesma abstracção do valor) um conceito ontológico que deve ser
justamente aquela "eterna necessidade natural". Com
isso ele se compatibiliza com a imagem necessária e imanente que
o movimento operário faz de si mesmo.
A fim porém de salvar seu
projecto transcendente, Marx duplica mais uma vez de maneira
atributiva o conceito em si abstracto do trabalho, ao delimitar o
"trabalho" produtor de mercadorias especificamente
histórico do "trabalho" ontológico. O famoso conceito
de trabalho abstracto que daí surge é na verdade uma
expressão estranha, uma duplicação retórica, como se
falássemos de um "verde abstracto", visto que a
definição de algo como "verde" já é em si uma
abstracção. Marx por assim dizer rasga em dois a abstracção
real: sua forma seria historicamente limitada, sua substância ou
seu conteúdo seria ontológico. Assim temos, portanto, o
"trabalho" como eterna necessidade natural e o
"trabalho abstracto" como determinação histórica do
sistema produtor de mercadorias. Marx prolonga por um lado a
abstracção real decalcada na forma da mercadoria rumo ao
ontológico e, de outro, tenciona salvar-lhe o carácter
histórico e, desse modo, a sua superação. O marxismo do
movimento operário teve pouco a fazer com o conceito de
"trabalho abstracto" e não o mobilizou criticamente;
em vez disso, preferiu prender-se ao conceito ontológico de
trabalho (enobrecido "conforme o valor de uso"), a fim
de legitimar-se de forma histórico-filosófica.
Tal bipartição acha-se novamente
na determinação daquilo que afinal é realmente abstracto no
trabalho abstracto. Marx a desenvolve principalmente numa única
direcção - a direcção da forma: como abstracção real
"do" conteúdo material, como indiferença ao momento
sensível, representada pela forma do valor e seu desdobramento
no dinheiro, a coisa "realmente abstracta". Não resta
dúvida de que isso é de grande relevância. Mas o
"trabalho" produtor de mercadorias é também
"realmente abstracto" em um segundo sentido, que Marx
não desenvolve sistematicamente: em sua existência como uma esfera
diferenciada, separada de outras esferas como a cultura, a
política, a religião, a sexualidade etc., ou, noutro plano,
separada igualmente do "tempo livre" (ecos desse
problema encontram-se com mais profusão no Marx dos escritos de
juventude e em parte nos Grundrisse; mas o tema central
formulado por Marx em sua Crítica da economia política é
sempre o momento da abstracção da forma e não o momento da
separação das esferas).
Porém o desdobramento e enfim a
total libertação da abstracção da forma na modernidade só é
possível pelo facto de o "trabalho" ser diferenciado
como esfera separada e "realmente abstracta", de ser
separado do resto do processo vital - pelo facto, portanto, de o
homem produtor de mercadorias "desconsiderar"
(abstrair) não só a qualidade sensível de seus objectos, mas
simultaneamente, no e em vista do "trabalho", os outros
momentos da vida, cristalizados em esferas funcionais para além
do "trabalho". Tal separação é a base de toda
"separação moderna de esferas", esta
"diferenciação" das sociedades modernas, assunto
perpétuo (e naturalmente em tom afirmativo) da sociologia e da
teoria dos sistemas.
Esse problema, além do mais,
coincide na essência com o problema da moderna relação
entre os sexos. A razão mais profunda para tal
diferenciação do e pelo "trabalho" das esferas
separadas é a "dissociação" sexualmente
hierarquizada dos âmbitos atribuídos à mulher, desde o
"trabalho doméstico" (não pautado pela forma da
mercadoria) até ao "amor" (inapreensível em termos
económicos); somente a partir deste fundamento, o reino do
"trabalho" dominado estruturalmente "pelo
masculino" pode dissociar-se e diferenciar-se. Este momento
no essencial sexualmente hierarquizado da diferenciação
de uma esfera real e abstracta do "trabalho" não
ocorre todavia nem em Marx e muito menos nos marxistas. Ele fala
por si próprio na "dupla socialização" das mulheres,
quando estas, a despeito da crescente actividade profissional,
permanecem presas à família ou à criação dos filhos (a
maioria esmagadora dos chamados pais solteiros são mulheres) e
quando as actividades femininas na esfera salarial são muitas
vezes mais mal avaliadas ou remuneradas.
No curso do processo de
modernização, esta relação estrutural sexualmente
hierarquizada foi repetidamente quebrada, sem jamais ser
superada; isso também só seria possível em conjunto com uma
superação da forma da mercadoria social. Se no passado as
mulheres eram economicamente activas, ou seja, mergulhavam na
esfera diferenciada do "trabalho" abstracto, lá elas
eram percebidas de certa maneira como "corpos
estranhos", pois a sua "verdadeira" competência
era sempre impelida às actividades dissociadas do lar e do
"amor". Semelhantes tendências permanecem ainda hoje
vigentes, como revela o debate social na crise dos últimos anos
("regresso à família" etc.). Ao mesmo tempo, as
mulheres têm de assumir traços característicos do
"masculino" no interior da própria esfera do
"trabalho", cindindo-se portanto de certa forma
psico-socialmente - um indício de que aqui não estamos às
voltas com dados fundados biologicamente, mas com imputações
históricas, da forma como elas surgiram na diferenciação entre
o "trabalho" e o processo vital na modernidade.
Só esta dissociação básica do
"trabalho" e dos momentos da vida definidos como
"femininos" torna o primeiro uma esfera peculiar da
"abstracção real" (manifestando-se historicamente
como processo de dissolução de "todos os lares"). E
só com base nessa separação elementar das esferas pode por sua
vez o reino do "trabalho" abstracto dominado
"pelos homens" seguir em sua diferenciação interna e
apartar de si novas esferas separadas, como a
"política", a "arte e cultura" etc. Todo
esse processo de diferenciação das esferas funcionais separadas
que tem origem na "abstracção real" constitui a
diferença decisiva entre a modernidade e a pré-modernidade. As
sociedades pré-modernas tinham obviamente um "processo de
metabolismo com a natureza", mas não uma esfera
diferenciada do "trabalho"; e mesmo quando produziam
mercadorias, essa produção era entretecida com os demais
momentos (religião, tradição, estruturas consanguíneas e
"comunitárias" etc. ). Sob tais relações, é
absolutamente impossível existir uma clara separação entre
"trabalho" e "tempo livre". O problema
refere-se portanto não simplesmente à capacidade perceptiva ou
compreensiva dos homens pré-modernos a respeito de algo que,
embora "tivessem tido" em si (como propõe o dogma do
conceito ontológico do trabalho), não tivessem podido saber,
mas antes a suas relações reais: eles tampouco
"tinham" em si o "trabalho" como esfera
social em separado. Não posso aqui alongar-me sobre os detalhes
históricos e o processo de formação do "trabalho" (e
em complemento a isso, da actividade doméstica e familiar
dissociada); como é obvio, o "trabalho" não despencou
repentinamente do céu no Renascimento ou no século XVIII.
Trata-se aqui apenas de claras distinções analíticas.
Que Marx descuide do carácter
realmente abstracto do "trabalho" como uma esfera
separada e diferenciada, que esse momento apareça antes
implícito em sua obra e ele desenvolva e formule na essência
apenas a abstracção real da forma, tem naturalmente algo a ver
com a sua duplicação do "trabalho" em um conceito
histórico e outro ontológico. A determinação ontológica do
"trabalho" como substância ou conteúdo na parte do
valor de uso da abstracção do valor, assim como a ideia
teórico-revolucionária a ela vinculada de que a "classe
operária" (pensada, no fundo, simplesmente como
"masculina") deveria apoderar-se do "valor de
uso", mantém intocado o trabalho como esfera peculiar e
separada, ao menos em relação às esferas dissociadas definidas
como "femininas". E como a formação dessa esfera na
história representa ao mesmo tempo a formação da imagem que o
homem moderno faz de si mesmo, é também o homem Marx que
aqui encontra limitações em sua própria forma de consciência
patriarcalmente estruturada.
A superação do trabalho
A formação do
"trabalho" é tanto destrutiva como progressista; seu
carácter emancipatório não pode ser desconsiderado, para não
se capitular a um romantismo cru e retrógrado. Entretanto, ele
é apenas um estágio transitório e tem de ser superado.
Consequentemente, a superação do "trabalho" significa
a sua superação em vista de ambos os momentos da abstracção
real, vale dizer, a superação como abstracção da forma e a
superação como esfera separada (que seria então a superação
do "valor de uso"). Aqui Marx bloqueia novamente a si
próprio, pois só é capaz de pensar a superação pela metade e
ontologiza o "trabalho" como esfera separada e em
última instância sexual-hierárquico-identitária; ou melhor,
tal ontologização obstrui sistematicamente o caminho da ideia
implícita e tremeluzente de superar a separação das esferas.
De facto, a fixação ao
"duplo carácter do trabalho", no qual a pretensa
libertação do valor de uso aparece como alavanca ontológica (e
a "classe operária" como portadora subjetivo-objetiva
da superação, e não como categoria funcional imanente),
obscurece a vista para o momento da separação das esferas, cujo
cerne sexualmente hierarquizado é consequentemente banido de
forma "logico-dedutiva" para um plano secundário (isto
se for mencionado). Com uma compreensão coerente da
problemática da separação das esferas e pensando a superação
a partir desse momento, que só então possibilita a superação
da própria abstracção da forma, também este último como tal,
junto logicamente com a esfera diferenciada "trabalho",
se torna então objecto de superação, já que o seu conceito
depende desse carácter como esfera singular e em conjunto com
ele se ergue e cai. E assim, necessariamente, todo o aparato
ontológico ruiria por terra, inclusive as identidades sexuais
compulsórias a ele vinculadas (entre elas, a própria
orientação heterossexual compulsória).
O problema da superação a partir
de um conceito de trabalho que se limita ao antagonismo
(estruturado pela hierarquia sexual e imanente à lógica da
mercadoria) entre substância do valor de uso
("eterna") e forma ("histórica"),
ramifica-se por sua vez em duas vertentes argumentativas a que
Marx alude somente "em trechos" que foram mobilizadas a
gosto pelos marxistas. Ambas as vertentes deixam-se representar
em formas por assim dizer típico-ideais. Por um lado
desenvolve-se a ideia de que o "trabalho", liberto de
sua forma real e abstracta, tornar-se-ia na sociedade socialista
do futuro um "trabalho atractivo", "primeira
necessidade vital" positiva. Ainda que hoje os discursos mal
se reportem a Marx, tal ideia sempre volta à tona sob as mais
diversas roupagens. Em termos tipológicos, pode-se dizer que por
ela se entusiasma sobretudo o homem "artístico", o
qual (por não querer abrir mão de si como "homem" em
sentido psicossocial e sexual-hierárquico) descobre o seu lado
"feminino"; antes consagrado a uma existência boémia
periférica, hoje ele é encontrado com mais frequência na
"sociedade vivenciada" do capitalismo de casino. Para
esse trabalhador-artista, a mulher permanece em última
instância, todavia, objecto e natureza. Ele se aproxima ao
máximo do problema da superação, porém de um modo
paradoxalmente enviesado, de modo que a "superação"
na verdade é impossível ocorrer e manifesta-se apenas na forma
de um enobrecimento atributivo do "trabalho".
A inflação capitalista do
conceito de trabalho (trabalho de relacionamento, trabalho de
luto, etc.) é portanto assimilada positivamente:
"trabalho" há-de se tornar arte, deleite etc. O
"trabalho", tornado insuperável como determinação
ontológica, só deve com isso ser "superado" em sua
forma capitalista na medida em que for generalizado e totalizado
sob influxo dos momentos artísticos e científicos, para
justamente assim tornar-se "atractivo". Apenas nesse
sentido francamente pérfido lampeja uma superação da
separação das esferas - não como uma nova reintegração do
"trabalho" a graus superiores de desenvolvimento no
processo vital da sociedade humana, mas inversamente como sua
definitiva usurpação da totalidade da vida, obviamente sem
tocar no assunto do sombrio continente dissociado da reprodução
e definido como "feminino", cuja existência fatal se
opõe a esse aparato de totalização do fetichismo do trabalho.
Não se nega a identidade do trabalho patriarcal e ocidental como
um todo, mas apenas a evidente forma aviltada do produtor directo
e explorado pelo capitalismo: a todos os homens-trabalhadores
cumpre o direito de transformarem-se super-homens-trabalhadores.
Em lugar do momento negativo de uma superação do trabalho como
tal, a momento de um "despertar substancial" do
trabalho: libertar o trabalho em vez de libertar do trabalho.
Por outro lado, desenvolve-se a
noção de que o "trabalho" na sociedade socialista do
futuro restaria como uma espécie de resíduo da
"necessidade", ou precisamente como o célebre
"reino da necessidade", sobre o qual se poderia então
erigir um "reino da liberdade" para além do
"trabalho". Eis aqui, subitamente, não uma ontologia
positiva do trabalho, mas negativa - a eterna necessidade natural
do momento de sofrimento psíquico e social no mundo do
trabalho, que pode ser reduzido, mas não superado. Aqui se
manifesta a imagem patriarcal e "masculina" que a
modernidade faz de si mesma como apego a esse momento de
sofrimento - imagem que por assim dizer lança mão do
"herói do trabalho" (em analogia ao príncipe cristão
supliciado) para simultaneamente compensá-lo com o
"reino" fantasmático para além do
"trabalho", no qual o "tempo livre" habitual
e igualmente sublimado numa espécie de superactividade heróica
(no fundo, portanto, o "trabalho" não é de modo algum
superado, mas prolongado sob outra forma). Sobretudo o tipo do
"fazedor", o homem de feições impassíveis, o homo
faber, o tecnocrata ou cientista é capaz de por ele
"entusiasmar-se" seria dizer muito, pois as suas
emoções são cozidas em lume brando; ele possui aproximadamente
a emotividade de uma calculadora de bolso.
Um conceito de
"trabalho" como jogo ou arte é contestado com suspeita
por esse tipo (que se encontrava aos montes no antigo movimento
operário), e talvez precisamente por isso ele estaria plenamente
disposto a "definir" o "reino da liberdade"
como um além do "trabalho", muito embora naquele
sentido enviesado de seu livre prolongamento para além da
rígida "necessidade". Mas este é menos o seu reino,
ainda que a sua relação com ele guarde certa cortesia; na
medida em que se imagina a si próprio neste reino, isto ocorre
antes num sentido tradicionalmente ligado à burguesia culta
(como generalização do sarau, da visita ao museu etc. )
ou, por outro lado, como o eterno ethos protestante do
constante inventar, compor, construir, pintar etc. Seu verdadeiro
alfa e ómega, mesmo que ele não seja capaz de confessá-lo, é
e permanece a bem dizer o reino da necessidade, o prazer da
submissão ao momento do suplício abstractamente dissecado, a
título de (pretenso) "herói da necessidade". O
"reino da necessidade" tem portanto de perdurar até ao
último dos dias. Aqui não é sem importância a imputabilidade
individual, porém menos como orgulho profissional enobrecido do
que num árido sentido técnico e contabilístico: "a cada
um segundo a sua produção". O espirito sóbrio e
calculista da classe média em luta por remediar-se, que é
adversa a todo o excesso inútil, exige uma violenta
"contabilidade social" e um cálculo produtivo que a
ninguém concede um pedaço de pão a mais.
Também em Marx emergem ambos os
momentos dessa ideia de "superação" redutora da
ontologia do trabalho (que são complementares, embora também
possam perfeitamente surgir em contradição mútua), sem que
sejam, como foi dito, formulados sistematicamente. Ambos
conceitos de superação não chegam fundamentalmente até ao
problema de uma superação do "trabalho" como esfera
separada, e o problema da dissociação sexualmente hierarquizada
permanece necessariamente nesse contexto totalmente "sem
mediação". A ideia do "trabalho atractivo"
poderia meramente enriquecer a actividade remunerada com os
elementos do trabalho "elevado" do artista, teórico
etc. Ou seja, o eterno fascínio do artista renascentista, a
excelência da ultrapretensão "masculina": cada homem
um pequeno Leonardo da Vinci, a um tempo cientista genial,
filósofo profundo, pintor agraciado e, se possível, talvez
ainda decatleta. Esta imaginação, que resulta do
"trabalho" abstracto como tal, permanece efectiva ainda
quando as mulheres adoptam "carreiras" próprias no
universo do "trabalho" dominado "pelos
homens". Nesse universo insuperado e enobrecido, a
"igualdade de direitos" pode perfeitamente ser
imaginada de modo formal e em curto-circuito, à revelia dos
âmbitos e momentos dissociados igualmente insuperados (que se
fazem notar, é claro, de maneira dolorosa na realidade).
Essa imaginação falsa,
patriarcal e burguesa do nobre supertrabalhador do futuro
esquece-se completamente de que a "atracção" da
actividade não reside no refinamento ou no douramento do
arbítrio masculino (e tampouco na magnânima recepção das
"mulheres" nesse fajutado paraíso masculino do
trabalho), mas precisamente na sua superação, na superação de
uma forma humana mutuamente exclusiva. O essencial não é apenas
o enaltecimento exigente da actividade directa, mas a produção
de relações humanas satisfatórias em todas as actividades - e
isso implica a reintegração das esferas "dissociadas"
num grau mais elevado de desenvolvimento: o desenvolvimento de
uma cultura na qual a produção social e a sexualidade estão
tão pouco separadas quanto a "liberdade" e a
"necessidade", a filosofia e o quotidiano etc. (e na
qual desenvolve-se também uma outra relação natural, em que a
natureza não é reduzida a uma objectividade morta do
"trabalho" autoglorificado como "masculino").
Logo que o "trabalho" desapareça como esfera separada,
ele será superado como tal.
Bases para tais ideias
encontram-se em primeiro lugar na história do tipo artístico,
ou seja, na primeira variante falsa de superação, na qual o
"trabalho" deve tornar-se "atractivo" como
jogo e arte, deixando na verdade de ser "trabalho",
isto é, uma esfera separada da "abstracção real".
Esse projecto surgiu num primeiro momento do Romantismo, que de
modo algum se resolve no mero "irracionalismo". Entre
os utopistas foi Fourier quem quis por assim dizer erotizar o
"trabalho", mas não como "erotismo do
sofrimento", e sim num sentido inteiramente hedonista para
ambos os sexos. Certamente não é por acaso que tanto nos
primeiros românticos como também em Fourier a emancipação da
mulher tenha desempenhado um papel incomparavelmente maior do que
nas demais teorias e correntes suas contemporâneas. Sem dúvida,
a pesquisa feminista teve entretanto de verter um pouco de
vinagre neste vinho, ao apontar a relação truncada dos
primeiros românticos com o que se considerava
"feminino". A qualidade deficiente da superação desse
pensamento (historicamente limitada) corresponde à insistência
no conceito de trabalho. Fourier, embora é claro muito inferior
a Marx em termos teóricos e analíticos, precisamente neste
ponto, com sua variante do "trabalho atractivo" (que
mesclado ao jogo, erotismo etc. na verdade já não é mais um
"trabalho"), aproxima-se mais do que Marx da
superação das esferas separadas, embora tampouco ele transponha
o limiar decisivo (em sua obra, os momentos protestante e
hedonista estão inextricavelmente entrelaçados, o que aparece
muitas vezes na forma de pensamentos e fantasias em desalinho).
Marx opõe-se expressamente, de
novo à maneira "protestante", ao projecto de
superação em larga medida ainda obscuro de Fourier. "O
trabalho não pode tornar-se jogo, como quer Fourier, cujo grande
mérito é ter explicitado como ultimate object a
superação não da distribuição, mas do próprio modo de
produção em forma mais elevada" (Grundrisse, p.
599). Ora, aqui seria adequado desenvolver o pensamento de
Fourier envolto em metáforas no sentido de uma superação do
cisma entre "labor" e prazer, entre activismo e
contemplação, e assim de uma superação do próprio
"trabalho". Marx, que de resto era capaz de descobrir e
assimilar tão bem e compreensivamente o carácter
"genial" dos utopistas, trai-se ao tropeçar no
conceito de "jogo", que ele logo rechaça num assunto
tão (protestantemente) sério quanto o "trabalho".
Assim também se dá cabo da
segunda ideia redutora da superação, decalcada na ontologia do
trabalho. Pois o "reino da necessidade" não é de modo
algum minimizado somente por progressos tecnológicos, enquanto
permanecer "em si" insuperável, mas só é realmente
superado pelo facto de os momentos da "necessidade", o
suposto resíduo do "labor", perderem novamente a sua
existência singular separada, historicamente criada, nos graus
superiores de desenvolvimento. No contexto de uma cultura não
mais fixada na ontologia do trabalho e com relações sociais e
sexuais satisfatórias, até mesmo as actividades separadas
(encerradas numa esfera à parte abstracctizada, seja o
"trabalho" doméstico do amor, seja o
"trabalho" público do êxito), que no sentido antigo
não passariam de "labor", podem ser
"atractivas". O homem convencido, que vê amanhecer uma
sociedade futura do "trabalho atractivo" de autênticos
superartistas e supercientistas, gostaria talvez de abandonar as
fraldas sujas eternamente à "natureza feminina". Ou
será que ele espera uma máquina limpa-merda cem por cento
automática ?
A minimização do momento de
sofrimento na reprodução social por meio do potencial de
desenvolvimento das forças produtivas (que aparece na forma
invertida capitalista) é e permanece importante para a
superação do "trabalho". Entretanto, a redução da
ideia de superação a esse momento seria inadmissível, e é
justificada a censura de que semelhante redução tolera um
fetichismo tecnicista e cientificamente crédulo nas forças
produtivas, ele próprio fruto do universo do
"trabalho". Um hedonismo simplesmente abstracto (e
irresponsável) que pode resultar de uma tal redução já se
encontra hoje massificado como fetichismo de consumo imanente ao
capitalismo e representa apenas o reverso do fetichismo da força
produtiva. Trata-se de uma negação meramente abstracta e sem
mediação do "trabalho", a qual não por acaso gira em
falso ao redor do problema da superação da forma da mercadoria
e do dinheiro e por ora só pode manter-se por meio das
excrescências monetárias do "capital fictício" numas
poucas ilhas de riqueza do mundo. Uma superação efectiva do
"trabalho" não pode restringir-se a pressupostos
tecnológicos. A microeletrónica não supera de modo directo e
como tal o "trabalho"; antes, o problema decisivo é a
superação das formas humanas de relacionamento, do modo como
foram implementadas historicamente, pelo sistema do
"trabalho".
Dessa superação humana mediada,
reflectida em si (e não meramente tecnológica), consta
sobretudo a percepção de que não é possível nem desejável
automatizar tecnologicamente todas as actividades produtivas e
muito menos fazer desaparecer até mesmo as próprias relações
humanas no aparato tecnológico (ou seja, "superação"
numa espécie de mundo cibernético: uma visão pavorosa que só
faz prolongar até ao grotesco o isolamento capitalista dos
indivíduos abstractos). Dela consta também a percepção de que
não se trata apenas de uma superação que liberta o activismo
(ocidental) da sua forma abstracta, mas também da libertação
desse próprio activismo incessante e compulsório, que é
igualmente um genuíno rebento do universo moderno do
"trabalho". O momento de crise e de transformação do
desenvolvimento das forças produtivas que remete para além do
"trabalho" só conduz à superação do
"trabalho" quando este for superado como esfera
separada e a índole das formas humanas de relacionamento for
igualmente transformada na microesfera.
Não será por meio de
super-homens malucos e arrivistas que têm de si a imagem de
semilunáticos que se superará a socialização pelo valor, mas
por meio de pessoas absolutamente comuns, que levam sua vida
absolutamente comum em conjunto com outras e querem estender seus
pensamentos sobre o mundo, sem ser continuamente cerceados por
exigências, ordens e pretensões abstractas, sem ter
constantemente de se pôr à prova e de se auto-afirmar. O reino
da necessidade será antes de tudo superado pelo facto de se
superar a dissociação social e sexualmente hierarquizada com
todas as suas atribuições compulsórias. Para tanto é preciso
um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas,
que hoje há muito foi alcançado e ultrapassado. Ora, o reino da
necessidade não desaparece imediatamente, pela mera
minimização do "dispêndio de trabalho" humano, mas
só mediado pela reintegração dos âmbitos dissociados -
possibilitada em virtude desse desenvolvimento da produtividade -
ao nível superior da socialização e das necessidades.
Esse problema aparece sem duvida
de modo muitas vezes distorcido e redutor até mesmo no debate
actual dos sindicatos, no qual se critica o apego à luta
salarial ou empresarial imanente ao sistema (e não mais
prolongável na crise) e se exige a inclusão de outros âmbitos
(escola, infantário, problemas do bairro etc.). No horizonte de
Marx, essa integração (como "educação
politécnica", por exemplo) ainda é pensada inequivocamente
a partir do universo do trabalho, no qual os momentos da vida
dissociados de forma sexualmente específica devem ser na melhor
das hipóteses absorvidos mecanicamente (o que na prática é de
todo impossível).
O fim do desvario produtivo
Hoje contudo também se pode fazer
a crítica imanente do discurso da "economia das horas de
trabalho" do chamado reino da necessidade. Aqui novamente
desempenham um papel decisivo a revolução microeletrónica e
suas consequências, pois o desenvolvimento das forças
produtivas e a crise da "sociedade do trabalho" hoje
palpável levaram ao absurdo o reino da necessidade dentro do
próprio processo capitalista, no cru sentido tecnocrático da
imputabilidade produtiva. O importante hoje não é mais a
produção individual ou "empresarial" e a sua
imputação, mas o controle social do emprego cientifico e
tecnológico de recursos que há muito se autonomizou, e esse
facto contradiz frontalmente não só a racionalidade económica
e empresarial, mas também o seu prolongamento
"socialista". Marx não podia imaginar que o lema
"de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo a
sua produção" tornar-se-ia obsoleto já sob o umbral de
seu "socialismo". Também por isso ele promoveu sua
bipartição em necessidade e liberdade, bem como em grau
"inferior" e "superior" do comunismo. Para
ele, a transformação do próprio capitalismo era ainda uma
questão "dentro" do horizonte da sociedade do
trabalho. Isso corresponde à sua posição histórica real (e
portanto não há que censurá-lo), mas tal horizonte já está
hoje objectivamente ultrapassado.
Com isso, também uma outra
bipartição se torna compreensível em Marx. Na Crítica ao
Programa de Gotha ele fala por um lado que na fase
"inferior" do comunismo não poderia ocorrer mais
"nenhuma troca" (nenhuma troca de mercadorias); por
outro lado, contudo, em referência aos "sinais de nascença
da antiga sociedade", ele diz que o balanço e a
imputabilidade da produção individual teriam de permanecer
activos por determinado tempo. E, num outro trecho, o assunto é
a subsistência da "determinação do valor" no sentido
de um cálculo social do tempo de trabalho: todos
"trechos", aos quais o marxismo se reportou com grande
zelo legitimatório fundamentado na ontologia do trabalho.
Aqui já se torna visível que
Marx cai em contradição em virtude de sua posição histórica
de transição entre a teoria imanente da modernização e a da
superação transcendente. Embora na pura teoria seja imaginável
que se possa hoje, com um gasto gigantesco de tempo de cálculo
por meio de computadores, obter a estimativa directa do tempo de
trabalho, o problema, pelo facto mesmo dessa possibilidade (ou
seja, pelo grau de cientiticização), tornou-se ironicamente sem
objecto. Se não é mais o consumo da força de trabalho humana
abstracta que sustenta a reprodução daquilo que é necessário,
antes pelo contrario, sendo preciso cortar mais e mais o
"trabalho" supérfluo e nocivo à comunidade, então um
"cálculo do tempo de trabalho" social torna-se
absurdo.
No passado, quando o horizonte da
"sociedade do trabalho" ainda não fora ultrapassado, o
postulado de um cálculo "directo" do (valor do)
trabalho, liberto da abstracção da forma do valor, tinha de
permanecer uma precária utopia (ainda que Schumpeter o tomasse
como logicamente possível). Enquanto o consumo de força de
trabalho humana preenchia o horizonte da reprodução social, o
gigantesco modulo contabilístico só pôde ser pensado na forma
de uma burocracia contabilística e repartida igualmente
gigantesca, e portanto estatal. O "estalinismo"
absorveu esta ideia, mas de modo algum lhe correspondeu, pois a
União Soviética foi muito rapidamente obrigada a bandear-se
para a forma do valor e, assim, para a mediação monetária. Com
toda a razão, a utopia do cálculo directo do tempo de trabalho
desvaneceu-se; a ontologia do trabalho acarreta consequentemente,
e de acordo também com a forma, a ontologia do valor (da forma
da mercadoria social). O problema deve ser posto de modo
totalmente diverso sob as condições actuais, para além do
"trabalho" e só então para além do valor, isto e,
para além do desvario produtivo abstracto da modernidade, que se
tornou um fim em si mesmo.
Aqui posso apenas abordar
brevemente as demais consequências. Como uma ontologia da
relação entre os sexos fundada "nas ciências
naturais" corresponde a uma ontologia do
"trabalho" e esta desemboca forçosamente numa
ontologia do valor (ou mesmo num "cálculo directo do tempo
de trabalho"), disso resulta também uma ontologia do
sujeito (isto e, do conjunto de conhecimentos e acções pautados
pela forma da mercadoria) e uma teoria da crise redutora e
limitada. O marxismo do movimento operário agarra-se com unhas e
dentes ao conceito iluminista de sujeito, do qual ele não é
mais que a "segunda transição"; e como ele não quer
superar o "trabalho" nem o valor, se é certo que ele
quer "libertar" o "sujeito do trabalho", que
se opõe a uma natureza científico-naturalmente objectivada, a
verdade é que pouco o liberta. E em razão de tudo isso, eis por
que o capital não "pode" em seu processo histórico
conduzir ad absurdum o "trabalho" e portanto a
si mesmo, e desde logo nunca "nas costas" de todos os
envolvidos.
Por trás da crítica em parte
condescendente em parte raivosa à teoria do limite absoluto do
capital (ou à prognose de que tal limite terá sido alcançado
sob nossos olhos) não se ergue simplesmente esta ou aquela
objecção empírica, mas antes o principio marxista de que não
pode ser o que não se permite, ou seja, uma figuração
profundamente ideológica. "O capital" tem de
permanecer em si eternamente (ou ao menos ainda por
"séculos") capaz de explorar, primeiro para que com
ele o terreno histórico do "trabalho" não seja
abandonado e a sua ontologia tornada falsa, e, segundo, para que
o "sujeito do trabalho" possa alçar-se à
autoconvencida autolibertação e não tenha de desaparecer no
inferno da história juntamente com o próprio
"capital" (como cujo momento imanente ele seria então
desmascarado). Daí vem o ódio à teoria do colapso.
Para uma consciência
pós-marxista, a qual ainda cabe firmar-se como social, a
libertação do Marx "esotérico" e critico do
fetichismo do seu duplo "exotérico" coincide pelo
contrário com a teoria de um limite absoluto do capital
globalizado, com a superação do valor-mercadoria-dinheiro, com
a superação da relação entre os sexos constituída pelo
fetichismo da mercadoria e com a superação do
"trabalho" em todos os seus avatares. O resultado seria
uma superação da separação de esferas diferenciada da
sociedade moderna, na qual o indivíduo é apenas o ponto de
intersecção de inúmeros momentos funcionais, sendo justamente
por isso abstracto. Só aqui reside o princípio para uma
superação da teoria de Marx no seu próprio espírito.
(1)Referência a Bad Godesberg,
cidade onde o SPD, partido social-democrata alemão, consagrou
entre 13 e 15/11/1959 o manifesto chamado Godesberger
Grundsatzprogramm, em que praticamente se abandonava o
socialismo como meta. (N. do T. )
Original
Postmarxismus
und Arbeitsfetisch. Zum historischen Widerspruch in der Marxschen Theorie em
www.exit-online.org. Publicado na
Revista KRISIS, nº 15, 1995. Versão portuguesa em http://obeco.planetaclix.pt/,
Setembro de 2003.