EXISTE VIDA
APÓS A ECONOMIA DE MERCADO?
REFLEXÕES SOBRE
A TRANSFORMAÇÃO DO SISTEMA PRODUTOR DE MERCADORIAS
Robert Kurz
Se o socialismo de Estado
consistiu na tentativa de uma sociedade pós-capitalista, então
o seu colapso faz de toda a crítica elementar do capitalismo uma
empreitada inútil, que melhor seria deixar de lado. Essa
conseqüência foi tirada pela maior parte da inteligência da
antiga Alemanha Oriental, bem como pela maioria dos críticos
sociais de esquerda do Ocidente, pelo Partido Verde etc. Muitos
deles afirmam exercer ainda a crítica do capitalismo, se bem que
apenas no horizonte do próprio modo de produção capitalista. O
problema não foi elaborado historicamente; o que se fez foi
engolir sapos e vender isso como "realismo": sem
preços "justos", rentabilidade etc., não há saída.
A capitulação incondicional ante os cegos critérios normativos
e sistêmicos do mercado rebaixa forçosamente a crítica social
a uma liga inócua de paliativos: um pouquinho de paz, um
pouquinho de compatibilidade social. Se entretanto o socialismo
de Estado foi essencialmente um projeto de "modernização
tardia" no leste e no sul do planeta, em cuja origem estão
os problemas do subdesenvolvimento capitalista, então ele era
absolutamente incapaz de formar uma sociedade pós-capitalista.
Antes, sob tais pressupostos ele refletia o problema dos
retardatários históricos no moderno sistema produtor de
mercadorias, que, na melhor das hipóteses, ainda eram incapazes
de transpor esse horizonte. Lênin, aliás, sabia disso, na
medida que isso podia ser percebido à época. Só mais tarde o
problema foi ideologizado em proveito da auto-afirmação.
1. O homem é um ser ganhador
de dinheiro?
Qual seria então a verdadeira
superação do capitalismo, agora não mais determinada pelo
problema dos retardatários históricos, mas antes pelo
superdesenvolvimento da própria economia de mercado mundial?
Seria logicamente a transformação do sistema produtor de
mercadorias num modo superior de sociabilização, sem as formas
fetichistas da mercadoria e do dinheiro. Esta era a concepção
fundamental de Marx, pela qual ele é agora qualificado de
simplório - precisamente pelos antigos representantes do
"aparato ideológico" do marxismo. Assim é que, hoje,
tanto a esquerda quanto a burguesia eternizam ideologicamente um
modo de vida e produção que, como totalização da
forma-mercadoria, constitui na verdade somente um período
ínfimo da história humana. A consciência moderna do
"ganhar dinheiro" é pura e simplesmente estilizada
como forma eterna da consciência humana. O fato de a superação
(Aufhebung) de dinheiro e mercadoria parecer um
despropósito e, por assim assim, uma quimera, além do fato de
os desdenhadores de tal ideia poderem sentir-se em tácita
concordância com a consciência das massas, revela apenas o parti
pris vinculado a um sistema de coordenadas históricas comum
que parece confundir-se com a identidade própria e no qual todos
nós fomos sociabilizados (os intelectuais em forma teórica,
inclusive). Uma crítica que toque este núcleo só não seria
efetivamente inútil sob uma condição: a sociedade mercantil
total, por meio de sua própria sistematicidade cega, estar
imersa numa crise irrevogável. É justamente a esquerda que não
quer nem ver, nem ouvir, nem falar sobre isso (os célebres
gestos dos três macacos); para tanto, evoca-se a confiança cega
na pretensa "capacidade eterna de adaptação" do
capitalismo. Mas e se a realidade estiver apoiada na ignorância
da grande coalizão de "realistas"? Quando sobrevier a
grande crise, tanto pior para o centro de produção mercantil da
"sociedade do trabalho". Dai-nos "trabalho"!,
exigem as pessoas; e a classe política, os sindicatos etc.
degladiam-se apenas sobre como fazer para criar
"empregos" e como a "posição da Alemanha"
há de ser mantida. A referência, porém, não é a simples
atividade produtiva e vital das pessoas, mas, tacitamente, a
transformação do "trabalho abstrato" (Marx) da
produção de mercadorias em dinheiro, isto é, em salário e
lucro. Há 150 anos, ninguém consideraria isso como normal. Não
só por causa dos baixos salários e das terríveis condições
de trabalho, mas porque se afigurava um tremendo desplante
ingressar às 7 ou 8 em ponto num edifício feio de dar medo e
lá "trabalhar" até à noite, num contexto que não se
define por objetivos autônomos e comuns, mas por um plano
estatal e/ou pelas leis anônimas do mercado. Mesmo dos servos e
dos escravos não se exigia todo o tempo de vida para atividades
alheias, mas só uma parte. O "trabalho", no sentido
atual (determinado por outrem em vista do dinheiro), seria tido
como uma espécie de prostituição infamante.
Pois bem, habituamo-nos a ser
prostitutas da produção mercantil e a oferecer diariamente
nosso corpo ao trabalho abstrato. A contrapartida histórica foi
uma ampliação das necessidades: veículos, turismo, máquinas
de lavar, televisores, secretárias eletrônicas. No novo
desemprego em massa, porém, cada vez mais nos é negada a
própria autoprostituição, e, naturalmente, também as
gratificações de consumo (nova pobreza). Tanto a esquerda
quanto os burgueses esperam que se trate, mais uma vez, de uma
paralisação momentânea no processo de valorização do
dinheiro, que logo um novo "modelo de acumulação"
acenará com um sorriso. Isso haverá de ocorrer, em suma, por
meio de uma elevação da produtividade. E através do que a
produção será elevada? Por meio da racionalização. Ora, os
empregos não são precisamente eliminados pela racionalização?
Algo parece em dissonância com o resto.
2. O colapso do
"trabalho"
Desde os primeiros grandes surtos
de racionalização nas fábrica de automóveis de Henry Ford no
princípio deste século, o setor mais racionalizado em sua
execução foi a própria atividade laboral humana (taylorismo,
esteira rolante etc.). Só assim os bens produzidos no mercado
foram barateados a ponto de poderem ingressar no consumo de
massas. A incipiente produção "fordista" para as
massas não precisava de menos assalariados, antes pelo
contrário; as economias de tempo nas seções de trabalho
específicas foram em muito ultrapassadas pela ampliação dos
mercados. Até meados do século XX, impôs-se dessa maneira a
"racionalidade empresarial" da economia de mercado
(antes apenas um segmento social) como forma de reprodução
total. Se até o momento o trabalho assalariado e a economia de
mercado ainda estavam impregnados de outras atividades
reprodutivas (domésticas, comunais etc.) não fundadas - pelo
menos em princípio - no dinheiro, a lógica do nexo
"trabalho"-dinheiro-consumo tomou-se, por sua vez, a
normalidade sem exceção para as massas. Desde o início dos
anos 80, entretanto, a concorrência do mercado mundial deu à
luz um novo tipo de racionalização, cujo suporte
técnico-científico é a microeletrônica. Agora, a força de
trabalho humana não é mais racionalizada dentro de sua
atividade; antes, os "empregos" são crescentemente
substituídos por robôs, sistemas guiados e pela precisão da
informática (lean production). Na exata inversão do
antigo processo, a racionalização começa a exceder de maneira
constante a ampliação (sempre ecologicamente precária) dos
mercados. Por isso estamos às voltas com um desemprego de massas
estrutural e perene, e não cíclico ou temporário. De ciclo a
ciclo, cresce o "desemprego de base", sem que se abra
nenhuma perspectiva de solução.
Esse processo de crise não é
somente social, mas também fruto da própria acumulação do
capital, pois o dinheiro nada mais "é" que a
"forma de exposição" (Darstellungsform) de
trabalho morto, e o capital nada mais "é" que o
movimento de valorização do dinheiro capitalizado. Com a
eliminação do "trabalho" pela racionalização, o
capital sorve a sua própria substância, de maneira semelhante
à nova doença surgida na Inglaterra de bactérias assassinas,
que sorvem o tecido celular. Na superfície do mercado, os
empresários se dão conta disso ao perceberem que os robôs e as
estruturas em rede não compram absolutamente nada. A
contradição absurda de um sistema que logra produzir cada vez
mais bens com menos "trabalho" - embora a apropriação
destes bens esteja ligada exclusivamente ao poder de compra
(dinheiro) e, portanto, à capacidade de consumo
"rentável" do "trabalho" - ingressa em seu
estágio maduro. O ponto crítico não será alcançado só
quando o último trabalhador produtivo em termos de capital
apagar a luz, mas obviamente muito antes, na medida que o enorme
estoque de capital não pode por muito tempo ser suficientemente
valorizado através da diminuição autoproduzida da
"substância" do capital. A transformação do
desemprego cíclico em estrutural corresponde à transformação
da "superacumulação" cíclica do capital em
superacumulação estrutural. Com isso, o sistema alcança seu
limite histórico absoluto.
3. Da crise de exportação à
administração da pobreza
Esse claro limite do sistema pôde
ser contornado no mercado mundial (sobretudo pelos países
capitalistas mais fortes) através da "exportação de
crises". A partir do início dos anos 80, a crise foi
parcialmente descarregada sobre os retardatários históricos de
capital fraco, por meio da concorrência global (preços de
importação-exportação). O socialismo de Estado e grande parte
do Terceiro Mundo foram vítimas de um colapso econômico, já
que não puderam mais acompanhar o ritmo de produtividade do
capital intensivo, embora, de acordo com sua própria forma,
tivessem de medir-se pelos critérios do sistema produtor de
mercadorias. Ora, com o empobrecimento e o isolamento forçado de
boa parte da economia mundial pautada pela forma-mercadoria, o
processo de crise estende-se agora, numa espiral cada vez mais
estreita, aos demais concorrentes.
Não importa que haja neste quadro
esta ou aquela constelação de ganhador ou perdedor: a crise
global da estrutura mantém-se a mesma. Ao fim, a acumulação de
capital teve de reduzir-se substancialmente, por assim dizer, ao
tamanho de uma tampinha de cerveja. O resultado é claro: por
toda parte, inclusive nos próprios centros ocidentais, uma
parcela vertiginosamente crescente da população se vê
excluída de toda reprodução humanamente digna - suas vidas
são sacrificadas a critérios fetichistas da produção de
mercadorias. Isso não em virtude da maldade subjetiva, mas
porque se trata de um desvario universal do sistema. As reações
a este franco enlouquecimento da economia de mercado são de
pânico generalizado. Para salvaguardar a receita monetária,
forçam-se até mesmo "trabalhos" absurdos e nocivos à
população; os impostos ecológicos são minorados, a
destruição do mundo ganha velocidade. A esquerda e o Partido
Verde, entregues aos critérios da economia de mercado, têm de
rezar para que a acumulação do capital possa arrancar
novamente.
Quando a dúvida reina no campo
econômico, ecoa impreterivelmente o choramingo pelo Estado e
pela "configuração política" da catástrofe da
economia. Mas como se trata de uma crise do sistema, ela atinge
tanto o mercado de trabalho e de mercadorias quanto o Estado, na
condição de instância central secundária da produção de
mercadorias totalizada. O Estado não possui, aliás, nenhum meio
próprio de ação, pois tem de expôr seu "poder" e
suas medidas sociais e ecológicas por intermédio do mercado, na
figura do dinheiro. Endividamento excessivo e emissão de moeda
sem lastro substancial só levam à hiperinflação (hoje,
"situação normal" na maioria dos países). Com isso,
porém, a esquerda aferrada ao mercado se mete de vez numa camisa
de onze varas. De fato, ela jamais aprendeu algo diverso do
dirigismo estatal ou da distribuição de renda. O fim da
cantilena tem de ser necessariamente a colaboração infamante
com a administração anti-social da pobreza em nome do terror do
financiamento, a cujo sortilégio as lideranças
"realistas" do Partido Verde parecem agora entregues.
Quando não for mais possível deixar de notar o pistão fundido
da máquina de cunhagem, então virá à luz uma problemática
há muito soterrada, que zomba de todo "realismo" de
matriz mercadológica: os homens têm de assumir o controle de
suas próprias vidas, controle este perdido para o mercado e o
Estado. Com efeito, nos últimos 200 anos a dependência pessoal
ao senhor feudal só foi substituída pela burocracia estatal nas
várias ditaduras devotadas à modernização. A ideologia
(neo)liberal, por seu turno, prometeu a autonomia humana através
do mercado. Hoje está demonstrado que a ditadura -sem sujeito
-do dinheiro exclui com tanto mais razão a autonomia e aborta as
iniciativas individuais, já que as submete à lei da
rentabilidade. A maioria da humanidade atual tornou-se
infelizmente pouco rentável. As imposições do mercado e a
burocracia estatal são duas faces da mesma moeda. A saída para
tal miséria pode ser formulada apenas em termos gerais: é
imprescindível o desenvolvimento de atividades autônomas,
comuns à sociedade, e formas de reprodução para além do
mercado e do Estado. Para isso são necessárias tentativas
práticas e uma nova moldura teórica interdisciplinar, no
objetivo de transformar a crise histórica do sistema produtor de
mercadorias numa superação (Aufhebung) positiva. Quem
não procura, não acha. A transformação do sistema não
estará à disposição como uma oferta barata de supermercado.
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Mesmo que a pressão da crise já
faça ruir as vigas da sociedade mercantil, quem tenciona levar
uma vida para além do salário e do sucesso no mercado parece
postar-se desamparado ante um muro negro. Essa transgressão do
tabu é quitada com malícia e no tom grave da concordância com
os critérios dominantes do sistema pela destramelada
consciência de clã dos filofetichistas -consciência esta que
se limita, de bom grado, à rentável produção-bolha de sabão
("nova política industrial", "regulação
democrática", "apresentar programas de
conjuntura" ou mesmo "perceber os interesses
alemães"). Em sua vertente séria, ela não passa da
representação militante de alguma clientela e algum lobby no
campo de batalha da luta cega e encarniçada da concorrência:
egoísmo de ramo e empresarial, patriotismo regional e selvageria
social pululam como chagas na epiderme da sociedade. E o lema sem
rodeios é: ó Deus, fazei-nos mais ricos e lançai os outros por
terra!
4. A desvinculação entre
tempo e dinheiro
Seria obviamente descabido, na
atual situação de "estaca zero" em que se acha o
discurso teórico e político, anunciar a descoberta da pedra
filosofal. É preciso antes solucionar o problema de uma
desvinculação progressiva do nexo determinado pela trindade
trabalho-dinheiro-consumo de mercadorias. A "liberação do
tempo" há muito é palavra de ordem, sem que seus
protagonistas (Oskar Negt, por exemplo) jamais tenham sido
capazes de desligar-se do "trabalho" sob a
forma-mercadoria e do dinheiro. A práxis social, nesse meio
tempo, ensejou o debate sobre a redução da jornada de trabalho
sem compensação salarial, isto é, a jornada parcial. Com isso,
o sistema não é salvo, pois a racionalização não é barrada
e a diminuição da renda perpetua o ciclo de crise. Mas não se
trata também de uma simples desfaçatez capitalista, como o
salário reduzido para jornadas integrais (ou ainda o trabalho
forçado para os beneficiários da Previdência Social). Com
efeito, ao salário reduzido corresponde uma compensação: maior
"tempo disponível", que não precisa mais ser
regateado para tampar a boca dos assalariados. Claro, por falta
de dinheiro o tempo ganho não pode mais ser preenchido (conforme
ao padrão fordista) com o desvario do consumo e os infantis
brinquedos tecnológicos. Mas, justamente, ele abriria espaço
para aquelas atividades autônomas, para além do mercado e do
Estado.
Não se trata portanto de
rompimento aparentemente radical em comunas isoladas, como é
propagado por Rudolf Bahro. Semelhante alternativa permanece
absolutamente sem mediação em termos sócio-políticos e
arrisca assumir traços sectaristas. A troca de tempo disponível
por receita monetária reduzida, ao contrário, não suspende a
mediação social em crise. O terreno do trabalho assalariado
não é simplesmente abandonado à sua própria sorte, mas
permanece, como que numa estratégia dupla, a medida para as
ações (por exemplo, compensação salarial para grupos de baixa
renda, equiparação das mulheres, participação nas conquistas
sociais do trabalho parcial ao invés de empregos sem segurança
etc.)
Quais reproduções sociais
poderiam, em princípio, ser organizadas como autônomas, não
mais mediadas pelo dinheiro? Duas idéias básicas talvez sirvam
de ponto de partida. Primeiro: se o mercado apoderou-se apenas
progressivamente, num processo histórico, de todas as
mediações sociais, então algumas destas articulações lhe
podem ser atualmente retiradas, sem que as pessoas simplesmente
se furtem à sociabilidade. Segundo, a mudança tem de iniciar na
esfera individual e ser tangível praticamente no dia-a-dia. Um
exemplo aleatório: uma comunidade de compras que elimina as
etapas do comércio intermediário (e pode respeitar melhor que o
indivíduo a qualidade sensível e ecológica) é um pequeno
passo de desvinculação em face da lógica ubíqua do dinheiro.
André Gorz sugeriu algo semelhante para esferas como a
educação infantil e o cuidado de idosos, além da produção de
alimentos, consertos, atividades culturais etc. A
auto-administração e o auto-abastecimento não pautados pela
forma-mercadoria seria o princípio director. O importante é que
tais esferas não excluam as mulheres, sendo antes repartidas
entre ambos os sexos.
É pena que em Gorz estas
atividades autônomas, cuja matriz não é a forma-mercadoria,
sejam indiretamente dependentes do dinheiro, uma vez que ele
sugere, através de um modelo de subvenção (estatal), a
redução da jornada de trabalho com plena compensação
salarial. Com isso, o pressuposto tácito é a
acumulação bem-sucedida de capital e a posição do próprio
país como ganhador no mercado mundial, ou seja, seria, em
última instância, uma subvenção às custas dos perdedores no
resto do mundo. Na crise, este modelo é insustentável. Além
disso, Gorz é forçado a manter perfeitamente incólume o
"trabalho" capitalista nas grandes estruturas
reificadas (o seu progresso, de fato, há de financiar,
indiretamente, o todo). As atividades autônomas, cuja matriz
não é a forma-mercadoria, assumem assim como que o caráter de
um hobby pouco sério. Importa fazer, justamente, com que
tais atividades se desvinculem substancialmente do dinheiro, mas
não pareçam secundárias e inferiores -meras medidas de
emergência ou simples passatempo - e sim uma perspectiva de
desenvolvimento dotada de força própria.
Sobretudo, porém, a
transformação não pode parar por aí. Trata-se somente de
firmar um pé no chão para superar a paralisia da crítica
prática ao sistema totalizado do mercado. As pessoas já
independentes, com os pés firmes nas atividades comunitárias
auto-administradas, podem então proceder à crítica social e
ecológica da macroestrutura capitalista, com conhecimento de
causa. A produção destrutiva do mercado mundial tampouco pode
continuar intocada. Entre as atividades autônomas estão as de
crítica social e resistência prática. A discussão sobre os
custos ecológicos e sociais do sistema incluem-se aqui, assim
como a investigação crítica (ainda primária) das vias de
reprodução material, muitas vezes absurdas, exigidas pela
lógica da mercadoria. As atividades de reprodução não mais
mediadas pelo dinheiro poderiam, assim, ser entretecidas à
crítica ecológica e a outras iniciativas (Terceiro Mundo,
anti-racismo) numa nova urdidura crítica do capitalismo.
5. O deserto persiste
A crítica da forma-mercadoria
total sempre refulgiu na história de afirmação do sistema, sem
nunca deixar mais do que vestígios. O dinheiro liberto pôde
assim crescer à solta, enquanto a sua própria lógica ainda
não se esgotara - seja através das esporas das ditaduras de
modernização tardia, seja com o afago das gratificações de
consumo. Toda a crítica da mediação monetária e da
forma-mercadoria parecia apenas remontar à primitiva economia
aldeã e a velhos laços de sangue como unidade de produção
carente de necessidades e repressiva. Ainda hoje a exigência da
crítica ao dinheiro é repelida com tais referências. No atual
estágio de crise do sistema, porém, estes são argumentos
homicidas e irrefletidos. Nesse meio tempo, o próprio processo
de desenvolvimento capitalista deu origem aos potenciais que
permitem reformular a antiga questão.
Os próprios agentes há muito
foram a tal ponto individualizados pelo capitalismo que não há
mais que se falar num regresso à comunidade aldeã e à
reprodução com base no parentesco de sangue. Porém o
sofrimento causado pela individualidade abstracta do homem
mercantilizado cria novas formas de sociabilidade, nas quais se
reúnem as pessoas individualizadas: grupos de ajuda mútua,
comunidades de moradia, iniciativas civis, grupos de bairro,
sociedades e meios culturais etc. Tudo isso, sem dúvida, é
ainda muito precário, mas não sem perspectivas. Se nessas
formas já existentes a individualidade for respeitada e não
surgir nenhum terror psicológico, elas podem tornar-se uma
alternativa tanto à tutela burocrática do Estado quanto à
solidão lupina do dinheiro. É necessário mobilizar estas
formas e infundi-las de crítica social, talvez forçando-as a
abandonar seu caráter de hobby ou passatempo e
organizando-as como verdadeiras esferas reprodutivas, fora da
lógica do dinheiro.
Ao mesmo tempo, em razão das
novas forças produtivas, diminuíram as possibilidades de se
recair nos antigos meios primitivos. Antigamente, só se podia
imaginar a sociabilização como um grande aparato, no espaço
gigante de administração burocrática e suas máquinas enormes.
Ao contrário, a microeletrônica criou hoje uma miniaturização
tecnológica e informática que permite aplicar-se às diversas
etapas produtivas, inclusive em pequena escala. A par disso, a
ecologia nos fornece pequenos modelos de reprodução em rede
como alternativa à sociabilização grosseira da dobradinha
Estado-mercado. A crítica da forma-mercadoria e do dinheiro não
precisa mais voltar-se para trás; ela pode ao contrário ser
efetuada pelo homem moderno com meios modernos, como progresso na
evolução social. Ao final (depois de muitos debates), poderia
nascer um novo modo de regulação social, sem base na
forma-mercadoria, refletido em termos ecológicos/cibernéticos e
da "teoria do caos" - não mais um plano estatal
mecanicista, hierárquico e burocrático (como fora para o
problema da "modernização tardia"), porém uma rede
descentralizada e informatizada, em cujas partes o todo esteja
presente e o governo aja como "aliança horizontal", em
vez de vertical e burocrática.
Os elementos básicos da
miniaturização tecnológica, rede informática e
"individualidade organizada" como base da
transformação social proíbem, não obstante, uma crítica
reduzida da sociedade mercantil, caracterizada no "feminismo
de Bielefeld" de Claudia Werlhof, Maria Mies e outras por
uma recusa absolutamente indiferente da microeletrônica e de
todas as potencialidades da tecnologia informática. Apesar de
idéias importantes, os próprios meios escapam a essa crítica
"naturalista" (como em Bahro). O legado tecnológico do
capitalismo não pode ser, por outro lado, assimilado em sua
forma hoje existente - este se tornou, aliás, um lugar comum
ecológico. O que importa é selecioná-los criticamente, segundo
critérios da "razão sensível", em vez de
repudiá-los abstratamente.
Por exemplo, isto significa
utilizar de forma crítica os meios de produção e as
tecnologias informáticas modernas (inclusive as
"tecnologias de crise") e ao mesmo tempo desencadear
uma "revolução cultural", pela qual se exporá ao
ridículo o padrão de vida e consumo destrutivos deste sistema.
Não no sentido de uma conservadora "ideologia da
recusa" (que, de toda forma, mesmo na sociedade de mercado
total dependente do consumo de massas, permanece um sofisma), mas
como anseio alternativo de uma "vida melhor", norteada
por relações humanas satisfatórias e pelo prazer sensível. O
terror do tempo abstrato no sistema monetário total é tão
incompatível com isto quanto o lastimável consumo
compensatório. Seria preciso, por exemplo, uma campanha cultural
contra o automóvel como máquina essencialmente capitalista,
contra o turismo comercial de massas, e a favor de formas
alternativas de repouso e comunicação.
O conflito tem também, é claro,
um lado diretamente material. As atividades autônomas, não
pautadas pela forma-mercadoria, não podem ter lugar no vácuo.
São precisos recursos: terra, edifícios escritórios, oficinas,
jardins, meios de produção e comunicação etc. Estes precisam
ser exigidos do Estado e do mercado. Tais exigências tornam-se
tanto mais plausíveis quanto menos o sistema produtor de
mercadorias é capaz de administrar sensatamente os recursos e
quanto mais intactos e improdutivos se acham os meios essenciais
à vida, só porque não satisfazem ao fetiche da rentabilidade.
Para "dar início ao fim" da lógica monetária caberia
ainda, ao lado dos recursos materiais, exigir até mesmo dinheiro
do Estado - para investimentos que servirão de impulso às
atividades autônomas (o que seria algo fundamentalmente diverso
do modelo subvencionista). O movimento alemão ocidental por
centros autônomos de comunicação nos anos 70 e o movimento de
ocupação de casas nos anos 80 foram os precursores destes
conflitos. A questão elementar será cada vez mais a da
propriedade de terra. O único objetivo é excluir a terra da
esfera da compra e venda, isto é, desvinculá-la, como
fundamento da vida, do dinheiro. Aqui seria necessário, porém,
desenvolver institucionalmente um critério decisório
comunitário e autônomo acerca da utilidade, em oposição a um
burocrático e centralista, como era característico do
socialismo de Estado.
Tudo isso mostra que o deserto da
sociedade de mercado total ainda não está inteiramente morto.
Formas de vida alternativa, iniciativas de desempregados e
"subsistência dissidente" estão em alta em toda a
Europa. Nelas, somam-se experiências de que a teoria pode
lançar mão. Basta vincular tais esforços à análise da crise,
ao debate sobre a redução da jornada de trabalho e à critica
básica da produção mercantil, para assim chegar a um novo
programa integrado de crítica social radical.
Original
Gibt es ein Leben nach der Marktwirtschaft? em www.exit-online.org.
Publicado
em Neues Deutschland, 18/19.06.1994. Tradução portuguesa de José
Marcos Macedo publicada na Revista PRAGA, nº 4, S. Paulo, 10/1997